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Só se perdem os que caem no chão

"É quando um menino manda muitos beijinhos", disse o José a explicar-me o que é uma carta de amor. Já sabem que o José é o pequenino deus que ainda há tão pouco tempo andava de fraldas e que faz a alegria da minha casa.
22 de Setembro de 2013 às 15:00
Maria Inês Almeida, crónica, anda uma mãe a criar um filho
Maria Inês Almeida, crónica, anda uma mãe a criar um filho FOTO: Ricardo Cabral

Pensava eu que ele era um deus, loirinho e de olhos azuis, e o que eu ainda não sabia é que tinha criado um Cupido. Sem saber ler nem escrever e já lança setas. Agora quer que eu lhe escreva uma carta de amor. Quer, já percebi, ferir um coração. E não é que conseguiu?! Sem saber, feriu o meu.

Eu a pensar que era a única, uma santa como não há, nem nunca haveria, em mais nenhum altar, e ele troca-me, assim, pelo primeiro bibe que lhe aparece. Tenho a certeza que a pobrezinha ainda precisa que lhe levem a sopa à boca, ainda mal se aguenta numa bicicleta sem rodinhas e nem pela cabecinha lhe passa o que custa uma mulher equilibrar-se num par de saltos agulha de 12 centímetros.

Que interessa, o José vê nela o que não vê em mais ninguém e quer escrever-lhe uma carta de amor. Olha, meu filho, do mal, o menos, antes uma linda carta do que uma sms cheia de kápas e smiles. O amor gosta de papel e sobrescrito.

Dá cá a tua mão, José, que vamos escrever os dois. Queres começar com beijos? Não, beijos é no fim. Começa com "meu amor". É um valor seguro, sobretudo se lhe disseres a seguir uma coisa que a surpreenda. Fruta: "meu moranguinho selvagem." Um gelado que ainda está calor: "meu marron glacé." Parece-te totó, querido? Mas nós as mulheres somos assim, derretemo-nos com o que há de mais parvo. Ou é isso ou um diamante da Tiffany.

Outra vez beijos, José? No fim, filho. Agora, faz-lhe promessas. O sol e a lua. Oferece-lhe estrelas, um palácio. Sim, comerem um hambúrguer de mão dada, também pode ser.

Estás a ver, ela já está de olhos fechados, a cabeça cheia de sonhos. É boa altura para lhe dares mil beijos de adeus. Beijos, meu filho, só se perdem os que caem no chão.

Maria Inês Almeida crónica anda uma mãe a criar um filho
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