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Sobrainho dos Gaios

“Ficaram fascinados com a estranha escola que acolheu a mamã quando ela tinha a idade deles”
26 de Agosto de 2012 às 15:00
Sobrainho  dos Gaios
Sobrainho dos Gaios FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

Nestas férias a Teresa fez questão de levar os miúdos a Sobrainho dos Gaios, uma minúscula aldeia do concelho de Proença-a-Nova, perdida nas serras do Pinhal Interior, que há dez anos tinha 93 habitantes e que hoje em dia deve ter ainda menos. Foi aí que ela fez a primária, numa daquelas escolas minúsculas com arquitectura típica do Estado Novo, que hoje em dia envelhecem aos milhares, completamente abandonadas, por todo o Portugal.

A Teresa (e respectiva família) tem uma história de vida incrível, que um dia merecia ser contada. Ela nasceu em 1975 em Lourenço Marques (actual Maputo) e a família foi apanhada no turbilhão da independência: perderam tudo numa altura em que já tinham cinco filhos, e devido à confusão do regresso a Teresa acabou por ser criada nos Montes da Senhora (outra aldeia de Proença-a-Nova), por três primas que foram em simultâneo suas avós, mães e irmãs, num cruzamento de afectos para o qual não existe nome no dicionário mas que ocupa um latifúndio no nosso coração.

Entretanto, uma dessas primas – que se chama Maria Helena, mas que hoje em dia todos tratamos por Memi por ser esse o nome que a Teresa lhe chamava quando era bebé – era professora primária (e motorista voluntária dos alunos que viviam longe) e deu aulas à Teresa nessa tal aldeia de Sobrainho dos Gaios. E assim, neste Agosto decidimos ir até lá, num passeio nostálgico que acabou com a Carolina empoleirada nos meus ombros a espreitar para a sala vazia por uma janela partida, porque as escolas construídas no Estado Novo tinham janelas muito altas, certamente para as crianças não se distraírem com a paisagem.

A Teresa foi uma óptima anfitriã. Os miúdos ficaram fascinados com a estranha escola que acolheu a mamã quando ela tinha a idade deles, com um poste de ferro onde a bandeira portuguesa era erguida todas as manhãs, um alpendre onde comiam o que tinham trazido de casa e um aquecedor a lenha para ajudar a suportar o terrível frio do Inverno. Mas a mais fascinada era a própria Teresa, que lamentava a morte da mimosa onde antigamente se escondia e se espantava por tudo aquilo – a escola, o recreio, os muros – lhe parecer hoje tão pequeno. Suponho que seja esse o segredo da infância e a razão de ela nos parecer tão ilimitada e cheia de possibilidades: o mundo tem o dobro da dimensão quando nós temos metade do tamanho.

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