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Sobreviver a um enfarte do miocárdio

Mata quatro mil pessoas por ano em Portugal, mas a rapidez com que se atua pode salvar vidas.
Marta Martins Silva 8 de Dezembro de 2019 às 12:00
Exercício físico
Exercício físico FOTO: Direitos Reservados

Quando os primeiros sintomas de enfarte começaram, foi a filha de Maria Rueff quem telefonou para o 112, quem lhe deu a mão na ambulância, quem esperou nas Urgências do Hospital de São José que se confirmasse o diagnóstico, quem acompanhou a transferência da mãe para o Hospital de Santa Marta – onde seria feito o cateterismo – e quem pôs a par de tudo amigos e familiares. Laura só tem 15 anos mas agiu de forma adequada, levando a mãe a dizer que foi a filha quem a salvou, o que não anda longe da verdade.

"Agir corretamente pode significar a diferença entre a vida e a morte; ou entre a vida com qualidade e a vida com um coração que ficou despedaçado", alerta o cardiologista Pedro Farto e Abreu, coordenador nacional do ‘Stent save a life’, promovida pela Associação Portuguesa de Intervenção Cardiovascular. E agir corretamente em caso de enfarte do miocárdio – uma doença que mata quatro mil pessoas por ano em Portugal (ou 360 por mês) e que significa a morte das células musculares do coração provocada pela oclusão de uma artéria que irriga essa zona – passa por ligar para o 112 assim que se tem os primeiros sintomas, em vez de se pôr a caminho, seja em carro próprio ou conduzido por um familiar, do hospital da área de residência (que pode não ter unidade de Cardiologia de Intervenção e por isso não estar apto a tratar a qualquer hora do dia estes casos que não podem esperar).

"Como o grande perigo do enfarte é a morte súbita por arritmia cardíaca, a partir do momento em que está junto do 112 o doente tem a possibilidade de ser desfibrilhado, portanto logo ali temos a possibilidade de diminuir a taxa de mortalidade. Além disso, o 112 também tem a capacidade de perceber, através do eletrocardiograma, se a pessoa faz parte do subgrupo de doentes com enfarte que devem ser tratados imediatamente", continua o diretor da unidade de Cardiologia de Intervenção do Hospital Fernando da Fonseca, na Amadora.

Nestes casos, o mais depressa possível significa que é urgente fazer uma angioplastia coronária, que consiste na colocação de um cateter fino na artéria obstruída, através do qual se introduz um balão que quando insuflado permite a abertura da artéria e o restabelecimento do fluxo sanguíneo. Na maioria das vezes, este procedimento é complementado com a colocação de um stent, um pequeno tubo de rede metálica que tem como função manter o vaso aberto.

Fatores de risco
Os fatores de risco mais vulgares para o enfarte do miocárdio são a hipertensão arterial, a diabetes, o colesterol elevado, o tabagismo, a história familiar - "há um peso familiar muito importante, particularmente quando há familiares chegados com doença coronária manifestada cedo na vida, abaixo dos 65 anos" – e o stress ("cada vez mais é um fator de risco"). "O frio também – muitos dos ataques de dor no peito são agravados pelo frio", alerta também o médico Pedro Farto e Abreu.

Mónica Abreu, hoje com 53 anos, sofreu um enfarte e passou por este processo há uma década, numa manhã em que se preparava para sair de casa para ir trabalhar. "Senti um aperto no peito, comecei a transpirar, a ficar agoniada. Felizmente tinha uma pessoa que trabalhava lá em casa – os meus filhos já tinham ido para a escola – que chamou o INEM e os bombeiros vieram logo. Eu nunca pensei que pudesse ser do coração porque eu não tinha antecedentes nem fatores de risco: tinha 43 anos, tensão baixa, fazia uma alimentação regrada, tanto que nunca se encontrou nenhuma causa. No meu caso associou-se ao stress, porque tinha muito trabalho e descansava pouco", conta Mónica, que conciliava um alto cargo numa empresa com as exigências da maternidade, um somatório de cansaço que a foi consumindo sem que se apercebesse de que podia, graças a isso, vir a correr risco de vida.

"O Dr. Pedro [Farto e Abreu, que a assistiu no Hospital Fernando da Fonseca] comentou que eu tive muita sorte. Mas na verdade eu nunca estive inconsciente, se ele não dissesse eu não percebia a gravidade da situação. Um bombeiro até me disse na ambulância: ‘Há aqui um problema com a sua máquina.’ Mas nunca pensei que fosse um enfarte, estava longe de imaginar."

Ricardo Silva também, apesar de ser seguido por um cardiologista por causa da tensão depois de ter perdido a mãe com um AVC hemorrágico. "Nunca tive colesterol elevado, nunca fui obeso, nunca fumei, álcool muito raramente bebia. Acredito que se tenha devido ao stress", conta este funcionário da TAP, onde faz a gestão da frota a nível de avarias. "A exigência do trabalho, o falecimento da minha mãe, a preocupação com as minhas filhas – eu sou pai divorciado... Quando os furinhos do queijo se ajustam todos, alguma coisa acontece e foi o enfarte o que me aconteceu", acredita três anos depois do susto. "Estava na baía de Cascais a fazer padel e começou a dar-me um aperto no peito, inicialmente pensei que fosse um problema respiratório", conta Ricardo, que foi à Urgência da CUF de Cascais já sem forças e de imediato foi transferido para a CUF Infante Santo, onde Farto e Abreu o operou. Perceber a gravidade dos sintomas é fundamental.

"Há sintomas que se associam muito à dor do enfarte: é uma dor no peito mas não é uma dor tipo picada nem apontada com um dedo. É uma dor tipo aperto, peso, geralmente ocupando uma parte considerável do tórax; muitas vezes acompanha de suores, náuseas, sensação de mal-estar, geralmente essa dor, que começa no peito, irradia para as costas, para os maxilares como se fosse uma dor de dentes, para os braços, para o cotovelo. É uma sensação desagradável, apesar de haver outro tipo de doenças que podem dar alguns sintomas parecidos com estes. Mas nós temos feito uma campanha muito grande no sentido da identificação dos fatores de risco, da identificação dos sintomas", alerta o médico.

Ainda assim, os progressos têm sido muitos, garante o cardiologista. "Estamos a apontar para as 600 angioplastias por um milhão de habitantes, as primárias, as que são feitas na fase aguda de enfarte, e o objetivo do Ministério da Saúde é baixar a mortalidade do enfarte para 7 por cento em 2020. Neste momento, a mortalidade hospitalar está em 9 e tal por cento, mas há muitos doentes que morrem de morte súbita antes de chegarem ao hospital e que não entram nesta estatística", explica o médico, que também tratou Jorge Vicente, antiga glória do hóquei em patins do Benfica, clube em que jogou na década de 60 e 70.

Foi há cinco anos, num final de agosto. Quando regressou de umas férias nos Açores, de onde é natural, começou a sentir os primeiros sintomas. "Às vezes estava sentado no sofá e dava-me uma pontada no peito e eu achava que era nas costas e não valorizava. Até que comentei com a minha filha e disse-lhe que não sabia se a dor era nas costas se era à frente. Ela disse ‘não tens nada que te pôr aí a pensar, vamos ali ao centro de saúde’ e o médico já não me deixou sair dali. ‘Você tem aí uma coisa grave’, disse o médico", que o encaminhou para o hospital. Foi lá que conheceu Pedro Farto e Abreu.

"O doutor reconheceu-me do hóquei", conta orgulhoso Jorge Vicente, hoje com 72 anos, e a quem o enfarte não impediu de fazer uma vida normal. "Há cinco anos que todas as quartas-feiras e fins de semanas jogo ténis a pares e é a minha atividade física. E todos os dias de manhã, das 9 horas até às 10h30, faço a minha caminhada e os meus exercícios e sigo a receita que o doutor me disse, que é comer mais carnes brancas e mais peixe." Além da mudança de menu passou a dedicar-se mais à família e espera "ter mais uns anitos pela frente" para ver crescer a neta Júlia, de seis anos. Mónica Abreu começou a respeitar o descanso que o corpo precisa e Ricardo Silva saiu de Mem Martins e foi morar para a Costa da Caparica, perto do mar de que tanto gosta.

Iker Casillas, o guarda-redes espanhol que sofreu um enfarte do miocárdio em maio deste ano, voltou a pegar nas chuteiras seis meses depois do susto. "Não sabes onde colocas o limite em situações extremas. Só vale esforçares-te e seres teimoso. Conseguir algo que já foi teu", partilhou.

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