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“Sócrates e Salgado são o espelho um do outro: são gémeos”

‘A Vénia de Portugal ao Regime dos Banqueiros’, o novo livro de José Gomes Ferreira, descreve promiscuidades com políticos.
Débora Carvalho 24 de Setembro de 2017 às 06:00

Dos três principais políticos no período da maior crise financeira em Portugal após 1974, Passos Coelho foi aquele que manteve uma relação mais tensa com Ricardo Salgado, então o banqueiro mais poderoso de Portugal. E tudo pela recusa do Governo em aprovar um financiamento de dois mil milhões de euros da Caixa Geral de Depósitos ao Banco Espírito Santo. "Passos Coelho confidenciou várias vezes aos mais próximos que sempre teve orgulho em nunca ter pedido nenhum favor a Ricardo Salgado. Sempre achou que era melhor separar política e negócios", escreve o jornalista José Gomes Ferreira, autor do livro ‘A Vénia de Portugal ao Regime dos Banqueiros’ (Oficina do Livro).

"Já como primeiro-ministro, teve um dia uma conversa com Ricardo Salgado e no final o banqueiro diz- -lhe que se precisar de alguma coisa diga. Na altura, Pedro Passos Coelho pensou que ‘este tipo de oferta e ajuda, eu não a vou querer nunca’", revela José Gomes Ferreira, que dá conta de outros episódios passados com o antigo ‘Dono Disto Tudo’. "Ainda antes de ser primeiro-ministro, houve um convite do banqueiro para conversarem na casa dele e o então líder do PSD disse que não. ‘Se quer conversar sobre problemas da Banca venha à São Caetano’". Passos Coelho procurou sempre afastar qualquer suspeita de promiscuidade com o banqueiro. "Quando recebeu novamente um convite para uma conversa na casa do banqueiro, o então primeiro-ministro responde que não e que se ele quer falar da Banca vem à residência oficial do primeiro-ministro".

0 amigo Sócrates

Por seu lado, José Sócrates foi provavelmente o principal aliado dos banqueiros portugueses nos seus dois mandatos de primeiro-ministro, entre 2005 e 2011. "Ricardo Salgado tinha uma proximidade muito grande com José Sócrates. Não há muitos testemunhos deles terem jantado ou almoço juntos, mas há fontes que o confirmam", garante José Gomes Ferreira.

A conjugação de interesses de José Sócrates e de Ricardo Salgado no BES, na Portugal Telecom, na Ongoing era evidente. Aliás, estas ligações perigosas são investigadas no âmbito da Operação Marquês, onde ambos são arguidos. Ricardo Salgado é apontado pelo Ministério Público como o principal corruptor do antigo primeiro-ministro. "O ‘fazer banca’, para Ricardo Salgado, era alavancar-se. Era a fuga para a frente com a ideia de que ‘preciso de fazer negócio, endivido-me e depois endivido-me ainda mais para resolver esses problemas’. Foi o que fez José Sócrates com o País. São o espelho um do outro. São gémeos. Um na Banca e outro na política", diz.

A relação com Portas

Do lado dos centristas, Ricardo Salgado terá conseguido um aliado. Depois da resolução do Banco Espírito Santo, no final de 2014, terá havido uma aproximação a Paulo Portas, então líder do CDS-PP, durante bastante tempo. "Essa aproximação terá sido bastante intensa e terá havido interesses mútuos na Banca e na política. Um dos episódios relatados no livro é a atitude do então ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, em que há um período para o fecho de negociações com a troika. Passos Coelho e grande parte do Governo tentam ou que Paulo Portas aceite as medidas propostas ou que proponha outras, e ele não aceita".

Nos corredores partidários, a tese de que haveria outro interesse que motivava Paulo Portas ganha força. "Várias fontes adiantam que terá havido interesse de Paulo Portas na aproximação a Ricardo Salgado. Um facto determinante desta tese é que tendo Vítor Gaspar [ex-ministro das Finanças no Governo de Passos Coelho] apresentado a demissão no dia 1 de julho, uma segunda-feira, e Paulo Portas no dia 2, na terça-feira, no dia seguinte, Paulo Portas é visto a entrar para uma reunião com Ricardo Salgado na sede do BES".

Com Costa seria diferente

"Acho que [o destino do BES] teria sido diferente", diz José Gomes Ferreira, quando lhe é perguntado o que aconteceria se António Costa fosse primeiro-ministro e Marcelo Rebelo de Sousa o Presidente da República. Em sua opinião, se Costa fosse primeiro-ministro em julho de agosto de 2014, o BES provavelmente teria sido ajudado com um empréstimo de emergência concedido pela CGD e BCP. "O primeiro-ministro [António Costa] teria arranjado uma solução de recapitalização do BES, eventualmente com a saída de Ricardo Salgado. Provavelmente com parte da família ainda ligada ao banco", frisa.

José Gomes Ferreira novo livro
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