Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
8

SOL A PINO

Os habitantes da vila mais quente de Portugal resistem bem ao calor. Para eles, há problemas maiores
1 de Agosto de 2004 às 00:00
Os sinos da igreja estão quase a dar as dez badaladas quando António Ranhado pega na bicicleta e inicia a romaria diária de quilómetro e meio até ao Baldio das Ferrarias, onde durante quase toda a vida foi guarda-florestal. É lá no alto, entre pinheiros e ervas secas, que se esconde a pequena estação meteorológica onde todos os dias se comprova que a Amareleja é a localidade mais quente de Portugal.
No passado fim-de-semana, por exemplo, os termómetros chegaram a marcar 43,5 graus, marca ainda longe dos 47,3 registados o ano passado, e há manhãs em que o Sol mal começou a raiar e o mercúrio já atinge os 39. A temperatura escaldante, aflitiva para os forasteiros devido a um vento seco, abafado, não assusta o senhor António, que aos 73 anos continua a não dar sinais de cansaço.
“Sabe, estou habituado, vivi aqui e já tinha feito isto antes. Há coisa de cinco anos aceitei voltar. Não me chateia muito, embora certas manhãs a temperatura já esteja alta. Às vezes, um tipo vê-se à rasca, em especial a malta mais velha”, conta com um típico e arrastado sotaque alentejano, explicando que a margem esquerda do Guadiana é muito seca. O calor chega em Maio, para desaparecer apenas no fim de Setembro.
Manuel Carvalho, presidente da Junta de Freguesia, partilha da mesma opinião, e fora um ou outro dia mais abrasador, lá vai comandando os destinos da vila sem grandes aflições. “Se isto fosse anormal tínhamos de pensar num plano para ajudar a população, mas como toda a gente está habituada, não há razões para intervirmos. Até morreram mais idosos antes desta vaga de calor do que agora, porque as pessoas já estão de sobreaviso.”
Manuel saiu da Amareleja aos 18 anos, viveu nas imediações de Lisboa durante meio século, e regressou após a reforma. Habituado a visitar a terra regularmente, em especial no período de férias, não estranhou as condições climatéricas extremas, embora confesse que muitos dos que partiram e voltaram muito anos depois parem pouco por ali devido às altas temperaturas.
Perderam as resistências, e há mesmo quem não visite a área no Verão. “São dias terríveis, e muita gente evita a Amareleja por se ter desabituado de suportar dias seguidos com mais de 40 graus. Isto aqui foi sempre assim, estamos no epicentro do calor na Europa.”
Para aproveitar a bênção do Sol - é um dos locais do planeta que durante mais horas sente a força do astro-rei -, a localidade vizinha da até há bem pouco tempo a polémica Barrancos vai ter a maior central de energia solar do mundo.
Serão mais de 100 hectares de painéis fotovoltaicos, com capacidade para produzir 64 megawatts de energia distribuída ao País através do Alqueva. A população mostra-se dividida. Enquanto uns esfregam as mãos e pensar na retoma, outros receiam novo aumento da temperatura.
A par disso, existem outras preocupações capazes de tirar o sono ao autarca, entre elas a má qualidade da água canalizada, que muitas vezes sai da torneira com uma cor acastanhada, um cheiro desagradável e uma textura oleosa, marcas deixadas por um microrganismo que há algum tempo se instalou no Rio Ardila devido... ao calor.
Totalmente imprópria para consumo - até os banhos são condicionados -, tem dado pano para mangas e muitas dores de cabeça à população. Os únicos recursos alternativos acabam por ser os poços espalhados pelo campo, onde as condições também se revelam duvidosas.
No total, a água do Ardila é o calcanhar de Aquiles de cinco das seis freguesias rurais do concelho de Moura. A solução para matar a sede acaba por vir do precioso líquido engarrafado.
ÁGUA À REFEIÇÃO
José Gomes leva 15 anos à frente do Baldosa, restaurante onde por esta altura do ano a água vence aos pontos qualquer outra bebida, inclusive o tão famoso vinho da região. No final de cada refeição, são muitos os clientes que por hábito pedem garrafas de litro e meio do líquido cristalino, com o ‘stock’ a desaparecer num abrir e fechar de olhos.
“Movimenta-se muito dinheiro na água. Chego a vender 30 garrafas grandes ao almoço, para apenas três de vinho. Além das que se bebem aqui, muitas são para os clientes consumirem durante a tarde. Ainda há pouco estava aqui um grupo que levou seis ou sete.”
Conhecedor da restauração, arrisca dizer que este deve ser o melhor negócio da zona, a par com outros dois: ares condicionados e ventoinhas. E se os líquidos ainda escorregam bem, o comer está em quebra acentuada. O Baldosa tem acolhido metade da clientela habitual, muito por culpa da falta de dinheiro para pequenos luxos como jantar fora.
Enquanto não chegam melhores dias, José Gomes e conterrâneos resistem a tudo, inclusive ao calor, que lá fora, a meio da tarde, transforma a Amareleja numa vila fantasma.
Vestido de luto devido à morte da esposa, Francisco Moreira é um dos poucos que corajosamente enfrenta o Sol. Aos 74 anos, palmilha a vila em passos curtos, fazendo o circuito dos cafés onde o vento fresco do ar condicionado ajuda a recuperar forças. “Dou-me mal com este tempo, na minha idade torna-se difícil suportá-lo, e mesmo em casa a ventoinha está sempre ligada, se não torna-se impossível. Custa-me mais agora do que quando trabalhava no campo. Aquilo era duro, mas o sangue tinha outra força. Olhe, para aqui vamos, como Deus queira”, solta bem-disposto, para logo depois revelar que continua a beber o seu copinho de vinho, entremeado com muito litros de água bem gelada.
Nascida no mesmo ano que António, Ana Silva utiliza idêntica estratégia para contornar o calor, anda sempre pela sombra quando o Sol está a pique e também ela se queixa do exagero com que os termómetros sobem. “Há alguns anos parece que o clima não era tão forte, que se aguentava melhor.”
FORÇA ALENTEJANA
À beira de um café do centro da Amareleja, José Manuel faz-se valer dos seus ainda poucos 48 anos para desdramatizar a questão do calor. O sangue, ainda novo e forte, leva-o a considerar que a situação tem vindo a ser exagerada pelos meios de informação: “Agora fala-se muito nas televisões e nos jornais mas isto já é assim desde a época medieval.
Nós sempre tivemos esta ‘calma’, e os alentejanos estão imunizados. Neste momento, estamos dentro dos padrões normais para a região. Hoje, por exemplo, estão 38 graus e parece a nossa Primavera”, adianta em tom de gozo.
José Valentim, 65 anos, acena com a cabeça em sinal de concordância e completa o raciocínio do amigo: “Para quem vem de fora é complicado, a malta sofre um bocado. Há pessoas que chegam aqui pela primeira vez e parecem perus de asas abertas”, solta antes de uma gargalhada.
Habituado a pastar cabras nos terrenos a descoberto dos raios solares, onde não há um chaparro ou uma oliveira que lhe dê abrigo, nunca se sentiu mal, até porque uma samarra resolve o problema. Afinal, aquela zona tem grandes amplitudes térmicas, é muito fria no Inverno e quente no Verão, “e o que tapa o frio tapa o calor”.
José Manuel interrompe-o e volta à carga para revelar aqueles que para ele são os verdadeiros problemas da Amareleja, entre eles o êxodo rural. A agricultura está moribunda, os campos desertos porque as colheitas de sol a sol acabaram, os produtos espanhóis inundaram o mercado e resta muito pouco dos bons velhos tempos.
A juntar a toda a conjectura negra, José Manuel acredita que as contrapartidas da instalação da central de energia fotovoltaica serão absorvidas pela sede de concelho, em vez de beneficiarem directamente a população local.
“Aqui ficamos ‘só’ com mais dois graus de calor, enquanto os postos de trabalho vão todos para Moura. Os políticos não querem saber da gente, e qualquer dia chegamos aos 50 graus. Aí é que vai ser um inferno.”
POPULAÇÃO DIVIDIDA
Os 2750 habitantes da Amareleja encontram-se divididos em relação à construção daquela que será a maior central de energia solar do mundo. Na Junta de Freguesia apregoa-se que ela constituirá uma mais-valia para o País, mas nas ruas são muitos os descontentes com a ideia, receando uma súbida de dois graus face às actuais temperaturas.
Apesar disso, as obras devem avançar até ao fim do ano, dado ter sido já gasto dinheiro na obra e contactadas empresas estrangeiras.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)