Somos como os futebolistas mas sem os benefícios fiscais

Ao fim de 27 edições, disse adeus às passerelles da ModaLisboa, mas promete voltar como mera espectadora das “guerras de egos” que lhe cansam a paciência e a beleza. Aos 32 anos, Ana Isabel, uma das mais internacionais manequins portuguesas, está de bem com a idade e vê-se a dar cartas no nicho reservado às mulheres maduras que fazem das experientes rugas o melhor cartão de visita. Em Portugal, o mercado para quem passa os 30 ainda é raro. Tal como é raro o acompanhamento das manequins em início de carreira. É com elas que gostava de trabalhar em breve. Terminado o curso de Psicologia, já começou a deitar mãos à massa das terapias alternativas a que se quer dedicar. E a curto prazo, quem sabe, ser mãe. “Vamos ver, gostava!”
16.03.08
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Somos como os futebolistas mas sem os benefícios fiscais
Foto Bruno Colaço
- Qual é a sensação de desfilar pela última vez na ModaLisboa?
- Acho que foi um bocadinho um alívio porque já estava muito cansada de uma série de coisas que agora vou deixar para os outros. Fiz contas e foi a minha 27ª edição. Assim que comecei a ser manequim, em 94, comecei a fazer a ModaLisboa.
- O que é que a cansava mais?
- Essencialmente a guerra de egos entre tudo. É muito ego para gerir. Cansa-me muito, também, as pessoas que não sabem fazer mas fazem de conta que sabem. Cansam-me as horas entre desfiles sem fazer nada, as conversas ocas... E não só na Moda-Lisboa. Eu adoro a ModaLisboa, e vou continuar a ir, mas agora para assistir, ou então convidada uma vez ou outra por um criador. Agora é passar para coisas diferentes.
- Já tem planos?
- Já tenho ideias. Tirei o curso de Psicologia entretanto e estou a começar a trabalhar numa clínica no Areeiro. É um espaço de saúde e comportamento alimentar, o SCA. É por aí que quero ir. E trabalhar com adultos. Agora vou fazer uma quantidade de workshops, porque quero seguir uma área abrangente, com uma série de técnicas de outras áreas para a minha terapia, como a biodança.
- Como vai conjugar a Psicologia com a ainda ligação à moda?
- Ainda não estou a 100 % na Psicologia porque ainda vou ter trabalhos na moda. Não posso ter um cliente e dizer--lhe que amanha não venho porque tenho um desfile. É uma coisa que quero que seja gradual. Vou deixando de fazer certas coisas, como a ModaLisboa e fazer trabalhos, como publicidade, alguns desfiles e um catálogo ou outro.
- Está preparada para lidar com o eventual preconceito, pelo facto de vir da Moda?
- Estou preparada, não me incomoda nada. O que tenho que provar às pessoas é na altura, logo me darão o voto de confiança ou não. Normalmente este tipo de comentários acontece quando os modelos vão para actores. É uma parvoíce. Há manequins óptimos como actores, outros péssimos. Assim como há actores que nunca foram manequins e também são péssimos ou óptimos.
- Quando tirou o curso pensava já fazer uso dele mais tarde?
- Na altura foi uma questão de valorização pessoal. Estive bastante tempo sem estudar, depois tive saudades e, passados cinco anos, resolvi ir para a faculdade. Nunca faço planos a longo prazo. Agora a Psicologia é um plano mas também não sei como vai ser daqui a dois ou três anos. Mesmo a própria Moda foi um bocadinho por acaso. Calhou. Entretanto passaram 14 anos!
- A Moda também é uma boa bagagem para a Psicologia...
- Claro que é! Todo o mundo da Moda é muito rico. Alias, uma das coisas que gostava, eventualmente, é fazer algo dentro da Moda em termos psicológicos. Acho que deveria haver acompanhamento das manequins muito novas, por exemplo.
- Esse trabalho não é feito cá?
- Ainda não há. As agências têm sempre uma palavra, mas falta a outra componente. Estamos a falar de pessoas que saem muito novas de casa. De repente perdem uma parte essencial da adolescência e pode ser complicado. Digo isto por experiência própria, porque apesar de ter saído de casa aos 18 anos, sinto que não estava preparada para uma quantidade de coisas.
- Hoje é mais ou menos agressivo para uma miúda que começa?
- Se calhar agora é mais agressivo, há mais manequins. Provavelmente agora há mais trabalho em determinadas áreas e menos noutras. Há mais publicidade, mas há menos revistas. Ou melhor, há mais revistas mas os editoriais não são feitos cá.
- A Ana é uma das manequins portuguesas mais internacionais. Foi decisiva essa fase?
- Hoje em dia consigo perceber que essa fase foi importante, mas foi muito difícil. Vinha de uma terra pequenina, filha única protegida e de repente vi-me entregue aos lobos lá fora. Por incrível que pareça, sou um bocadinho bicho do mato e não gosto de muita gente ao mesmo tempo. Tenho sempre a sensação de que podia ter feito muito mais.
- Recorda-se de recusar trabalhos?
- Ah, recusei imensos trabalhos! Sobretudo os de viagens muito grandes, porque nunca gostei de andar de avião, tenho um bocado de medo de aviões! A minha agência chateava-se comigo porque eu passava a vida a recusar coisas extraordinárias! (risos)
- Vai abrandando na Moda. Preocupa-a a ideia de envelhecer, sobretudo tendo o corpo como ferramenta de trabalho?
- Acho que agora começo a pensar mais nisso. Custa sempre um bocadinho, apesar das pessoas dizerem que não, principalmente às mulheres, e sobretudo às mulheres que, como eu, sempre viveram da imagem. Mas também não é assim nada de extraordinário ou doloroso. Se calhar, gostava que as rugas não me aparecessem tão cedo!
- Acusou o factor ‘trinta anos’?
- Senti, isso senti. Achei sempre que era uma ideia feita, mas não. Senti até mais em termos psicológicos, uma mudança na forma de viver, de estar com os outros. Foi mais de crescimento interno do que de aspecto. Apesar, claro, a partir dos 30 havia determinadas coisas que achava que devia fazer, como os antioxidantes.
- Que cuidados passou a ter?
- Noto que a partir dos vinte e tal, quase trinta anos, começo a ter um bocadinho mais de cuidado. Sempre tive imensos cuidados com a pele, sempre usei cremes para tudo. Bebo muito água e como muitas vezes durante o dia, já faz parte do sistema.
- Vê-se a recorrer a intervenções plásticas, por exemplo?
- Sim, não me incomoda nada. Se tiver dinheiro e achar que sim, claro. As pessoas devem fazer tudo para que se sintam melhor.
- A carreira na Moda é muito semelhante à de um futebolista. É fácil gerir a questão do ‘prazo de validade’?
- Uma das coisas que pensei nesta ultima ModaLisboa foi: “Há ali miúdas que podiam ser minhas filhas!” (risos). Não me faz confusão, é mais pela piada. Somos como os futebolistas, é verdade, infelizmente não temos os mesmos benefícios fiscais!
- Por outro lado, também se abre um mercado para as mulheres maduras.
- Sim, aliás, é uma coisa muito estranha o facto de não existir este mercado em Portugal. Existe imenso nos outros países. A minha agência em Espanha está doida para que eu vá passar uma temporada lá porque têm falta de manequins mais velhas. Por exemplo, um carro, uma jóia. Não se vai pôr uma miúda de 13 anos ao lado!
- Imagina-se a dar a cara por trabalhos deste género, no futuro?
- Se achar que na altura faz sentido, sim. Não nego nada à partida, logo se vê.
- Houve alguma coisa que gostava muito de ter feito e não chegou a fazer - e quem sabe possa realizar agora ou mais tarde?
- Gostava de ter fotografado com o Peter Lindbergh. É o meu fotógrafo de eleição. Lembro-me que na altura estava em Paris, há muitos anos, e tive um casting com ele, e o mais engraçado disto tudo é que na altura ele gostou imenso de mim, mas achou que eu era muito nova! Devia ter uns 23. Ele gosta de fotografar mulheres mais maduras. Achei piada. Se calhar agora devia lá ir para ver se dava!
PERFIL
Presença assídua nos desfiles de Tenente e Nuno Baltazar, fotografou para Michel Comte e desfilou para nomes como Calvin Klein ou Comme des Garçons. Estreou-se na TV ao lado de Sofia Aparício em ‘Sexo Sentido’, e foi a cara do ‘Moda 21’, na RTP. No curriculum soma prémios. Do ‘Look of the Year’, em 94, ao Globo de Melhor Manequim em 2000.

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