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Sonhos feitos com a força dos punhos

Uma escola de boxe dentro de um bairro ‘difícil’. Um desporto violento que ensina miúdos sem lugar no futebol a controlar a agressividade. Um inspector da PJ que treina com eles. Assim se passam as primeiras horas da noite no ginásio de boxe do FC da Outurela.
9 de Novembro de 2008 às 00:00
Sonhos feitos com a força dos punhos
Sonhos feitos com a força dos punhos FOTO: D.R.

A mão esquerda fechada à frente do rosto moreno, a outra atirada para diante, o braço esticado, os pés em constante movimento. Miguel faz sombra. Tem 14 anos e uma camisola da Selecção de futebol com as letras C. Ronaldo marcadas a amarelo nas costas. Nunca falta ao treino de boxe no Futebol Clube da Outurela, a não ser quando, como aconteceu na noite anterior, tem de ficar em casa a cuidar do irmão mais novo. Mora no bairro – no qual foram realojadas famílias que viviam em barracas –, frequenta o 7.º ano e, sempre que pode, faz sombra, que dizer, simula um combate com um adversário inexistente. Ou com a sua própria imagem no espelho.

O que ele não faz é a figura de outros rapazes, que ficam cá fora, indiferentes ao frio da noite, espetados contra a rede que isola o campo de treinos da Escola de Futebol Carlos Queirós, associada ao Manchester United. Miguel desce as escadas do complexo desportivo contíguo, em direcção à escola de boxe. Lá não lhe exigem chuteiras que custariam os olhos da cara à mãe, nem uma inscrição capaz de afundar o orçamento da família. Bastam os ténis. Os calções coloridos. A camisola do Ronaldo. As mãos fechadas. Está pronto.

O treinador de boxe, António Ramalho, reconhece-lhe o empenho. 'Está cá há pouco tempo, mas muito raramente falta.' O amor pelas artes marciais e, diz Miguel, a falta de vontade de 'ficar em casa a ver televisão' levaram-no a experimentar o boxe. Não é prática de que se vanglorie junto dos amigos. O bairro aprecia o talento futebolístico, aplaude os jeitosos da bola. Os do boxe são mantidos à distância, quando não provocados. Talvez por isso, porque gostaria de não tolerar provocações, Miguel admira Mike Tyson.

Chamam-lhe Holyfield, mas Pedro, 33 anos, licenciado em Engenharia doAmbiente e a trabalhar com administrativo numa empresa de seguros, tem as orelhas intactas – Tyson não lhes arrancou qualquer bocado. Sua em bica. Literalmente. Os pingos serpenteiam--lhe no rosto e soltam-se. Pedro jogou futebol na terceira divisão. 'Era talentoso, mas não trabalhava;aqui tenho de puxar por mim.' Arrepende-se de não ter começado antes a praticar boxe, mesmo se os amigos não compreendem por que é que àquela hora, quase nove da noite, não está no café a beber minis e a comer caracóis. 'E se aparecer com a cara pisada fartam-se de gozar comigo.' No bairro, diz Pedro, que lhe conhece bem os cantos, 'o que queremos é dar; não queremos levar'.

Olhar sereno, rosto tranquilo, conversa pausada, corpo magro. Quem olha para Vítor Silva, 27 anos, associa--o ao coro da igreja. Até vê-lo no ringue, a desferir golpes sucessivos nas mãos abertas, e bem protegidas, de Ramalho.

Vítor vive na Outurela. Iniciou-se no boxe em 1999. Nessa altura, a escola funcionava no salão de festas, mesmo no centro do bairro. O ringue estava instalado em cima do palco. 'Eu não queria vir mas um amigo tanto insistiu que acabou por convencer-me.' O rapaz tomou-lhe o gosto. 'Tinha vontade de superar-me a mim próprio.' Ganhou combates sucessivos em torneios de amadores. Conquistou títulos.

Só que a vida meteu-se de premeio. Vítor arranjou um emprego como vigilante. Por turnos. O boxe ficou para trás. Treinava menos. Competia menos. Continuou a ganhar títulos mas, sendo amador, dinheiro não. Emigrou para o Reino Unido, onde, durante dois anos, trabalhou numa fábrica de produção alimentar. Regressou.

'Voltei ao boxe... a ver se consigo ser profissional', qualidade que lhe garante remuneração. Pretende aplicar o dinheiro que venha a ganhar no pagamento das propinas do curso de Educação Física na Universidade Lusófona. Inscreveu-se antes mas foi obrigado a desistir por motivos financeiros. Vítor, peso-pluma, 57 quilos, treina quase todos os dias com António Ramalho. Só não o encontram lá a fazer sombra ou a enrolar as fitas nas mãos (para prevenir lesões) quando o esquema de turnos da fábrica de embalagens de vidro, onde agora trabalha, não permite. 'O meu sonho é ser o melhor de Portugal.'

Por agora, Vítor tem direito a meio corpo num cartaz encostado a um dos espelhos da escola de boxe do Futebol Clube da Outurela. Filipa olha para ele sempre que levanta a cabeça e os ombros do chão. 'E 10 e 11 e 12 e...' Faz abdominais depois de ter corrido lá fora, na companhia de Pedro ‘Holyfield’ e Carlos, e antes de calçar as luvas. 'Nunca na vida me tinha passado pela cabeça praticar boxe.' Até um dia, 'há dois anos', quando veio com uma amiga e ficou, conta a jovem, que mora na Outurela com a avó e no Verão começou a trabalhar no hipermercado Jumbo. 'Não sei se quero ser profissional, mas gosto mesmo do boxe, também de ver combates na televisão e de reparar no que eles fazem.' Muitas vezes é a única rapariga no ginásio de Ramalho. 'Todos me respeitam.' Os problemas da vida lá fora é que, às vezes, nem ao murro desaparecem. 'Pelo menos, não penso neles quando estou aqui.'

Inspector da Polícia Judiciária. É essa a profissão de Carlos Pereira, 33 anos, morador em Nova Carnaxide, que acompanha a Filipa e o Pedro na corrida e treina combates com Vítor Silva – 'ele diz-me para eu não ter medo de atingi-lo porque nos combates a sério vai seguramente apanhar mais.'

Os outros pugilistas começaram por tratá-lo por ‘doutor’, depois por ‘senhor’, mas a desconfiança parece definitivamente ultrapassada. De modo que Carlos se permite uma brincadeira: 'Quando corremos juntos e vou no fim dizem ‘lá vai a polícia atrás deles’.' Agora a sério:'Estarmos aqui juntos faz com que eles compreendam melhor o meu lado e eu o deles.' Carlos tenta explicar-lhes que quando as polícias – não necessariamente a Judiciária, mas a PSPou a GNR – entram num bairro não é porque tenham o que quer que seja contra os que lá vivem, mas porque a Lei não foi cumprida. Pedro, Filipa e Vítor falam-lhe das actuações policiais que consideraram reprováveis. Do ponto de vista do inspector, 'o boxe em clubes locais facilita a interacção.' Neste caso, potenciada por Ramalho.

Primeiro foi o futebol. António Ramalho tinha 15 anos e jogava à bola no Belenenses. Planeava a transferência para o Sporting quando ficou KO. 'Ia encontrar-me com um amigo que andava no boxe. Ele vinha com o treinador e eu, a brincar, fiz um gesto, como se estivesse a esquivar-me.' O treinador gostou da maneira como António se mexeu. Desafiou-o a experimentar a modalidade. Foi o princípio de uma história que hoje continua na Sociedade Musical Aliança Operária - Futebol Clube da Outurela.

Na categoria peso-mosca, 51 quilos, e depois peso-galo, 54, António Ramalho subiu várias vezes ao ringue para disputar combates. O momento de glória viveu-o quando ganhou a medalha de prata num torneio de acesso aos Jogos Olímpicos. 'Perdi com o ‘medalha de outro’, um rapaz espanhol.' No espaço onde, há mais de 20 anos, treinava havia dois sacos de boxe e uma bola de borracha metida numa bolsa de rede. 'O ringue era delimitado por uma corda. Lavávamos a roupa e púnhamo--la a secar lá.' Eram outros tempos. Outras luvas, mais duras, recheadas de crina. Os atletas apresentavam-se de cabeça nua, sem capacete. 'Agora, se há muito sangue, vão-se embora.'

António Ramalho apanhou muito. 'Mas também dei.' Deu tudo ao boxe e o boxe deu-lhe o que podia a ele. Permitiu-lhe viajar, perder países. 'Muito novo fui à Polónia, à Alemanha... Nunca os meus pais poderiam pagar-me viagens.' Hoje continua a apresentar-se lá fora com os seus atletas. 'Fui o único treinador de jovens a estar presente no Campeonato da Europa.'

Disciplina e trabalho é o que exige aos seus atletas. E que tenham respeito uns pelos outros. 'Não quero aqui racismo e também quero que fique bem claro, desde o início, que boxe não significa bater nas pessoas.'É respeitado. Quando termina o treino, Miguel vem dar-lhe um aperto de mão. Não se esquiva à festa no cabelo. Nada que lhe desmanche a crista, baixa mas cheia de estilo, entre o cimo da cabeça e o cocuruto. 'Boa noite, sr. Ramalho.'

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