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Sophia como nunca ninguém a conheceu

Biografia chega no ano em que se assinala o centenário do nascimento da poetisa.
Vanessa Fidalgo 12 de Maio de 2019 às 10:00
Sophia de Mello Breyner
Poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen é uma das homenageadas
Sophia de Mello Breyner
Poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen é uma das homenageadas
Sophia de Mello Breyner
Poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen é uma das homenageadas
Não havia ainda nenhuma biografia da mais consagrada poetisa portuguesa do século XX e a jornalista Isabel Nery sentiu quase "como uma obrigação evitar a manutenção desse vazio".

Os jornalistas têm esse ‘vício’ de querer falar do que não é ainda (total ou parcialmente) conhecido. Foi assim que percorreu lugares, recuperou momentos e falou com as pessoas que fizeram parte da vida de Sophia de Mello Breyner Andresen para dar forma a ‘Sophia’, a biografia que agora nos chega às livrarias.

Páginas que vão do Porto à Grécia, passando pela travessa das Mónicas, na Graça, ou mesmo a pequena ilha de Föhr, no mar do Norte, e fazem-se das palavras de personagens tão diversas como o pescador José Muchacho, que levava Sophia a visitar as grutas em Lagos, ou o amigo Manuel Alegre, companheiro das letras e da política. Há histórias de família e também os relatórios dos interrogatórios a que Sophia foi sujeita na sede da Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE).

"Lembro-me que senti uma certa emoção, até parei uns segundos antes de desenrolar a fita de nastro cinzenta que juntava os documentos dentro da pasta. Uma espécie de silêncio interior em homenagem aos que, como Sophia, lutaram pela democracia e viram a sua vida espiada pelos agentes da PIDE", recorda Isabel Nery.

A pesquisa avançou lentamente mas deu os esperados frutos. "Inicialmente encontrei apenas breves notas sobre os hábitos de Sophia. Mas sabia que tinha sido intimada a depor, por isso fui pesquisando na Torre do Tombo até encontrar o ficheiro que continha a transcrição do interrogatório, que pode ser lido no livro", conta Isabel Nery.

Como muitas vezes aconteceu durante a ditadura, este tipo de convocatória não servia tanto para obter informações, mas sim para intimidar - lembrar aos contestatários do regime que a polícia estava atenta e sabia tudo.

"No caso concreto, os agentes mostravam-se ‘espantados’ com o facto de alguém como Sophia (uma insinuação ao seu estatuto social e ao facto de ser católica) estar a colaborar em atividades que, no entender dos agentes, só podiam ser comunistas. Sophia ironizava de forma a demonstrar que a polícia não a amedrontava, dizendo, por exemplo, que só tinha medo de duas coisas: elevadores e fantasmas. Para quem fazia gala em ser temido, na medida em que muito do seu poder vinha precisamente desse medo, este tipo de subtileza era uma clara provocação. E uma demonstração de coragem", nota a jornalista.

Reportagem biográfica
Como nunca conheceu Sophia pessoalmente, visitar todos os locais por onde esta passou tornou-se um dever que ocupou a autora durante dois anos, antes mesmo de começar a escrever o livro. Por isso, este livro é também uma reportagem de fundo.

"E não há reportagens sem irmos aos locais. Revelou-se uma forma de me aproximar de Sophia. Por um lado, porque a própria Sophia valorizava muito os lugares, a partir dos quais ou sobre os quais criava a sua poesia. Fosse o Algarve, a Grécia ou a travessa das Mónicas, onde vivia, em Lisboa. Conforme ia avançando na reportagem ia também sentindo que conhecia um pouco melhor a autora sobre a qual ia escrever", conta a jornalista.

Da mesma perspetiva, cada um dos entrevistados foi importante nalgum ponto. "Nem todas as pessoas conheceram profundamente Sophia, mas todas recordavam algum detalhe que ajudou a ter uma perspetiva mais plena e completa. Seria impossível nomear todos neste espaço curto, mas Manuel Alegre e a mulher, Mafalda, puderam falar de uma Sophia amiga, com uma cumplicidade que poucos tinham com ela. Num outro registo, o pescador José Muchacho permitiu-me também conhecer uma Sophia para além das amizades mais óbvias, da família ou dos companheiros da política", diz a autora.

Até porque a arquitetura dos seres humanos também implica olhá-los de vários ângulos: "Sempre que possível, procurei essa diversidade de perspetivas porque entendo que o rigor de uma biografia exige olhar para o biografado nas suas várias circunstâncias", acrescenta.

Jornalista desde 1995, Isabel Nery foi já distinguida com vários prémios, entre eles o Prémio Mulher Reportagem Maria Lamas, o Prémio Jornalismo pela Tolerância, o Prémio Paridade Mulheres e Homens na Comunicação Social e o Prémio Jornalismo e Integração, da UNESCO.

É também autora de outros livros, como ‘Política e Jornais – Encontros Mediáticos’ (2004), ‘O Inferno Aqui tão Perto - Literatura de Viagens e Reportagem’ (2009), ‘As Prisioneiras - Mães Atrás das Grades’ (2012); ‘Do Génio Jornalístico’ (2014); ‘Chorei de Véspera’ (2016) e ‘Tudo por Uma Boa História’ (2017).

Mas escrever ao longo de três anos a biografia de Sophia tocou-a de forma especial: "Porque fala do mito Sophia, uma autora que tantos portugueses admiram, mas também da personalidade complexa, que podia tornar a vida difícil aos que a rodeavam."
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