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Sou um grande jogador de futebol

“É que ao pé de um puto de quatro anos, eu consigo parecer o Cristiano Ronaldo”
10 de Outubro de 2010 às 00:00
Sou um grande jogador de futebol
Sou um grande jogador de futebol FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

Em minha casa há neste momento um campo de futebol instalado entre o sofá da sala e o aparador. Não tem as medidas regulamentares – é apenas uma língua de madeira com um metro de largura e oito de comprimento, a ligar a porta da cozinha ao quarto das crianças –, mas posso garantir que tem mais utilização do que metade dos estádios construídos para o Euro 2004. Todos os dias, antes de os miúdos irem para a cama, a família reúne--se numa jogatana de baliza a baliza, com a trajectória da bola a ameaçar vários bibelôs. A treinadora da casa, aliás, obrigou ao abandono do esférico oficial em benefício de uma bola de pano, mais adequada ao futebol caseiro.

Dir-me-ão que andar aos pontapés numa sala de jantar 15 minutos antes da hora de dormir não faz parte dos índices remissivos das obras de pediatria. É um facto. Não só é uma actividade pouco recomendável para quem seja apreciador da integridade física do seu mobiliário, como os miúdos vão para a cama mais acelerados do que Lewis Hamilton na recta da meta de Silverstone. Mas o que é que vocês querem que eu faça? Não consigo resistir. E não, não é por causa deles. É por causa de mim.

É que eu… sempre fui uma lástima a jogar futebol. Só que ao contrário da maior parte das pessoas que são uma lástima a jogar futebol, sempre adorei jogar, e joguei a vida toda. O que só torna a minha incapacidade mais humilhante. É verdade que desde que descobri que tenho uma perna 17 milímetros mais curta do que a outra passei a desculpar cada fífia com as deficiências do meu centro de gravidade. "Para um tipo meio manco até não está mal", tento convencer-me a mim próprio. Sem sucesso.

Mas desde que o Tomás despertou para a bola, tudo mudou na minha vida. É que ao pé de um puto de quatro anos, eu consigo parecer o Cristiano Ronaldo. Simulo que vou para a esquerda, vou (muito devagarinho) para a direita, e o meu filho fica pregado ao chão, espantadíssimo com a minha técnica individual. Depois avanço para a baliza e pimba!, um estouro para o fundo das redes (ou melhor: uma bola a esbarrar com estrondo na porta da cozinha). O Tomás olha para mim com um orgulho genuíno, como se eu fosse um génio do futebol, e eu sinto-me em Old Trafford, com 75 mil pessoas a aplaudirem-me de pé. Claro que daqui a dois anos ele já vai conseguir tirar-me a bola. É aproveitar enquanto dura.

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