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Sou um jovem assim a dar para o velho

“Tenho esperança que um dia elas venham a achar que eu estou mais próximo do George Clooney do que do Steve Buscemi”.
27 de Junho de 2010 às 00:00
Sou um jovem assim a dar para o velho
Sou um jovem assim a dar para o velho FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

Há 15 dias Manuel Alegre deu-me uma grande alegria: convidou o escritor Jacinto Lucas Pires para ser mandatário da juventude da sua candidatura à presidência da República. Jacinto Lucas Pires, 35 anos, é apenas 10 meses mais novo do que eu. Se ele é um jovem, eu, por comparação, jovem sou.

Há 10 dias estava a ver um jogo do Mundial de Futebol e senti uma grande tristeza: quando o mexicano Blanco marcou o segundo golo frente à França, o relator referiu-se a ele como "o velhinho Blanco". Ora, Blanco, 37 anos, é apenas nove meses mais velho do que eu. Se ele é um velhinho, eu, por comparação, velhinho sou.

Uma pessoa pensa que os números não enganam, mas os 36 anos que a minha pobre carcaça ostenta são mais relativos do que as interpretações das Sagradas Escrituras. Afinal, sou jovem ou sou velho? Depende. Depende do país (se vivesse na Suazilândia, estava quase a bater a bota, porque por lá a esperança média de vida é de 39,8 anos). Depende da época (a idade que tenho neste momento coincide com a esperança de vida da Alemanha em 1855). Depende da profissão (Pedro Pauleta tem quase a mesma idade de Jacinto Lucas Pires – mas alguém imagina que pudesse ser convidado para mandatário da juventude, ainda que o candidato fosse Manoel de Oliveira?). Depende de quem olha (para os meus pais serei sempre o filho mais pequeno, para os meus filhos serei sempre o Matusalém do agregado familiar).

Enfim, depende. O reflexo que o espelho devolve dá mais razão aos meus filhos do que aos meus pais. Eu gosto muito de cabelos brancos e de os ver nascer, e por isso celebro efusivamente a forma lenta mas implacável como eles vão impondo a sua ditadura capilar. Os gajos mais giros nas salas de cinema são sempre os tipos de cabelo grisalho, e tenho esperança que um dia (a esperança é a última coisa a morrer) elas venham a achar que eu estou mais próximo do George Clooney do que do Steve Buscemi. Mas tirando o cabelo (e a barriga) (e as dores lombares) (e os pêlos nas costas) (ah, e a variz na perna esquerda) custa-me acreditar que já não tenho 22 anos. Quando era novo as pessoas achavam que eu era velho: um tipo muito certinho e muito chato. Agora que estou na – digamos – meia-idade, ninguém me convence que acabei de deixar a adolescência. A idade tem dessas coisas: a do corpo nunca coincide com a da cabeça.

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