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SOUSA CINTRA: NÃO HÁ NINGUÉM QUE TRABALHE TANTO

Tem uma rotina acelerada, em permanente ‘non stop’, e trabalha cerca de 16 horas por dia. Numa conversa ao seu ritmo – a mil à hora – Sousa Cintra fala do trabalho, da sua exigência profissional, da família e da qualidade de vida (que ainda lhe falta conquistar). Conheça o homem por trás do ‘workaholic’.
27 de Abril de 2003 às 00:00
Aos 58 anos, José de Sousa Cintra é um homem informal, descontraído mas frontal e sem ‘papas na língua’. ‘Workaholic’ por excelência, garante privilegiar a qualidade profissional acima de tudo. Em nome dela desdobra-se em mil e uma tarefas que lhe ocupam a maior parte do dia. Do futebol à hotelaria, passando pelo imobiliário, petróleo e bebidas, Sousa Cintra está habituado a andar em permanente contra-relógio. Sempre atrás do melhor negócio, não se inibe de dizer, com convicção, que a melhor cerveja é a sua. E lança o repto a quem duvide: prove o contrário.
Como é o seu dia-a-dia?
Sou um homem que trabalha noite e dia, que nem tem tempo para dormir. Também não preciso de dormir muito, apenas cerca de quatro a cinco horas por noite. Deito--me com os problemas, levanto-me com eles. Sou um escravo do trabalho, de manhã à noite sem parar. Até mesmo de carro, do escritório para a fábrica aproveito para trabalhar e dito para um gravador o que preciso fazer. Tirando o almoço e o jantar, trabalho cerca de 16 horas por dia. E levanto-me muito cedo, pelas sete da manhã. Mas tenho pensado em alterar a minha vida: preciso de mais qualidade de vida, de usufruir mais. Eu gosto muito das coisas boas da vida.
Como recorda a sua ascensão, até se tornar num empresário de sucesso?
Comecei ainda miúdo, na minha terra natal [Raposeira, Vila do Bispo, Algarve], onde procurava ganhar dinheiro de todas as formas e feitios. Sempre tive o espírito da luta, do trabalho, da ambição e da poupança. Aos quinze anos vim trabalhar para Lisboa como ascensorista no Hotel Tivoli; aos 16 entrei como voluntário para a Marinha porque queria ir para os Estados Unidos. E desde então não parei.
De todas as áreas de investimento (imobiliário, energia, alimentação, bebidas), qual a sua grande paixão?
Todas são distintas. No imobiliário ganha--se mais. A indústria é uma luta com mais trabalho, maior dedicação e responsabilidade. Hoje em dia, para vencer nos negócios, é preciso ter coragem. No sector das cervejas, muito importante para a nossa economia, fiz um investimento de 15 milhões de contos mas com um grande orgulho e satisfação pessoal. Eu tenho dado a minha quota parte para o País. Tive coragem de dar um contributo tão grande num momento particularmente difícil.
E tem saudades da presidência do Sporting?
O futebol é uma paixão clubista, é o dever da obrigação. A ambição é fazer o melhor que se sabe e pode. Mas é uma satisfação pessoal, não se ganha nada. Não tenho saudades, fiz o meu tempo [três mandatos, num total de seis anos] e continuo a seguir o meu clube do coração. Mas tenho a minha vida profissional e o clube está bem entregue. Além de que as coisas mudaram e agora o Sporting tem a SAD, que é muito profissional.
Ao longo da sua carreira, o que foi mudando?
Muda-se sempre alguma coisa mas temos sempre a nossa personalidade. Acresci em responsabilidade e apurei o sentido de decisão. Aprende-se sempre até morrer e, assim, aperfeiçoa-se o que temos de melhor. O tempo é o grande mestre e, muitas vezes, é dos problemas mais difíceis que se retiram os melhores ensinamentos.
Quais os principais trunfos para o sucesso?
Acreditar na vitória. Se não se acredita estamos derrotados à partida.
Expectativas de futuro…
Já fiz tanto pela vida que agora preciso é de descansar mais e ter mais qualidade de vida, com mais tempo para mim próprio. Para poder usufruir do que gosto: da caça, da pesca, dos amigos… E não tenho tido tempo para nada…
Neste momento, o que é mais importante: família, trabalho, lazer?
A família é sublime, nunca a podemos abandonar. Mas, às vezes, descuidamo-nos e damos mais atenção ao trabalho.
Acha que o vêem como ‘extravagante’?
Não. Tenho um enorme sentido de poupança: tostões, para mim é dinheiro. Só gasto quando é mesmo necessário. Gosto de poupar até ao último centavo, de discutir os preços, de descontos… O sucesso do negócio tem a ver com a compra; a compra é o mais importante.
Como a classe dos empresários vê um ‘self-made-man’?
Há várias classes de empresários. Há os que gostam e se revêem em mim e me admiram como um lutador que não desiste e enfrenta as tempestades. E há os outros, que têm muita inveja. Portugal tem esta doença terrível que é a inveja.
Como se define?
Sou altamente responsável e, nos dias que correm, os empresários têm que ter muita atenção porque isto não está para brincadeiras. Procuro fazer sempre o melhor que posso e sei; luto com todas as forças; arrisco bastante; acredito sempre que tudo vai correr bem. E o sucesso de um empresário também está na equipa de profissionais que o rodeia.
O dinheiro compra extravagâncias?
Não. Sou muito poupado. Gosto de viver com comodidades e ter coisas boas mas tanto me faz comer numa tasca como num restaurante de primeira. Sou polivalente. Muito humilde, nunca reneguei as minhas origens e orgulho-me do meu passado. O maior património é ter amigos.
Quais os maiores luxos que um ‘workaholic’ pode usufruir?
Há muitos empresários que têm luxos só por ostentação, por vaidade. Eu fui o empresário português que teve avião durante mais anos. Aos vinte e poucos anos já tinha avião. Mas uso as coisas porque me fazem falta, não para as mostrar. Onde gasto mais dinheiro é na caça. Vou a África, à Tanzânia…
E os tempos livres?
O pouco tempo livre que tenho, vou à caça, à pesca e ao campo. Gosto da Natureza. E dos meus amigos. Mas, com a vida ocupada que tenho, nem sempre o tempo chega para tanto.
É um ‘workaholic’?
Sou uma pessoa com resistência para enfrentar qualquer tempestade. Espero daqui a uns tempos passar metade do tempo no Algarve (onde estou a construir casa), a usufruir daquilo de que gosto na vida, e a outra metade em Lisboa, a olhar pelas empresas.
E ainda vai regularmente ao Brasil?
Todos os meses, sempre que necessário. Também tenho a minha vida lá.
Num país com tantos raptos, sente medo?
Claro. Mas tomo as minhas medidas de segurança para evitar problemas. Nunca ninguém sabe quando lá estou ou não, não repito os mesmos lugares e vou mudando de rotina.
Já apanhou algum susto?
Sim, alguns. Tentaram raptar-me mas não conseguiram. O Brasil é uma indústria de raptos.
Que ensinamentos incutiu no seu filho, Miguel? Ele é um sucessor à altura?
Ele estudou em Inglaterra, nos Estados Unidos… Tem uma preparação que eu não tive e é um sucessor à altura.
Como se sente ao vê-lo acusado de ‘inside trading’ no processo da OPA da Jerónimo Martins à Vidago Melgaço Pedras Salgadas?
Acredito que não lhe vai acontecer nada e creio que isso é especulação jornalística e de algumas pessoas de má-fé. Estou plenamente confiante na sua absolvição.
Atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher?…
Concordo. Mas nunca tive nenhuma mulher a dar-me conselhos profissionais. Se tivesse tido, se calhar teria tido mais êxitos. Sou casado pela terceira vez, tenho uma vida mais estável e tranquila e tenho uma boa companheira: é meio caminho andado para me sentir feliz. A solidão é algo terrível e ter alguém a acompanhar-nos é fundamental para ultrapassar obstáculos que a vida sempre nos traz.
Que conselhos daria a um jovem empresário?
Trabalhar, trabalhar, trabalhar. Dá jeito um bocadinho de sorte. Mas sem trabalho e vontade de vencer não se consegue nada.
Quando pensa reformar-se?
Não sei o que é essa história da reforma. Quero descansar mais e gozar mais a vida. Mas devo estar condenado a trabalhar até morrer…
Depois do sucesso, pode-se relaxar?
Acho que sim. Há momentos para tudo e preciso é ter condições e a vida organizada. Se o trabalho estiver bem entregue – a bons directores, administradores e bons trabalhadores – pode-se estar mais tranquilo e usufruir mais da vida.
Qual é o seu maior sonho?
O que eu peço a Deus é que tenha saúde. A saúde é a maior riqueza que se pode ter.
O HOMEM DOS MIL NEGÓCIOS
Aos 15: ascensorista no Hotel Tivoli, em Lisboa
Aos 17: primeiro carro, um ‘boca de sapo’
Aos 20: começa a investir no ramo imobiliário
Aos 29: compra o primeiro avião
Aos 31: conquista o primeiro milhão (de contos), no Brasil, no imobiliário; presidente da assembleia da AIP
Aos 40: Vidago Melgaço, Pedras Salgadas (VMPS) e Cipol
Aos 45: inicia três mandatos consecutivos do Sporting
Aos 50: vive a angústia do rapto do filho, Miguel
Aos 52: vende a VMPS à Jerónimo Martins.
Aos 55: casa-se, pela terceira vez, com Maria da Glória
Aos 58: aposta forte nas três fábricas de bebidas: duas no Brasil e uma em Santarém
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