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Substituição aos 40 minutos de birra

“É sempre um pouco triste admitir que não estamos a conseguir acalmar um filho, mas às vezes é preciso engolir o orgulho”
9 de Outubro de 2011 às 00:00
Substituição aos 40 minutos de birra
Substituição aos 40 minutos de birra FOTO: Ilustração de José Carlos Fernandes

Ufa, ufa, ufa, ufa, mil vezes ufa. Acabo de sair (com escassa vida) de uma luta monstruosa com o senhor Guilherme, que durante 40 minutos repetiu 1767 vezes a expressão "eu quero sair daqui" só por eu ter tido a ideia muito maluca de o obrigar a dormir a sesta à tarde, coisa que ele tomou como uma ofensa de lesa--majestade apesar de dormir a sesta todos os dias. Vai daí, pôs a glote a funcionar em regime turbinado, numa gritaria desmesurada cujo efeito foi semelhante a colocar as minhas duas orelhas numa picadora Moulinex e fazer um, dois, três.

E atenção: eu já fui a segunda vítima. Antes dos meus 40 minutos de birra privados já tinha havido outros 40 minutos, que se saldaram numa estrondosa derrota da minha excelentíssima esposa, obrigada a abandonar sem glória o campo de batalha. Enquanto batia em retirada, ia deixando um rasto intenso de vapor atrás de si e ao cruzar-se com a minha pessoa lançou-me a batata quente para as mãos: "Agora vai tu aturá-lo que estou capaz de o atirar pela janela".

Foi uma troca de papéis pouco habitual. Oito em dez ocasiões sou mesmo eu que estou capaz de o atirar pela janela, e quando a Teresa chega a correr em geral já levantei os estores e tenho-o pendurado por uma perninha. Ela tem infinitamente mais paciência do que eu para o Gui (para todos eles, na verdade), mas acredito que até mesmo o Dalai Lama seria homem para praticar um acto de violência se o fechássemos num quarto com o meu filho mais novo durante uma daquelas birras capazes de implodir o próprio nirvana. O que fazer, então, para evitar cometer um crime que dá anos de cadeia? O que a Teresa fez e o que eu tantas vezes faço: pedir a substituição.

É sempre um pouco triste admitir que não estamos a conseguir acalmar um filho, mas às vezes é preciso engolir o orgulho, chamar reforços e, em caso de desespero ou cansaço extremo, pedir a rendição da guarda. Por isso dá tanto jeito haver dois pais numa casa. Há aquelas diferenças entre homens e mulheres, e tal, um dá miminho, o outro impõe a autoridade, tudo muito bonito, mas em última análise o melhor desta coisa da família é mesmo ter suplentes à mão. Um dos pontas-de-lança começou a bater mal, não acerta uma jogada, pontapeou o adversário – pois bem, sai de campo e vai acalmar para o duche. Resulta no futebol. E resulta cá em casa.

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