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Surfistas de sofá

Num país de navegadores, emigrantes e turistas, não estranha que os portugueses tenham aderido ao ‘couch surfing’. O conceito é simples: oferece-se o sofá, em troca, partilham-se culturas e fazem-se amigos dos quatro cantos do globo. Só é preciso espírito de aventura.
14 de Agosto de 2005 às 00:00
Cazé é um cidadão do mundo. Tem a mala de viagens sempre preparada para a próxima aventura e nunca parte sem o passaporte, a almofada azul e uma fotografia de casa, na Malveira da Serra, para matar saudades. Pelo seu confortável sofá da sala também já dormiu meio planeta: um texano que terá votado Bush, um par de namorados, ela russa, ele francês e dois austríacos que comeram orelha de porco numa tasca de Lisboa sem o saberem. Nota de rodapé: o professor de educação física, 30 anos, não conhecia nenhum deles pessoalmente – apenas trocara umas poucas palavras por e-mail – mas isso não o impediu de lhes abrir a porta sem reticências.
“Somos membros de um site da internet, em que a ideia é podermos disponibilizar o nosso sofá, sem cobrar nada”, explica Cazé, também conhecido como Carlos Almeida. “Assim, quem quiser conhecer outro país, só tem de pagar viagem e alimentação.”
Quando ouviu falar do site, há um ano, nem hesitou. Inscreveu-se de imediato. Só tinha de escrever o seu perfil, acompanhado de fotografia e o contacto electrónico. “Fui honesto, confessei ser uma pessoa complicada, quem quisesse que me desvendasse.” Cazé só impunha duas condições: não recebia mais de três pessoas e o limite de estadia no seu ‘couch’ (que significa sofá em inglês) eram duas noites.
Em poucos meses, mandou as regras às urtigas: “Os dois austríacos eram tão porreiros que os deixei dormir cá dez noites.” Ele nunca vira ninguém tão fascinado pela praia do Guincho. “Logo no primeiro dia, foram comprar fatos e pranchas de surf para curtir as ondas. Eu ia para o trabalho e eles para a praia, a pé. À noite ia buscá-los.”
Cazé, Mathias e Philipe tornaram-se quase inseparáveis. Em Dezembro, já tem planeada uma viagem até Viena. Irá dormir num sofá austríaco e aprender ‘snowboard’ com Philipe. “Muita gente me pergunta se não tenho medo de receber estranhos em minha casa. Respondo-lhes que a única coisa que me poderiam roubar seria a colecção de CD. Mas não deve haver muitos ladrões interessados em ‘heavy metal”, ironiza.
PAÍS DE VIAJANTES
Cazé é apenas um dos 1408 portugueses fascinados pelo site criado em 2004 por Casey Fenton, um consultor informático norte-americano que há uns anos foi passar férias à Islândia. Como não podia gastar muito dinheiro enviou um e-mail a mil estudantes universitários a pedir-lhes alojamento. Em pouco tempo, a sua caixa electrónica foi entupida com respostas. Daí até ao www.couchsurfing.com foi um passo.
“Há mais portugueses inscritos do que australianos, italianos ou mesmo espanhóis”, revela Frederico Lopes, 31 anos. Não há dia em que este designer gráfico não aceda ao site para verificar as estatísticas e comunicar com alguns dos 24 mil ‘turistas de sofá’. “À nossa frente só estão os Estados Unidos, o Canadá e o Reino Unido”, revela no seu sotaque de Minas Gerais. Para ele, é uma surpresa esta popularidade em terras de Camões. “No Brasil, por exemplo, contam-se pelos dedos os ‘couch surfers’. Aqui todo o mundo fala do site”.
Como explicar o fenómeno? Falta de dinheiro, espírito de aventura e capacidade de acolhimento podem ser algumas respostas possíveis. Mas há algo mais. “Num país tão pequeno quem não tem vontade de viajar?”, sugere Helga Valente, de 27 anos. Ela tem a média de idades dos que surfam em sofás alheios. “Somos pessoas já com alguma independência económica mas ainda não nos queremos apegar às casas e aos carros.”
A designer de comunicação tem um currículo que faria inveja a Bruce Chatwin: já acampou em sofás dinamarqueses, suecos, franceses e holandeses. “Da primeira vez, estava cheia de medo. Era uma rapariga sozinha em Copenhaga, que ia dormir em casa de um rapaz que não conhecia de lado nenhum”. Os receios revelaram-se infundados, o anfitrião não era afinal nenhum ‘serial killer’ mas uma jóia de pessoa. “Levou-me a conhecer todos os cantos da cidade, mostrando-me a ‘sua’ Copenhaga. Se tivesse viajado de forma convencional haveria pormenores que me escapariam.”
Dias depois, aterrava em casa de uma família sueca que celebrava o Dia de Reis, debaixo de um manto de neve. “Eram muito acolhedores. Estavam habituados a receber turistas e até refugiados. Tinham mesmo um livro de hóspedes cheio de dedicatórias das pessoas que por ali passaram.” Por um acaso do destino, a primeira inscrição no livro era de 1976, ano do seu nascimento. A última assinatura era precisamente a sua. Helga arrepiou-se com a coincidência. “Não tenho pudor em afirmar: a minha vida mudou com o ‘couch surfing’. Tornei-me mais aventureira.” Itália, Croácia, Bósnia e Hungria são as próximas paragens.
LISBOA DOS PASTÉIS DE NATA
Jean Michelle bebe a bica numa esplanada não muito longe do Marquês de Pombal. É a primeira vez que visita Lisboa, cidade que vai conhecendo através da leitura do ‘American Express’ e pelas dicas de Adolfo, o português que o acolheu no seu sofá. “Trocámos uns e-mails e um dia toquei à porta de casa dele. Foi tão simples quanto isso”, conta o belga de 30 anos. Ao quarto dia passado em Portugal percebeu que conduzimos como malucos e somos doidos por sardinhas e ‘bacalao’. “Ainda não provei. Só os pastéis de Belém. São uma delícia.” Em Bruxelas, já deu guarida a muitos visitantes, mas é a primeira vez que viaja rumo ao sofá desconhecido. Já tem uma teoria: “Receber é mais fácil do que visitar alguém. Aqui estou fora do meu meio, por mais simpáticos que sejam comigo nunca se está cem por cento à vontade.”
Em todo o caso, Jean Michelle não trocava o sofá de Adolfo por uma cama fofa de um hotel impessoal. E não é pelo facto da estadia ser de borla. “Desta maneira partilhamos a vida da pessoa onde estamos alojados. Até já fui a uma festa de anos. Conheci logo uma data de gente simpática.”
O belga preveniu-se antes de fazer as malas em Bruxelas porque sabe que estas aventuras não estão livres de riscos. “É bom sinal quando alguém tem um perfil muito completo no site. Revela que não tem nada a esconder. Além disso, podem-se escolher as pessoas aconselhadas por outras que já conheçamos. Quanto mais referências, melhor.” Ele seguiu as regras ‘by the book’: informou-se com um grupo de polacos que passou uns dias no apartamento de Adolfo. “Garantiram-me que era ‘nice people’. Não hesitei”.
Mesmo com estas medidas de segurança, pode haver surpresas desagradáveis entre hóspedes e anfitriões. Helga recorda com um esgar de desagrado os dois jovens americanos que passaram por sua casa. “Eram demasiado calados, muito estranhos. Fiquei de pé atrás. Por sorte só ficaram lá uma noite.” Se quisesse, ela podia ter feito uma má referência deles no site, mas preferiu dar-lhes o benefício da dúvida. “Houve uma viajante italiana que se queixou de assédio constante de um rapaz.” O aviso dela serviu de alerta a outras raparigas. “A partir de uma certa altura todos nos conhecemos. É como uma grande família.”
À BOLEIA COM VINHO DO PORTO
No Verão, os contactos costumam duplicar no site. Mas a lei da oferta e da procura nem sempre funciona. Miguel Malheiros que o diga. O estudante de 20 anos vai partir esta semana para Amesterdão e ainda não obteve luz verde para um sofá. “Houve um holandês que me pediu para enviar um e-mail mais perto da data de férias. Não tenho nada confirmado”, declara sem dar sinais de stress.
A sua angústia não se compara com a que viveu um dos seus hóspedes, o norte-americano Tristan, há poucos meses. “Ele tinha combinado com um ‘couch surfer’ vir dormir uma noite a Lisboa. Só que quando cá chegou, o português desligou-lhe o telemóvel, deixando-o pendurado.” Tristan correu, desesperado, até ao cyber-café mais próximo e enviou uma mensagem aos surfers alfacinhas pedindo guarida. “Acolhi-o em minha casa. Se não fosse eu, o americano dormia na rua.” Miguel é colega de faculdade de Pedro Sanches, que também tem um sofá disponível para turistas menos convencionais. Os dois alunos do Instituto Superior Técnico descobriram o site depois de uma viagem de Verão a Ibiza, onde estoiraram com o orçamento. “O ‘couch surfing’ é mais económico”, declara Pedro. “Mas a poupança não é tudo.”
Até os seus pais, que de início desconfiaram do conceito, fazem agora questão de conhecer os estrangeiros que dormem lá no sofá. Lisa da Letónia e Andrew da Lituânia foram os últimos a sentir a hospitalidade da família Sanches: “Ela tornou-se fã de sardinhas. Ele, que nem gostava de peixe, provou e gostou.” Antes do casal partir à boleia pela Europa, Pedro ofereceu-lhes uma garrafa de vinho do Porto. “Na última vez que falei com eles estavam num sofá em Madrid”, diz com um brilhozinho nos olhos. Talvez não se importasse de ter ido com eles. Fica para a próxima, quem sabe?
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