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Correio da Manhã

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TANTO MAR

Este corpinho – que vai esticando para o lado, arredondando e desmoronando-se aos poucos – tem, entre outras desmesuras, excesso de praias. Ainda não via a luz do Sol e já ouvia o oceano. Boiava nas marés amnióticas de Laura Teresa, na Praia dos Careanos. O mar tingiu-lhe os olhos.
1 de Agosto de 2004 às 00:00
Suavam salgados os longos estios da infância. Nos quatro meses de férias, no final dos anos 50, não sei se era eu que ficava na praia, até a luz sucumbir, se era a praia que adormecia, em mim, na noite baixa.
Pela manhã, bastava descer uns metros da vereda e tinha, partilhando com poucos, rochedos com nomes de coisas, como as Mesas, outra alcunha para a mesma praia. Só o meu avô e o meu pai os conheciam.
Ajudei a devassar miríades de buracos, onde se escondiam as moreias, os safios, os polvos do jantar. E lagunas meninas, pegos cristalinos, onde recolhíamos camarões translúcidos. Tudo, entre mil banhos, nas únicas piscinas que existiam antes dos azulejos azuis nos fundos de água.
Quando regressava à escola trazia o cabelo dourado, a pele encarvoiçada, o nariz escamado. E a vazante agarrada ao corpo. A água salgada invadira-me os poros. Era mar, limos e algas o que me circulava pelas veias. Se balão houvesse, expiraria maresia pura, mil gramas por litro.
Depois, a Praia da Rocha convocou-me na adolescência. Ia nas carrinhas, puxadas a besta, cansadas da curva do Convento e da subida do Jeremias. Ou nas camionetas do Castelo & Caçorino. A Rocha, não fosse o furor das betoneiras e o chavascal das dragagens, seria hoje uma Praia da Marinha, muito mais vasta e majestosa. Quem a conheceu sabe que não minto.
Ali aprendi línguas e linguajares do corpo. A vocação de um homem era fundir-se na paisagem marítima, e humana, em mergulhos do alto do penedo dos Três Ursos. Quando me revejo em voos picados para a água, constato que, naquele número de circo para encantamento de sereias, eu era mesmo o quarto urso. Estudos e tropa pararam o circo. Não as marés. No Índico, em Inhaca e Inhambane, a pele não esqueceu o saibo do sal.
Abril desabado, encontrei Odeceixe minha pátria. Descobri-a – a mais genuína – com o Amílcar e o Romeu, amigos que vagueiam pelo paraíso, rodeados de sacas de perceves e navalheiras, minis geladas, risos, cantares alentejanos.
Com os amigos de sempre, como a Júlia e o Rui (a estrondear meio século de ledice), continuamos a sarrazinar à guitarra, no vapor das marés do Farol, ou em Odeceixe, distúrbios leves de alegria, esgravatando sorrisos, como conquilhas, na areia.
Não preciso de praias. Ou melhor, não preciso de as ter na pele. Já as tenho. Preciso de saber só que o mar está ali ao lado a rugir fúrias aos petroleiros. Ou, manhoso, a tentar capturar veleiros. E olhares ausentes. E partidas que só a saudade trava.
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