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TEMPO PERDIDO

“É aí que entram os comprimidinhos coloridos. São eles que nos vão devolver o equilíbrio quando caminharmos na corda-bamba. Basta que ainda haja tempo”
7 de Março de 2003 às 16:40
As farmácias portuguesas venderam quatro milhões de antidepressivos em 2001, mais do dobro dos 1,8 milhões vendidos em 1992. Não é difícil acreditar nas previsões da OMS (Organização Mundial de Saúde), segundo as quais em 2020 a depressão será a segunda causa de incapacidade, a seguir às doenças cardiovasculares.

Por outro lado, e de acordo com o que o presidente do Conselho Nacional de Saúde Mental afirmou ao jornal ‘Público’, “um terço das pessoas deprimidas nunca procura o médico” – temos portanto que o número de fármacos para este tipo de ‘doença’ está longe de dar resposta a quem dela padece.

Neste campo, as opiniões dos especialistas estão longe da unanimidade. E se há quem diga que o aumento do consumo de antidepressivos deve-se ao facto das depressões serem hoje melhor diagnosticadas, outros há que consideram que há um excesso da utilização de medicamentos deste tipo.

O que parece mais ou menos consensual é que a maior parte das pessoas não se sente nada bem, mas não tem tempo para procurar as causas da angústia, e portanto lá vai um comprimidinho azul, verde ou alaranjado, para ajudar a alma a libertar-se de nuvens, que isto do futuro não se compadece com tristezas.

A vida não está fácil. E o tempo, ou, neste caso, a ausência dele, torna as coisas ainda mais difíceis. Quem é que tem tempo para se sentar a olhar para as nuvens que correm – devagar – no céu e pôr-se a pensar porque raio é que acordar, todas as manhãs, se tornou num excercício penoso? Quem se pode dar ao luxo de passar uma manhã inteira à procura do verdadeiro motivo para essa sensação terrível de nada fazer sentido e o mundo ser uma máquina infernal, à deriva?

Perdemos amigos e familiares, desistimos do amor a sério, negligenciamos o crescimento sustentado dos nossos filhos, e mesmo assim continuamos a caminhar de olhos postos no chão, como se carregássemos o fardo de toda a desilusão da História e da Humanidade, e isso fosse incontornável.

Adiamos sonhos uma vida inteira. Isto para os que ainda têm a ousadia de sonhar que um dia é que vai ser, que a aurora há-de brilhar como um diamante ou mesmo um saco cheio deles, e que há-de haver um totoloto que nos salve desta voragem dos dias, dos meses e dos anos, e nos devolva o tempo necessário para vivermos as tristezas e as alegrias e não termos que as adormecer com pilúlas da cor do arco-íris.

Há dias em que olhamos para o espelho e perguntamos até onde seremos capazes de aguentar o peso da rotina e as exigências da modernidade. E às vezes já nem olhamos para lado nenhum, e vamos enchendo a agenda já de si lotada para que não haja a mínima possibilidade de nos encontrarmos a sós com os nossos pensamentos e a maldita consciência vir anunciar-nos que estamos a atraiçoar-nos.

Entre essa partícula acabrunhada do que ainda somos, de facto, e o retrato pomposo daquilo que temos que ser, vai-se cavando um abismo imenso. E um dia, quando já não suportarmos alojar dentro de nós duas crituras tão distintas, uma delas há-de declarar guerra à outra e o sofrimento tornar-se-á atroz.

É aí que entram os comprimidinhos coloridos. São eles que nos vão devolver o equilíbrio quando caminharmos na corda-bamba; são eles que nos hão-de impedir de desatar num pranto quando alguém nos disser que as sombras arroxeadas que nos rodeiam os olhos deixaram de ser olheiras para ser covas; e também eles nos poderão safar da lista de cônjuges falhados e pais cheios de remorsos, dando-nos ânimo para acreditar, só mais um bocadinho, que é possível mudar. Basta que ainda haja tempo.
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