Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
7

"Tenho uma razoável capacidade de fingir

Malkovich tem uma invejável tarefa no último filme de Clint Eastwood - defende Angelina Jolie, a protagonista de ‘A Troca’. Nada que o perturbe. A colega é uma “excelente actriz”, resume. Nesta entrevista, o actor que até já protagonizou um filme com o seu próprio nome, ‘Being John Malkovich’, fala das vicissitudes de se ser uma estrela ou de coisas mais prosaicas como os filhos adolescentes. E de Lisboa, claro.
11 de Janeiro de 2009 às 00:00
'Tenho uma razoável capacidade de fingir
'Tenho uma razoável capacidade de fingir FOTO: Getty Images

Deixe-me dizê-lo, tem um papel impressionante em ‘A Troca’. Como avalia este reencontro com Clint Eastwood após tantos anos depois de ‘Na Linha de Fogo’? Já nessa altura pensavam voltar a trabalhar juntos?

Não pensei muito nisso e realmente fico surpreendido por o Clint me ter convidado para este filme. Gostámos de trabalhar em conjunto, mas não o vi durante muito tempo. É engraçado, porque quando trabalho com algum realizador ou actor assumo que, presumivelmente, nunca mais voltarei a trabalhar com ele. Talvez por isso, procuro apreciar ao máximo cada experiência.

No filme, a personagem de Angelina vive o maior drama ao perder o filho. Como analisa as motivações da sua personagem para ajudar aquela mulher?

A minha personagem já tinha uma longa cruzada com a corrupção da polícia de Los Angeles na altura [anos 20]. Ajudou-a porque sentiu o seu desespero, mas também por afectar a polícia.

Como foi a experiência de trabalhar com Angelina Jolie? Apercebeu-se de todo o aparato que a segue?

Apenas posso dizer que a Angelina Jolie é uma excelente actriz. Mas não senti nada de aparatoso em redor dela. Vi mais isso com o Brad Pitt. Se calhar também porque filmámos essencialmente num estúdio e num outro local muito sossegado. Por outro lado, nas cenas que fez com muito público estava praticamente irreconhecível.

Provavelmente, o que não deverá suceder muito na sua vida privada...

Acho que as pessoas a deixaram em paz. Ao contrário do que sucederá na vida privada, pois os ‘paparazzi’ seguem-nos constantemente. Mas também acho que os ‘paparazzi’ deveriam ser proibidos. O mesmo a quem coloca uma câmara de telemóveis diante da nossa cara para nos fotografar. Deveriam pagar um dólar por cada foto.

E a quem pagariam esse dólar?

A quem quer que seja que veja a sua foto alvo de um ‘download’. Acho que a afronta pararia rapidamente. Enquanto não houver dinheiro envolvido irão torturar as pessoas à vontade.

Alguma vez teve problemas semelhantes com ‘paparazzi’?

Claro! Há uma cultura ‘paparazzi’ global. É desagradável estar num restaurante e alguém aproximar-se e colocar-nos uma câmara em cima do rosto sem pedir licença. As pessoas têm o direito à sua privacidade.

Mudando de assunto: como foi trabalhar com os irmãos Coen, em ‘Destruir Depois de Ler’? São muito diferentes de Clint?

São muito diferentes. Estão bastante em sintonia e são muito meticulosos. Se calhar, mais meticulosos relativamente a certos elementos visuais e ao texto. No entanto, isso não significa que o Clint não o seja relativamente a esses aspectos. Pode é ser menos definitivo, no sentido de que não se preocupará tanto se o telefone estiver aqui ou ali. Já o Joel e o Ethan preocupam-se. E eu diria que muitas das vezes têm a sua justificação. Apesar de diferentes, assemelham-se no sentido de que os três têm um óptimo sentido de humor e nunca nos fazem perder tempo. Nunca.

Já alguma vez teve a sensação de ter perdido tempo durante a rodagem de um filme?

Se alguma vez perdi tempo numa rodagem?... (risos)

Quer dizer, calculo que sim, mas acontece-lhe frequentemente?

Bom, essa é uma forma delicada de dizer que costumo perder tempo... Digamos que procuro que não seja frequente.

Considera que a sua vinda para Paris o terá influenciado a fazer algo completamente diferente, mais teatro, por exemplo?

Fazer cinema é que tem sido completamente diferente na minha carreira. Eu sempre fiz teatro. Mas gosto que o teatro não demore seis horas a começar. Gosto de começar logo. O cinema não é assim. Já estou habituado, mas considero que ainda se perde muito tempo.

Pode dizer-se que gosta mais de teatro do que cinema?

Não poderei dizer isso. Gosto de ambos. Gosto muito de fazer teatro e pretendo continuar a fazê-lo, mas isso não significa que irei investir aí todo o meu tempo.

Habituámo-nos a vê-lo em personagens muito absorventes. Gostava de saber como é que o John Malkovich passa com alguma facilidade de uma personagem para outra... É fácil para si, tendo em conta que um actor tem a sua vida privada? Como é que dialoga com essas diferentes personagens?

Não me parece que entre de forma tão profunda nas personagens. Acho que tenho é uma razoável capacidade para fingir. E uma boa imaginação. Agora, isso não tem um grande significado em mim ou na minha vida privada.

Mas de onde lhe veio essa fascinação pela representação? Li algures que começou por estudar Biologia e depois decidiu estudar representação quando se apaixonou por uma rapariga que tinha aulas de teatro.

Foi, de facto, mais ou menos isso que aconteceu. Eu tinha uma namorada que era actriz, costumava ir buscá-la aos ensaios e acabava sempre por ficar um pouco à espera. Entretanto, comecei a ficar mais tempo. Foi assim que despertou o meu interesse pela representação.

Vemo-lo frequentemente em projectos bem diferentes, sejam eles filmes independentes ou mais comerciais. Sente necessidade desse equilíbrio?

Não é propriamente uma necessidade, é isso que sempre fiz. Sabe, não me preocupo muito se um filme é independente ou não, porque não conheço ninguém que seja mais independente do que o Clint Eastwood.

Considera-se um ‘workaholic’? Pergunto isto porque, por vezes, são capazes de estrear vários filmes seus de seguida... Não que sejam de mais – só lhe podemos agradecer.

Isso significa que trabalhei muito, como sucedeu o ano passado, por exemplo. Mas acaba por ser uma coincidência. Serei eu um ‘workaholic’? Não. Sinto-me muito bem a trabalhar e sinto-me muito bem a não trabalhar.

Com toda esta vida agitada que tem, como é que programa os seus momentos de calma, quando não trabalha?

Gosto de estar com a minha família. Mas, sabe, os meus filhos são adolescentes, por isso não gostam muito de fazer programas comigo. De resto, gosto de ler. Aliás, isso é algo que eu faço muito. Ou então gosto de passear por cidades que possuem um apelo especial para mim.

Sendo uma delas Lisboa, por exemplo?

Sim, claro. Sinto falta de Lisboa.

E o que gosta mais em Lisboa?

Gosto da luz, das casas, das pessoas. Gosto de estar em Lisboa. O problema é que ultimamente não tenho tido muito tempo para ir a Lisboa.

E quando vai, costuma ir ao seu clube, o Lux?

Não, não costumo ir. Sou apenas um sócio. É um negócio que eu tenho, nada mais.

Não é o seu tipo de música, suponho...

Nem é isso, eu é que não sou muito uma pessoa de clubes. Mas reconheço que é um óptimo lugar.

Quantas vezes lhe perguntaram como é estar dentro da cabeça de John Malkovich?

Não sei, uns três milhões, talvez (risos). Provavelmente, mais.

É interessante, porque esse filme (‘Being John Malkovich’) fez crescer um forte estatuto de culto entre os jovens. Existe mesmo uma banda holandesa com o seu nome.

Sim, ouvi dizer, mas alguém também comentou que estão a separar-se. Aliás, acho que é o que devem fazer já que têm um nome desses... Infelizmente, ser John Malkovich não faz muito parte da minha vida. Foi tudo muito bom, mas são experiências que passam. Eu segui em frente.

No entanto, nesse filme percebemos que consegue rir-se de si próprio. Diga-me, não receia que um dia o poço de inspiração lhe falte?

Não me preocupo muito. Dependendo das pessoas, o poço pode secar ou renovar-se. No meu caso, fica por saber como será.

O que necessita para realizar um outro filme? Que alguém lhe peça, que sinta essa necessidade?

Já me pediram e vi projectos interessantes. Mas em vez de gastar três ou quatro anos para conseguir realizar um filme e arranjar o investimento, prefiro investir o meu tempo numa peça ou em participar em outro filme.

O John vive há algum tempo aqui em França. Escolheu este país por alguma razão especial?

Gosto de viver aqui. Não há nada em particular que não goste. É sossegado. Tenho uma quinta na Provença, um lugar fantástico para educar crianças pequenas, apesar de já não serem crianças... No entanto, foi e é um tempo fantástico.

Quando foi que descobriu o poder especial da sua voz?

Nunca penso nisso. É engraçado que me façam essa pergunta com frequência, porque eu próprio não suporto a minha voz. Quando me ouço apenas espero que me cale. É interessante como a percepção das coisas muda. Eu gosto de vozes: há umas que adoro e outras que não suporto.

O que acha da voz do Eastwood?

Adoro-a.

PERFIL

Há que superar a redundância do 'ser John Malkovich' e encarar o homem e o actor na sua individualidade. Durante a promoção de ‘A Troca’ [imagens do filme acima e em baixo, com Angelina Jolie], tivemos a oportunidade de entrevistar Malkovich. Primeiro, notámos o porte elegante e, quase de imediato – ou logo que se iniciou a conversa –, reconhecemos o tom pausado e reflectido com que profere cada palavra. Ainda que a voz seja sussurrada, quase sumida, apesar de uma projecção suficiente para calar todos em seu redor. 'Detesto a minha voz', acabará por admitir. Curioso, pois o seu timbre parece ser um dos seus mais poderosos atributos. John Gavin Malkovich nasceu a 9 de Dezembro de 1953, em Christopher, IIlinois, nos EUA, descendente de croatas, alemães e escoceses. Os pais estavam ambos ligados à Imprensa e eram, por isso, pessoas influentes na comunidade. John era atleta no liceu. Mas o típico jovem americano deu lugar ao interessado na arte da interpretação e em 1976, com Joan Allen, Gary Sinise e Glenne Headley, integra a Steppenwolf Theatre Company, em Chigado. A carreira começou e consolidou-se no teatro mas foi o cinema que lhe trouxe a fama em filmes como ‘Ligações Perigosas’, ‘Retrato de uma Senhora’ ou ‘Quem quer ser John Malkvich’. O americano, que trabalhou com Manoel de Oliveira, já produziu e realizou os seus próprios filmes.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)