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Correio da Manhã

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Terapias para famílias multiespécies

Medicina do comportamento resolve problemas de animais de estimação.
Leonardo Ralha 19 de Outubro de 2014 às 18:28

Mais de metade dos animais que vão às consultas de Medicina do Comportamento de Gonçalo da Graça Pereira são cães, mas há cada vez mais gatos, levados pelos humanos que com eles dividem casa. São duas horas em que o veterinário e professor universitário ajuda os donos a alterar aquilo que lhes desagrada nos seus animais de estimação.

Problemas de agressividade para com os humanos e outros animais são os mais comuns, e logo a seguir vêm o stress e a marcação de território. Na consulta definem-se estratégias para que o cão ou gato mudem de comportamento, culminando um processo que envolve uma primeira consulta de uma hora, só com os donos, o visionamento de vídeos domésticos do animal em questão – para observar sem interferir – e o preenchimento de um extenso questionário, também importante para o diagnóstico. Todos os casos são referenciados por veterinários e as duas consultas têm, em média, um custo de 100 euros.

Numa altura em que os portugueses têm cada vez mais animais de companhia, estimando-se que haja 1,8 milhões de cães e um milhão de gatos em casa, segundo um estudo da Euromonitor International, e que se gastem 300 milhões de euros por ano em produtos de alimentação e cuidados de saúde, a Psianimal - Associação Portuguesa de Terapia do Comportamento e Bem-Estar Animal, fundada e presidida por Gonçalo da Graça Pereira, de 37 anos, está a fazer o seu quarto congresso, que encerra hoje, em Sintra. Durante dois dias estão a ser debatidas questões ligadas sobretudo a felinos e canídeos, embora as comunicações da veterinária alemã Daniela Zurr, uma das oradoras, digam respeito à prevenção e tratamento de problemas comportamentais em tartarugas, iguanas verdes, dragões-barbudos e porquinhos-da-índia, igualmente presentes em alguns lares.

Destinado a um "público misto", incluindo veterinários, biólogos, tratadores de animais e universitários, o congresso dedica-se a transmitir conhecimentos sobre modificação comportamental e treino, tendo em conta que grande parte dos problemas com os animais está relacionada com a falta de conhecimento dos donos.

Uma das palestras, a cargo de Sara Fragoso (‘Modificação Comportamental em Gatos’), poderá parecer ficção científica para quem convive com felinos. Mas a também professora da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Lusófona discorda, garantindo ser possível utilizar técnicas de reforço, ou de recompensa, para os ensinar a deitarem-se, sentarem-se ou darem a pata aos humanos: "Têm as competências cognitivas para aprender e, se soubermos dar algo em troca, como pagamento pelo que fazem, conseguimos ensiná-los da mesma forma que um cão. É uma forma muito interessante de estimular o gato, em vez de ele passar o dia inteiro sem fazer nada." E também de evitar efeitos colaterais de garras e dentes. "Podemos usar ferramentas de treino para que um animal que reage de forma muito efusiva se autocontrole e consiga gerir melhor a frustração e as emoções."

Para melhorar o seu bem-estar há que, segundo a investigadora, de 34 anos, fazer o "enriquecimento ambiental" do local em que o gato passa os dias, oferecendo-lhe desafios à agilidade e inteligência. "Apesar de muitas pessoas pensarem que os gatos são autónomos e não têm grandes necessidades, bastando água, comidinha e um sítio para dormir, isso não é verdade", garante Sara Fragoso.  

A Medicina do Comportamento nunca perde de vista que é preciso analisar o ambiente, o animal, o dono e a relação entre eles. "Temos de perceber o que leva ao comportamento, para agirmos na motivação", diz a investigadora, admitindo que a motivação para arranhar o humano tanto pode partir do instinto predatório de um animal que teria de caçar se estivesse solto – "à falta de um pássaro, vai o braço" –, como da frustração por estar o dia inteiro sem fazer nada, ou do puro medo, restando-lhe exprimir desconforto de forma violenta.

IMPORTÂNCIA DO DONO

Mais habituados a sair de casa do que os gatos, os cães também podem ter problemas na rua. O presidente da Psianimal realça que a maioria dos casos de agressividade canina têm a ver com receio. "Numa fase inicial, aprendem que quando outro cão se aproxima, rosnam-lhe. Portanto, têm de adaptar a linguagem para o afastar. Rosnam e percebem que isso resulta, mas há um dia em que rosnam e o outro ataca", diz Gonçalo da Graça Pereira.

A vice-presidente de Psianimal vai um pouco mais longe. "O próprio comportamento do humano potencia muitas vezes a resposta do animal na rua. O dono fica tenso, puxa a trela, e já está a dar sinais ao cão de que o outro o irá atacar. Está a reforçar o comportamento ao aumentar o nível de excitação do cão", diz Sara Fragoso. Não por acaso, quando confrontado com situações em que sente medo, o cão olha para o dono para ver o que deve fazer. A solução, neste caso, é manter a tranquilidade.

Entre os principais animais de companhia, os cães levam vantagem sobre os gatos na interpretação de expressões humanas. "Dezenas de estudos demonstraram que eles sabem que quando o humano faz cara de zangado, juntando as sobrancelhas, isso é negativo. Daí que apareça muita gente a dizer: ‘O meu cão sabe que fez asneira.’ Mas não. Simplesmente interpretou sinais que lhe demos", diz Gonçalo da Graça Pereira.

Para os gatos ganham relevância as vocalizações. Além de reconhecerem o nome que lhes é dado, desde que assim sejam chamados de forma consistente, associam sons à alimentação e à convivência com os humanos, e prestam particular atenção à entoação. "Sabem que se dissermos ‘bichano’ receberão uma festa caso se aproximem. Mas se chamar pelo ‘bichano’ com a entoação de quem lhe vai dar uma palmada, não chegam perto. É uma forma de aprendizagem em que os donos erram diariamente", diz o veterinário.

Mais complicado é interpretar a linguagem felina. Embora alguns investigadores procurem fazer uma espécie de dicionários do significado dos diferentes miados, e seja fácil aos donos perceberem quando o gato mia porque quer comida, ou ver uma porta ou torneira aberta, aquilo que é comunicado sem recurso a sons é mais difícil de decifrar. "Quando começa a ficar frustrado, lambe os lábios. É um sinal ténue, que muitos donos não irão interpretar. Temos de estar atentos", alerta Gonçalo da Graça Pereira.  

CATÁLOGO SENTIMENTAL

O aumento de interesse no aperfeiçoamento da relação entre humanos e animais torna-se mais essencial numa altura em que se fala de um efeito de substituição nos casais que têm cada vez menos filhos. No entanto, os responsáveis da Psianimal preferem falar no conceito de família multiespécie, utilizado pela brasileira Ceres Berger Faraco, uma veterinária clínica doutorada em Psicologia. "Hoje em dia temos muitos casais que têm filhos e os irmãos dos filhos, que podem ser um cão ou um gato. E há quem não tenha uma família estável e opte por um animal para fazer companhia", diz o professor universitário, para quem está em causa "a necessidade que nós temos de amar e de sermos amados".

Os sentimentos dos animais com quem dividimos casa foram matéria ignorada durante muito tempo, até que nos anos de 1980 e 90 se começou a falar deste tema. No entanto, sendo atualmente aceite que cães e gatos têm emoções positivas e negativas, como ansiedade, aborrecimento, frustração ou aproximação, continua a haver entre os donos necessidade de catalogar, procurando aplicar sentimentos humanos, como amor, amizade e egoísmo, a quem não pode ser acusado de pertencer a essa espécie.

Muito estudado está o modo como os animais mudam ao envelhecerem, sendo que a esperança média de vida encontra- -se nos 12 anos para cães e nos 15 anos para gatos. Nos primeiros, em particular, observam-se alterações parecidas com as dos humanos, pelo que são usados como modelos para o envelhecimento cerebral e demência.

No entanto, numa das comunicações que serão feitas hoje no congresso da Psianimal, a treinadora de cães Eduarda Pires falará do que se pode ensinar aos animais idosos. O presidente da associação vê-o como um problema a que deve ser dada atenção. "Mais importante do que o exercício físico é o exercício mental. Serem idosos não quer dizer que estejam condenados a dormir em cima do sofá até ao fim das suas vidas. Mas muitas vezes sucede-lhes mesmo isso. Vemos o nosso cão ou o nosso gato a envelhecer e dizemos apenas: ‘Coitado, está mais velho e só quer dormir...’"

Quanto aos efeitos da aproximação da morte, pouco ou nada se sabe. "Quando nós, veterinários, fazemos o diagnóstico de um tumor, quem fica em ansiedade é o dono. E pode transmitir esses sinais", refere, admitindo que as dores e a alteração ambiental a que o animal é sujeito, devido a tratamentos que o afastam do seu espaço, serão indícios de que algo negativo está a acontecer.

É natural que quem se dedica a tentar alterar o comportamento dos animais de companhia veja pontos de contacto com a Pedopsiquiatria, pois a maior parte do seu trabalho é feita com os pais, tal como para eles é com os donos. Falar em Psicologia Animal ainda garante controvérsia, mas querem que a Medicina do Comportamento seja cada vez mais levada a sério. E que isso aconteça também entre a classe dos veterinários, que logo nas primeiras consultas do animal, recém-chegado a um lar humano, devem dar conselhos para prevenir os problemas. E evitar que os racionais saiam a perder na interação. "Há muito dono treinado por gatos e por alguns cães também", reconhece Sara Fragoso, com um sorriso.

GATOS DEFINEM COMPORTAMENTO MAIS CEDO DO QUE OS CÃES

Tal como as crianças, os animais de estimação necessitam de um período de sociabilização para aprenderem a lidar com os outros. No caso dos cães, isso implica contacto com humanos de várias idades, outros cães, carros e barulhos da rua. O processo é idêntico para gatos, com a diferença de que neles o período de sociabilização é mais curto, terminando ao mês e meio. "Um gato que nasça na rua, e tenha más experiências com humanos, pode adaptar-se pior a casa", avisa o presidente da Psianimal.

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