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Terra de solteirões

Na aldeia da Urgueira, que fica a poucos quilómetros da Guarda, os habitantes negaram-se ao casamento. Todos dizem que não é nenhuma maldição fruto da História mas sim por falta de vocação. Será mesmo verdade?
3 de Abril de 2005 às 00:00
Luís Augusto Pereira, de 54 anos, é um dos solteiros da aldeia de Urgueira
Luís Augusto Pereira, de 54 anos, é um dos solteiros da aldeia de Urgueira FOTO: Paulo Santos Pereira
Na aldeia de Urgueira, freguesia do Jarmelo, no concelho da Guarda, o povo não acredita em maldições. Nem mesmo na de D. Pedro que, segundo reza a tradição, mandou salgar os terrenos para lhe quebrar a fertilidade, devido ao facto de D. Inês de Castro ter sido impedida de lhe dar um herdeiro.
Mas se as populações baixaram do alto do Jarmelo por causa da maldição, habitando terrenos onde o sal não tenha sido espalhado, a verdade é que a infertilidade parece ter passado de geração em geração. Prova disso é o facto de as mulheres se manterem solteiras – relacionamentos de não casados é algo impensável numa aldeia intrinsecamente Católica, Apostólica e Romana.
Atacada pela desertificação, a Urgueira é uma pequena aldeia situada a poucos quilómetros da Guarda. Tão perto e ao mesmo tempo longe da modernidade. Ali, os habitantes respiram tranquilidade e dedicam-se à agricultura. Luís Augusto Pereira, de 54 anos, solteiro, é um deles. E também ele tem uma boa explicação para o facto de ser uma povoação de solteirões. Diz que a infertilidade não é para ali chamada até porque a sua mãe teve 12 filhos. Dito isto, lembra um velho ditado lá da terra : “Vaca boa ou mulher boa, do Jarmelo não sai”. E conclui: “Não acredito em maldições. Não casei porque não calhou e mulheres não me faltavam”.
Luís Pereira, sempre com um ar bem disposto, faz questão de deixar bem claro, “não há nenhum casal na aldeia”. Excluídos, por natureza das suas estatísticas, estão os dois casais que não nasceram na terra. “Somos 17 pessoas, entre viúvas ou solteiras”, sublinha. Assegura que nunca foi homem de bruxedos, razão pela qual não acredita na maldição de D. Pedro. “O problema é que os casados vão morar com os filhos para a cidade, perto das escolas, dando-lhes uma vida mais fácil do que foi a nossa”, informa.
Mas Luís ficou. Vive com a mãe viúva, de 85 anos e com a tia, uma solteirona que apesar dos seus 93 anos ainda tem uma boa cabeça. “Ninguém a engana nem num cêntimo”, garante. Mas a tia Maria da Purificação, dona de uns lindíssimos olhos azuis-claros, não gosta de visitas, principalmente daquelas que lhe vão fazer a pergunta que ela não gosta de responder. Qual? Por que é que ficou solteira. Mas ao sobrinho já abriu o coração – “foi por escolha”, disse ela. E ele assinou de cruz. “Também foi o mesmo caso”, admite. Sentada à janela, Maria da Purificação ficou a ver o sobrinho sair de casa, engalanado no seu fato domingueiro.
Duas ruas abaixo vive Maria Moreira, de 70 anos. “Fiquei solteira porque quis”, afirma com palavras a derrapar no céu da boca. Por isso ficou na “casa grande” que partilha com dois irmãos mais velhos, também eles solteiros. “Temos as ovelhas, as vacas, os passarinhos, o cão, as pombas, não vivemos sozinhos, temos muita companhia, graças a Deus”, afirma.
Maria Moreira está contente com a vida que escolheu. Só lamenta a desertificação da sua aldeia. “Aqui não nasce ninguém. Até os casais que vieram de fora, já tinham os filhos meio criados que estudam na cidade”, diz com mágoa. A mesma mágoa que lhe enche o coração quando olha para o lado e constata a triste realidade – “não há gente nova a trabalhar no campo, só os velhos”. É por estas e por outras que aproveita a oportunidade para fazer uma reivindicação – “por favor alcatroem as ruas principais”, suplica. E explica porquê: “Sempre andávamos melhor e a aldeia ficava mais bonita. Sabe, como somos poucos não querem saber de nós, aqui só vem alguns dias o padeiro, o merceeiro, o vendedor de roupas e todos os dias o carteiro, de resto, ninguém se interessa por nós”.
Entretanto, chega apressado o irmão mais velho de Maria, Avelino Moreira, de 79 anos. “Falar por que é que fiquei solteiro? Não há tempo para isso... tenho muito que fazer” e lá parte com as vacas. Mais à frente, vive Maria Lúcia de 55 anos, também “solteira”. Mulher de ideias firmes diz não acreditar em lendas e muito menos em maldições. Timidamente, explica: “Fiquei solteira por opção e dedicação à família. Primeiro à minha mãe que ficou viúva; depois ao meu tio solteiro, ambos já falecidos. “Agora já passou o tempo, sinto-me bem e não caso”.
Numa casa no fundo da aldeia vive Maria José Trindade, solteira, de 81 anos. Idosa com um gracioso ar, a emanar alegria e boa disposição. Uma idosa bonita mas que não acredita nos atributos que Deus lhe deu. “Bonita eu? Não sou, não. Esforço-me sim é para ser simpática”, desabafa. Acto contínuo muda a conversa para dizer que vive numa casa quinhentista como lhe disse o historiador José Hermano Saraiva. Local onde nasceu, bem como os restantes nove irmãos, dos quais ela é a mais velha. Diz orgulhosa que tem 45 sobrinhos que a “adoram”.
A octogenária diz não ter razões para dizer mal da vida. E explica o segredo da sua jovialidade. “Nunca fui ao talho, pois sempre tive galinhas, coelhos e porcos para comer e fazer chouriços, presuntos, morcelas, farinheiras”. Mais: “Sempre comi as minhas hortaliças e batatas, o queijo só como aquele que faço com o leite que compro ao vizinho”. Como se isso não bastasse faz ainda parte do Coro ‘Ronda do Jarmelo’, que a transporta a inúmeros passeios e convívios. Só abandonou a arte da costura por causa das costas, mas ainda faz renda.
“Homens nunca me faltaram. Ainda há três semanas um viúvo se queria relacionar comigo e eu disse-lhe que não. Tive muitas propostas de casamento e só não casei porque nunca senti essa vocação”. Justifica que, na sua perspectiva, os dois dons mais importantes são “a vida e a liberdade”. “Estou no lugar certo, sempre fui pobre e com poucas aspirações, talvez seja por isso tudo que me considero uma pessoa feliz”.
Perante tais convicções, não há argumentos que demovam Maria José Trindade, a única mulher no povo que dá a cara para a fotografia, mesmo contra as vozes que a criticam por isso mesmo. Também teve mais irmãs solteiras na família, mas seguiram a vida religiosa. Ao lado de sua casa vivem mais três irmãs solteiras. Ao todo, contabilizou dez solteiros a viverem na aldeia. Isto fora as duas irmãs freiras e outros mais que estão a viver em lares ou com familiares noutras aldeias e cidades vizinhas.
Com o mesmo ar jovial do início da conversa, Maria José Trindade desafia as casadas: “Quando elas disserem que estão melhor do que eu, logo falamos”. E mais não disse.
A LENDA
Nasceu no Jarmelo, Pero Coelho, homem da corte do Rei D. Afonso IV - O Bravo. Oriundo de uma família extremamente rica, era dele o melhor palácio da vila no princípio do século XIV. Foi este um dos três fidalgos que invocando especiais razões de interesse para “a grei e para o rei”, aconselhou e praticou o assassinato de D. Inês de Castro na quinta das lágrimas em Coimbra, no dia 7 de Janeiro de 1355. Dois anos depois, em 1357, foi mandado matar por este bárbaro acto tendo-lhe sido arrancado em vida o coração pelo peito.
Foi nesse mesmo ano que D. Pedro, mais tarde D. Pedro I - o Justiceiro, ordenou que fosse completamente arrasada a “vila do Jarmelo”, por aí ter nascido Pero Coelho. A Estêvão Lobato, D. Pedro doou as terras de Pero Coelho por este ter afirmado que assistira ao casamento de D. Pedro e de D. Inês, celebrado por D. Gil, deão da Sé da Guarda.
Aliás, tinha sido justamente para o Jarmelo que Dª. Inês – aquela que depois de morta foi rainha, foi desterrada pelo rei D. Afonso IV a conselho de Pero Coelho e outros. Ficava ali mais segura, vigiada com rigor. Mas D. Pedro não descansou nem comeu enquanto não encontrou a sua amada que passou a ver à noite, às escondidas, com muita cautela, a cavalo, envolto numa longa capa negra. E o corcel leva as ferraduras pregadas às avessas para assim despistar os seus perseguidores.
Depois da vingança de el-rei D. Pedro, determinou este que no Jarmelo não ficasse pedra sobre pedra - salgando-se o terreno - num gesto decisivo de maldição e extermínio. Maldição que teria passado de geração em geração e que dura até hoje. É esta lenda que explica que na aldeia o casamento é uma palavra que não consta do dicionário.
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