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TERRORISMO: PEQUENO BREVIÁRIO DO MAL

Na próxima quinta-feira faz dois anos que o mundo olhou para a América aterrorizado. Depois do ataque assassino da al-Qaeda, o Estado todo-poderoso expôs as suas fragilidades e a face do terrorismo mudou para sempre.
7 de Setembro de 2003 às 16:17
No dia 11 de Setembro de 2001, o mundo acordou para o ataque terrorista contra os norte-americanos mas se os milhares de mortos e a intensidade das imagens televisivas deixaram a opinião pública siderada, em termos estratégicos contava igualmente um facto novo: o ataque tinha sido desferido contra o coração da América.
De facto, o território continental norte-americano nunca tinha até então sido alvo de uma flagelação externa e o mais importante é que a fragilidade do ‘Império’ surgiu após o fim da Guerra Fria. Com o fim do Pacto de Varsóvia e o desmembramento da União Soviética, no final dos anos 80, foram muitos os que previram a paz absoluta mas, poucos anos depois, as opiniões mudavam 180 graus, obrigadas a enfrentar um novo tipo de terrorismo em que a ameaça já não vinha envolta nas ideologias da extrema-esquerda. Tinha-se perdido a previsibilidade, que resultava da capacidade de poder controlar alguns movimentos de grupos terroristas, uma vez que o desaparecimento do KGB deixou a CIA – e outros serviços de informações ocidentais – sozinha num terreno que não dominava. Com efeito, se bem que rivais e inimigas as comunidades dos serviços secretos nunca foram estanques e contactavam entre si sempre que tal fosse julgado útil.
Nessa altura, o Ocidente – que não os EUA – já tinha tido terríveis experiências, nos anos 70 e 80, com grupos como a Acção Directa, em França, o Baader Meinhof, na Alemanha, as Brigadas Vermelhas, em Itália, e a ETA, em Espanha. No entanto, se bem que os apoios viessem do exterior, em particular da Líbia e de outros Estados árabes, os grupos viviam de uma matéria-prima interna de extrema-esquerda, permeável, por isso, à infiltração policial, até porque a sua acção se limitava a alvos nacionais. O IRA, da Irlanda, tinha um cunho ideológico muito menos acentuado mas era igualmente frágil à infiltração policial. No conjunto, os terroristas constituíam-se como os ‘suspeitos do costume’, isolados em elites universitárias e ‘bem pensantes’, com escasso apoio popular claro, com a excepção do IRA e da ETA – embora neste último grupo o apoio de massas começasse a reduzir-se cada vez mais, com o incremento da democracia em Espanha e o favorecimento das autonomias. Numa outra vertente – embora com algumas ligações ao fenómeno europeu – funcionava o terrorismo árabe, de matriz palestiniana, mas em que o principal alvo era Israel e qualquer ataque contra outro Estado ocidental era uma consequência do apoio ao Estado hebraico.
O NASCIMENTO DA AL-QAEDA
O fim da Guerra Fria e o desaparecimento dos serviços secretos de Leste ditou o fim dos apoios a esses grupos e os que não desapareceram vencidos pela Polícia sentavam-se à mesa das negociações.
No mundo árabe, a OLP seguia um caminho similar, mais convencional, procurando o almejado Estado Palestiniano, mas, em contrapartida, o Irão dava corpo ao fundamentalismo árabe – livre de qualquer matriz ideológica e mergulhando os pontos de referência no Corão. No panorama terrorista era uma terrível novidade que, rapidamente, atingiu Israel, através de grupos como o Hamas ou a Jihad Islâmica. Actuando a partir dos territórios palestinianos, desnudaram a incapacidade da Autoridade Palestiniana de controlar a área de sua responsabilidade e justificaram as opções mais radicais do Estado de Israel. A componente religiosa fanática destes grupos, livre de qualquer referência político-ideológica, anunciou o movimento que se fazia sentir no Afeganistão, nascido na sequência da luta contra os soviéticos, cuja componente de comando e controlo mais mediática viria a ser conhecida como al-Qaeda.
Curiosamente, as necessidades da Guerra Fria fizeram os EUA apoiarem estes grupos nos anos 80, um apoio que, no entanto, se viraria contra os próprios norte-americanos. O terrorismo fundamentalista manteve-se como um fenómeno de massas, com forte apoio popular, mas virado agora contra os EUA, apontado como o ‘Grande Satã’ e em que o primeiro grande testemunho de capacidade de acção foi o 11 de Setembro.
A CIA foi acordada para o falhanço da recolha de informações e reconheceu ser necessário um maior trabalho de campo, ao invés de se fiar apenas na tecnologia. Mas, no ano seguinte seguia-se o atentado de Bali, na Indonésia, de novo contra interesses ocidentais. A opção de Washington recaiu no ataque ao Iraque mas à fácil vitória convencional seguiu-se a enorme dor de cabeça que é enfrentar uma guerra de guerrilha urbana e flagelações terroristas diárias. Até a neutral ONU se transformou num alvo, numa mensagem ameaçadora virada contra qualquer instituição internacional que pise o solo iraquiano. Mais uma vez, no ataque às Nações Unidas, em Bagdad, as informações falharam e resta ficar à espera do próximo ataque, por agora limitado ao Iraque – talvez porque os terroristas assim não precisem de andar muito.
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