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"Tete era a Saigão portuguesa" II

A ‘Operação Crasto 3’, no distrito de Tete, durou oito dias. Perdemos um companheiro – o 1.º cabo Louro, morto acidental-mente pelo furriel T...
17 de Agosto de 2008 às 00:00
'Tete era a Saigão portuguesa' II
'Tete era a Saigão portuguesa' II FOTO: D.R.

(resumo da semana anterior)

Dois pelotões de combate da 2.ª Companhia de Pára-quedistas do Batalhão 32 – comandados pelos alferes José João Pais e Fernando Dias – preparavam-se para a ‘Operação Crasto 3’. Objectivo: destruir uma base da guerrilha, no Norte de Moçambique, e capturar uma alta figura da Frelimo, comandante Sebastião Mabote.

No dia 9 de Maio de 1973, ao princípio da tarde, no Aeródromo Base n.º 7, em Tete, os helicópteros começaram a aquecer os rotores para levarem duas dezenas de pára-quedistas e uma guia negra. Estava em marcha a ‘Operação Crasto 3’ – com a duração prevista de oito dias. A viagem a bordo dos hélis foi alucinante – sempre rentinho à copa das árvores. Durou 2 horas e 15 minutos, até algures no interior profundo do distrito de Tete, a uma distância de cerca de 30 km do objectivo, a Base Ponde, importante ponto de apoio da guerrilha da Frelimo e onde, segundo as informações militares, devia estar o comandante Mabote.

Saltámos dos helicópteros e ficámos logo ali emboscados, junto a um trilho, para impedir que alguém passasse no outro sentido e fosse dar o alarme aos guerrilheiros. Ao fim de cerca de 15 minutos começam a chegar várias pessoas. À frente vinha um jovem, que aparentava 18 ou 19 anos, seguido por dois homens e várias mulheres e crianças. Não deixámos passar ninguém: foram feitos prisioneiros, para que a nossa presença não fosse assinalada. Duas mulheres tinham golpes nos braços. O enfermeiro Cunha tratou-as. O alferes Dias, entretanto, já tinha mandado regressar os hélis para levarem os prisioneiros para Tete, onde seriam interrogados.

Anoitecia rapidamente. Iniciámos a marcha por um vale apertado e profundo, conduzidos pela nossa guia. Só havia um trilho, pelo que era pouco provável que alguém da população nos tivesse ultrapassado para dar o alarme.

Caminhámos durante toda noite em direcção ao objectivo. Fomos sempre seguidos de muito perto por alguns vultos com pequenas luzes na mão, mas que não se atreviam a ultrapassar a nossa coluna. Prevíamos atingir o objectivo por volta das 3 horas da manhã. Muito perto dessa hora, já estávamos a tomar posições com a base inimiga à vista. Ainda estava tudo calmo nas palhotas. O negrume da noite começava a desaparecer. Quando a claridade veio, vimos as sentinelas e os guerrilheiros a levantarem-se e a deslocarem-se de umas palhotas para as outras. Eram muitos. Mas pareceu-nos, a mim e ao Dias, que as movimentações e as sentinelas que observávamos não indiciavam que estivesse ali 'gente importante' – de outro modo, o reforço de vigilância seria maior. Perto das 4 horas decidimos lançar o ataque. Tinha que ser cuidadoso – mas firme e violento, com forte poder de fogo de G3 e de morteiradas. Não sabíamos quantos guerrilheiros havia na base. Nós éramos apenas 20. A nosso favor só tínhamos o factor surpresa.

À ordem de fogo, avançámos. Todos em linha. As primeiras palhotas estavam a cerca de 100 metros. Atacámos decididos – mas, a poucos metros do núcleo central da base, caímos dentro de uma trincheira que a circundava. Valeu-nos que estávamos preparados e treinados para todas as eventualidades. Grito para os meus homens tentarem sair rapidamente daquele fosso. Alguns subiram mais rapidamente e mantiveram a iniciativa de fogo – enquanto outros se chegavam de novo à frente. Olho para o Dias, que ia à minha esquerda, e sinto que está tudo sob controlo. Conseguimos ultrapassar aquele obstáculo inesperado, mas perdemos segundos preciosos. Os guerrilheiros ganharam alguma segurança na sua fuga, apesar de constantemente flagelados pela nossa morteirada. O inimigo praticamente não respondeu ao nosso tiroteio. Sentimos poucos tiros e muito altos. Eles preferiram fazer uma retirada estratégica e aguardar um momento mais oportuno para nos fazer frente. Em dez minutos, tínhamos a base ocupada e as palhotas revistadas. A base era constituída por uma escola, um posto de saúde, locais de reunião e, sobretudo, palhotas de habitação. A ordem era para não ficar nada de pé. Incendiámos tudo.

Na refrega, um dos nossos militares é ferido sem gravidade, um guerrilheiro é morto e é capturado um outro. Apanhámos algum material de guerra, nomeadamente duas metralhadoras, granadas, binóculos, fardas e documentos. Não encontrámos vestígios da presença de Sebastião Mabote. Creio, hoje, que ele tinha projectada uma visita à base uns dias mais tarde. O objectivo de destruir a base estava cumprido, mas a operação ainda não estava terminada.

A tensão era enorme. Não podíamos estar ali mais tempo à espera que o inimigo se reorganizasse e nos flagelasse com morteirada. Saímos rapidamente da zona – e montámos uma emboscada nos trilhos de acesso à base. Sabíamos, por experiência, que alguns guerrilheiros poderiam regressar para verificar os estragos. Não se aproximaram. Flagelaram-nos com alguns tiros e morteiradas sem grande importância.

Passámos o resto do dia em constante movimentação para despistar os guerrilheiros a fim de encontrarmos um local seguro para dormir. Acreditávamos que a noite seria um inferno de fogo-de-artifício. E foi. Escurecia quando começaram as primeiras morteiradas. Quem passou por momentos idênticos sabe o que é ouvir o ‘baque’ da saída da granada do morteiro sem saber onde ela irá cair. Felizmente, nenhuma caiu perto. A partir de certa altura, pudemos descansar.

Os dias seguiram-se como havíamos previsto para esta operação, que era montar emboscadas nos trilhos principais de modo a podermos obter mais alguns resultados, capturar inimigos e armas e, porventura, darmos de caras com Sebastião Mabote.

Após uma noite passada com normalidade, aconteceu a tragédia. Era a manhã de 15 de Maio. Faltava um dia para terminar a operação. Estávamos emboscados perto de um trilho e escondidos entre capim mais alto que um homem. Às tantas, ouvimos o capim a mexer escassos metros mais à frente. A tensão aumentou. Podia ser o inimigo que se aproximava. O furriel T... não conseguiu aguentar a pressão e abriu fogo. Fez apenas dois tiros. Ouvimos um urro angustiante que quebrou o silêncio daquela manhã. Quem quer que fosse, caiu de imediato com um grande gemido saído das entranhas. Fomos rapidamente ver o que se passara. Quando julgávamos que íamos encontrar um guerrilheiro estendido no chão, verificámos horrorizados que era um dos nossos – o Louro, o primeiro-cabo António Luís Pires Louro. Tinha saído da zona de emboscada, sem avisar os companheiros do lado, para fazer uma necessidade fisiológica. Estava ali a esvair-se em sangue, curvado, com a cabeça junto aos joelhos, atingido por duas balas que lhe entraram junto ao umbigo. Ia morrer. O alferes Dias chamou pelos enfermeiros Cunha e Balau.

O Balau ainda lhe deu uma injecção para manter o ritmo cardíaco, mas já era tarde. O Furriel T... estava inconsolável. A tragédia também passava por ele – embora não se sentisse culpado, pois não fora descuido seu, nem falta de atenção, nem quebra de qualquer regra de segurança.

Se a tensão já era muita, imagine-se o estado de angústia que se apoderou daquele grupo de homens, bem preparados para a guerra, mas nunca suficientemente preparados para verem um camarada morto nas circunstâncias terríveis em que esta ocorreu.

Pouco tempo depois, começa o tiroteio dos guerrilheiros. Apercebem-se do local onde estamos e disparam alguns tiros e morteiradas. Saímos rapidamente da zona com o corpo do Louro às costas. Fui para a frente do pelotão para sairmos dali imediatamente. A determinada altura, olho para trás e vejo o alferes Dias com o corpo do Louro aos ombros. O Louro era do pelotão do Dias que, devido às suas qualidades de combatente, o promovera a primeiro-cabo, sendo já um dos veteranos do grupo de combate e que dentro de pouco tempo acabaria a comissão de serviço.

Chamámos um helicóptero para a evacuação urgente. Não havia muito mais a fazer pela vida Louro, mas poderíamos fazer com que o corpo chegasse o mais rapidamente a Tete. Não foi fácil fazer descer o helicóptero. Na primeira tentativa de aterragem, ouviram-se tiros e o piloto abortou a manobra e voltou a subir. Procurámos outro local, mas a vegetação não permitia a descida completa até ao solo. Finalmente, encontrámos um lugar seguro que permitiu a evacuação do corpo – e, se a memória não me trai, seguiu também o furriel que estava emocionalmente destroçado. No dia seguinte acabou a operação, com mais um ou outro tiro e morteirada, mas sem outros factos dignos de especial menção.

O comandante da companhia, capitão Sebastião Martins, então no Aeródromo Base n.º 7, em Tete, já conhecedor da tragédia, iria receber e tratar com toda a dignidade os restos mortais do Louro e abrir um inquérito sobre o acontecimento. A 35 anos de distância, e com os normais lapsos na memória que podem influenciar o relato, penso que a verdade não andará muito longe daquela que contei.

Em Outubro passado, o Fernando Dias telefona--me de Alferrarede, onde vive, e diz:

'– Pais, já sei onde está sepultado o Louro. Está em Monforte da Beira. Vamos lá.'

Telefonámos ao Sebastião Martins, que mora em Castelo Branco, e fomos visitar o António Louro à sua morada eterna, 35 anos depois da sua morte.

Descansa em paz, companheiro.

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