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Thomas Cook, o marceneiro inglês que nos deu o turismo

Empresa deixou esta semana milhares presos no destino de férias.
Fernanda Cachão 29 de Setembro de 2019 às 12:00
Thomas Cook
Thomas Cook FOTO: Direitos Reservados

A primeira viagem fundadora do turismo moderno levou num comboio fretado por   Thomas   Cook   à Midland Counties Railway Company meio milhar de pessoas de Leicester a Loughborough, para um encontro em defesa da abstinência de álcool. Cook fretou o comboio e instituiu-se como responsável pela assistência àqueles que consigo viajavam durante 17 quilómetros e, por isso, esta sua iniciativa ficou para sempre como a primeira excursão que se conhece ter sido publicitada. Aconteceu a 5 de julho de 1841.

Thomas   Cook   nasceu   a   22   de   novembro de 1808, numa altura em que   a   maioria   trabalhava   seis   dias por semana e se se deslocava mais de meia dúzia de léguas além da soleira da porta de casa teria de ser por motivos de doença ou de morte.   A   maior   parte   morria   sem ter saído da terra onde nascera, sem que tal fosse para lamentar. Thomas Cook, que pertencia a uma família de protestantes batistas, começou a trabalhar como ajudante de jardineiro aos dez anos, como a maioria dos   da   sua   idade,   para   ajudar   ao sustento da casa. Quatro anos depois foi aprendiz de um tio marceneiro, ofício que lhe traria sustento por vários anos mesmo quando aos 18, já missionário, viajava entre os pequenos   povoados   ingleses,   em trabalho de evangelização.

Homem do seu tempo, Cook considerava que o consumo de bebidas alcoólicas era a causa de boa parte dos males da época e, por isso, em 1833, juntou-se ao Movimento da Temperança, que apoiaria até ao final da vida - a causa pela qual levou aquele meio milhar de Leicester a Loughborough   e   das   deslocações posteriores que organizou. Não tardou que cobrasse o serviço na viagem de 1845 a Liverpool.

Uma nova era
Em 1855, no Palais de l’Industrie, junto aos Campos Elíseos, a Exposição Mundial de Paris juntou 34 países em 16 hectares e boa parte dos 5 162 330 de visitantes tiveram particular atenção com a zona dedicada aos avanços da indústria - 4,2 milhões visitaram-na.

Thomas Cook, que já organizava viagens entre as Ilhas Britânicas, animou-se com a perspetiva de atravessar o Canal da Mancha para assistir a um evento em que soprava a modernidade trazida pela Revolução Industrial. O êxito desta excursão foi tal que rapidamente passou a dedicar-se a organizar outras viagens, mais ambiciosas, à Itália, Suíça, Egito e Estados Unidos da América.

Cinco anos depois deixa de palmilhar terreno com os excursionistas, como guia,   para   se   dedicar   à   gestão   da empresa que, esta semana, dois séculos depois, entrou em bancarrota deixando mais de 20 mil no desemprego e obrigando ao maior resgate de pessoas organizado em tempo de paz pelo Reino Unido, para trazer para casa os turistas que tinham comprado pacotes de férias à agência de turismo.

No início da década de 60 do século XIX, Thomas Cook abriu escritório na emblemática Fleet Street, coração comercial de Londres e sede das redações de todos os jornais da época. Em 1872 organizou a primeira volta ao Mundo - em 222 dias, o grupo percorreu mais de 46 mil quilómetros - e um ano depois contratou barcos a vapor para levar   turistas   pelo   Nilo.  

São   dele também os primeiros sistemas de emissão de cheques-hotel, que permitiam aos viajantes pagar pelo alojamento e comida sem ter de utilizar dinheiro vivo.

Durante os últimos anos de vida - morreu em julho de 1892 - teve problemas de visão que o levaram a antecipar a entrada na empresa que fundara do seu único filho. Depois de ter sido primeiro sócio, Thomas Mason Cook ficaria à frente dos destinos da empresa que o pai fundara numa   altura   em   que   nem   sequer existia o direito inalienável a férias, que   surge   pela   primeira   vez   em França, em 1936.

O filho acaba por passar os destinos da empresa para as   mãos   da   terceira   geração,   pois morre prematuramente em 1899. O negócio fica na família até 1928, mas só   em   1972   passa a ser a Thomas Cook - em 2001 era um dos maiores grupos   económicos   de   lazer   do Mundo.

Esta semana, o comandante do  avião fretado pela Thomas Cook que viajava entre Cancún (México) e Manchester desfez-se num pranto perante os passageiros quando falou na bancarrota da empresa.

No vídeo, ironicamente partilhado na internet - apontada como um dos fatores para o fenecimento do modelo tradicional do negócio -, o piloto inglês recordou os milhões que tinham viajado com a Thomas Cook   e   manifestou-se   triste   pela certeza de que aquele voo em que todos seguiam de volta para Inglaterra, era o último da companhia.

O grupo atribuiu a sua situação difícil à instabilidade política em destinos onde opera (como a Turquia, por exemplo), à onda de calor que atingiu o Reino Unido – que desencorajou a realização de viagens para o exterior – e ao impacto do iminente Brexit nas reservas. Neste 2019 só vendeu 57 por cento das suas viagens de verão.

A dívida desde a fusão, em 2007, com a MyTravel e a emergência dos operadores   online   que   retiraram mercado ao tradicional pacote turístico estiveram na origem de prejuízos de cerca de 1500 milhões de euros relativos ao primeiro semestre fiscal.

O grupo garantiu um financiamento de 900 milhões: o seu maior acionista, a chinesa Fosun, com 18 por cento da empresa, entrava com 450 milhões e a banca e os obrigacionistas com o restante. Mas a reunião de emergência do último   domingo   acabou   por   ser   o golpe de misericórdia no moribundo. No site da empresa podia ler-se esta   semana: "Se   é   funcionário, credor   ou acionista da Thomas Cook, pode encontrar mais informações no link abaixo".

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