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TIMOR-LESTE: UM ANO DE LIBERDADE

A 20 de Maio de 2002 o povo de Timor-Leste adquiriu a independência, depois de décadas de violência e ocupação. Desde aí, a luta faz-se para combater a pobreza e o desemprego
11 de Maio de 2003 às 19:06
TIMOR-LESTE: UM ANO DE LIBERDADE
TIMOR-LESTE: UM ANO DE LIBERDADE FOTO: Arquivo CM
A primeira nação a tornar-se independente neste século está prestes a comemorar o primeiro aniversário sobre essa data histórica. Para que esse dia chegasse contribuíram o sacrifício e a luta de várias gerações de timorenses, bem como a solidariedade internacional que, sob a coordenação da Organização das Nações Unidas (ONU), ajudou a pôr fim à ocupação indonésia.
Agora, como há um ano atrás, continuam actuais as palavras então proferidas por Kofi Annan, segundo as quais a independência não é um fim em si mesma, exigindo um esforço constante na luta contra a pobreza, a doença e as desigualdades.
Acolhido como membro da ONU em Setembro de 2002, o novo país continua a depender do auxílio internacional.
Com cerca de 90% da população a sobreviver à custa de uma agricultura de subsistência, apresenta um rendimento anual per capita que não excede os 431 dólares (o mesmo em euros), sendo que uma em cada três famílias vive abaixo do limiar da pobreza. Nas cidades, os poucos empregos são assegurados pelas organizações ligadas à ONU.
A situação de desemprego de grande parte da juventude, aliada ao descontentamento de antigos combatentes é a causa apontada para a instabilidade social que, primeiro em Baucau, depois em Díli, rebentou em violência nas ruas. Na capital, os motins de 4 de Dezembro de 2002 assumiram contornos de gravidade, quando manifestantes incendiaram instalações do governo, casas particulares (entre as quais a do primeiro-ministro, Mari Alkatiri) e estabelecimentos comerciais. Nem o presidente Xanana Gusmão pôs fim aos distúrbios, que só viriam a terminar com as forças de manutenção de paz da ONU.
Para lá das dificuldades actuais, em Timor, a esperança por uma vida melhor não morre, e tem mesmo data marcada. A exploração de gás natural e de petróleo, nos mares a sul da ilha, a partir de 2006, irá dotar o país dos meios financeiros necessários para a promoção do desenvolvimento e do bem-estar da população.
FINALMENTE JUSTIÇA?
Uma das questões mais polémicas em torno de Timor-Leste tem sido a do julgamento dos responsáveis pelos massacres. Com o objectivo de não agravar os ressentimentos do poderoso vizinho indonésio, a ideia de constituir um tribunal internacional especial foi abandonada, entregando-se essa responsabilidade aos tribunais indonésios.
Depois de uma actuação controversa – caracterizada por absolvições sistemáticas ou condenações a penas muito ligeiras –, algo parece ter mudado. Em Março deste ano, o tribunal de Jacarta condenou o antigo comandante militar em Timor-Leste, general Noer Muis, a cinco anos de prisão, por crimes contra a humanidade.
Alguma da instabilidade política deste primeiro ano da vida de Timor-Leste independente, encontra explicação nas diferenças entre o presidente da República e o primeiro-ministro.
José Alexandre (Xanana) Gusmão, o presidente que, na corrida eleitoral, prescindiu do apoio do seu antigo partido (a Fretilin), tem a aura romântica do guerrilheiro-poeta. Personalidade carismática, sente-se bem no meio do povo, de quem pretende ser “os olhos, os ouvidos e a boca”. Politicamente, defende que era preferível um governo de unidade nacional, em vez do governo assente no partido maioritariamente votado para a Assembleia – a Fretilin. Xanana entende ainda que a reconciliação nacional e o regresso dos refugiados só serão possíveis com uma amnistia, contrariando a vontade da Fretilin, que pretende o julgamento de todos os implicados na violência anterior à independência.
Apesar das suas declarações de que preferia ser agricultor ou fotógrafo a ser presidente, Xanana Gusmão recusa-se a ser uma figura meramente representativa na hierarquia do Estado.
Cerebral e esquivo, o primeiro-ministro Mari Alkatiri, um dos fundadores da Fretilin, viveu no exílio até 1999, tendo sido professor em Moçambique. Com origens familiares no Iémen, Alkatiri é um muçulmano devoto num país em que a religião católica é professada pela larga maioria da população. Ganhou fama de negociador implacável quando, como ministro da Economia da administração provisória, liderou as conversações com a Austrália, relativas aos direitos sobre o petróleo no Mar de Timor. Quando Xanana decidiu candidatar-se à presidência como independente, Alkatiri considerou isso como uma ‘traição’ à Fretilin e não resistiu a declarar aos repórteres que no dia das eleições a sua preferência seria ir à praia! A necessidade de preservar a imagem de unidade nacional levou-o, no entanto, a felicitar publicamente Xanana pela vitória eleitoral “... do fundo do coração, acreditem ou não”.
RETROSPECTIVA
1975
Agosto – Em plena guerra civil, a administração portuguesa retira-se de Timor, pondo fim a uma presença de mais de quatro séculos.
Novembro – A Fretilin (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) proclama, unilateralmente a independência de Timor-Leste.
Dezembro – Tem início a ocupação indonésia, que só terminará em 1999, com um saldo de 200 mil mortos, cerca de um quarto da população timorense.
1999
Agosto – Num referendo organizado pela ONU, 78% dos votantes opta pela independência. Com a cumplicidade indonésia, as milícias integracionistas massacram mais de 1000 pessoas, destroem povoações e infra-estruturas, obrigando à intervenção de tropas da ONU.
Outubro – A Administração Transitória das Nações Unidas em Timor-Leste (UNTAET) toma posse e começa a organizar o novo governo do território.
2001
Nas eleições para a Assembleia Constituinte a Fretilin conquista 55 dos 88 lugares.
2002
Fevereiro – É aprovado o projecto de Constituição.
Abril – Xanana Gusmão vence as eleições presidenciais.
Maio – Ao primeiro minuto do dia 20 de Maio, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, proclama a independência de Timor-Leste.
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