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“Tive 98 acções de fogo, quase desarmado”

A figura magra não o impediu de ser dado como apto para o serviço militar. Regressou com uma Cruz de Guerra e o título de herói nacional.
7 de Fevereiro de 2010 às 00:00
Com os colegas, em 1965
Com os colegas, em 1965 FOTO: Direitos reservados

Sou apurado para todo o serviço militar com 43,5 quilos de peso, que é o que ainda hoje tenho. Naquele tempo apuravam tudo. Mandam-me para o Hospital da Estrela, fazem-me exames, dão-me uma injecção que me dava vómitos, ligam-me a eléctricos e o médico, que era um major, disse-me: "Sim, senhor, tens aqui qualquer coisa no parietal direito mas nós precisamos é de malucos lá em África". E assim sou mobilizado, em Agosto de 1963.

Vou para o curso de sargentos milicianos em Tavira, tinha uma nota que não me dava mobilização e venho dar instrução a soldados para Elvas. Estavam lá mais rapazes, milicianos tal como eu, e naquele tempo o Alentejo era de facto muito pobre e os milicianos, como tinham estudos, eram assediados pelas meninas de Elvas. Os da terra não levavam aquilo à paciência. Eu era o único que não tinha lá namorada. Estava para casar. Um dia, já em 1965, estou de ronda à cidade, faltavam--me seis meses para acabar o serviço militar, quando um indivíduo passa por mim e diz "olha mais um filha da p..." Eu, como autoridade que ronda a cidade, dei-lhe voz de prisão. O tipo reage e dá-me um soco na cara. Eu levanto a bota da tropa, que é um bocadinho pesada, e dei-lhe um pontapé nas ‘jóias de família’. Onde eu me fui meter. Era filho da amante do meu comandante. Divisas abaixo, fui mobilizado para Angola, com três meses de casado.

Chego a Angola numa coisa que se chamava um navio mas não o era, era um cesto entupido. À saída da barra enjoei. Fui a chá, deitado, até Luanda. Uma vez lá, mandam-me para a companhia 1111, que não era mais do que uma companhia criada especificamente em Luanda para nós, os que lá estávamos, irmos substituir os que morriam. Andei por Luanda cerca de um mês até ser mobilizado para o sítio mais quente de Angola – o eixo Zala- Nambuangongo. Fui para uma das companhias na zona de Zala, a 15 quilómetros, a que deram o pomposo nome de Vila Pimpa. Não era vila nenhuma, era apenas um acampamento no meio do mato.

A minha primeira saída aconteceu pouco tempo depois de ter chegado ao batalhão, embora este já lá estivesse há cerca de três, quatro meses. Como já tinham sofrido vários ataques, alertaram--me, logo à saída de Zala, que havia a possibilidade de "haver porrada". Mas não houve nada. "Se não houve aqui, há ali no morro do Albino", disseram. E não havia nada. "Se não houver aqui é na camioneta vermelha". Na altura, pensei: "estão a gozar comigo. Afinal, como o Salazar diz, são uma meia dúzia de maltrapilhas e não há guerra nenhuma em Angola". E eles dizem: "se não foi para trás, da mata Madureira nós não passamos", já a caminho de Nambuangongo. E eu, pensando que me estavam a gozar, levantei-me do jipão, com dois punhetos de balas na mão (fizeram de mim mecânico da MG 42 que eu nunca tinha visto) e digo: "oh, sois filhos da p..., hoje não há guerra". E mal acabo de dizer isto, um punheto voou-me com uma rajada de metralhadora. Não me tocou. Mas, até hoje, nunca mais o vi. Vou parar debaixo do jipão sem saber como, tal não era a adrenalina, com o camuflado encharcado em suor. A partir de então, tive 98 acções de fogo, quase desarmado. Podíamos levar os punhetos de munições mas não podia levar a G3 para a mata. Arriscávamos muito, com granadas e pouco mais.

Em Junho de 1966 sou ferido em combate. Os tipos atingem-se numa perna com uma mina. O que me salvou foi o facto de em Angola os terrenos serem muito barrentos. Com a chuva que tinha caído cinco minutos antes de eu ali passar, a mina que estava perfeitamente enterrada moveu-se. Quando explode, explode para o lado esquerdo e eu estou do direito. Apanho apenas com estilhaços numa perna e nos braços. Vejo-me ferido e não penso duas vezes. Vou para ali adentro, a disparar com a G3 que levava, e apanho um ‘turra’ (terrorista) à mão. Se tivesse pensado duas vezes, não me tinha metido na boca do lobo. O ‘turra’ já estava ferido, provavelmente por uma mina, e não ofereceu resistência. Trago-o e sou condecorado herói nacional. Nesse mesmo dia fui voluntário por imposição do meu capitão, fui ferido em combate, apanhei uma Cruz de Guerra e fui parar à enfermaria do aquartelamento. Tudo isto em apenas seis horas.

Ferido, fico em Nambuangongo, já não volto para o meu batalhão. Foram dois dias debaixo de fogo para andar quarenta quilómetros. Com flagelações. Já não tínhamos rações de combate, já não tínhamos nada. E o que eu tinha era fome. 

SOFRE DE STRESS DE GUERRA

José Rafael de Almeida é natural da freguesia da Graça, em Lisboa. Depois da comissão viveu em Luanda, onde foi escriturário. Mais tarde foi convidado a fundar a Teal Record Company. Em 1975 parte para a Venezuela mas regressa a Portugal, onde vem a desempenhar o cargo de chefe de vendas da fábrica Stephens, da Marinha Grande. Foi chefe de compras para uma cadeia de supermercados mas em 1991 ficou desempregado. Hoje é reformado, recebe 370 euros por ter prestado serviço militar em Angola e sofre de 35% de incapacidade e stress de guerra. 

PERFIL

Nome: José Rafael de Almeida

Comissões: Angola (1965/1967)

Força: Batalhão de Cavalaria 1851

Actualidade: Tem 67 anos e vive em Lisboa

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