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“Tivemos 9 mortos em 9 meses, em ataques e acidentes”

Estive 28 meses em Moçambique e foi lá que passei a minha mocidade. São tempos que hoje recordo com mágoa...
Manuela Guerreiro 17 de Novembro de 2019 às 14:00
FOTO: Direitos Reservados

A 15 de maio de 1965 embarquei no navio ‘Niassa’ para Moçambique. Estive lá 28 meses e foi lá que passei a a minha mocidade. A viagem demorou cerca de mês e meio. Fizemos paragens em S. Tomé, Príncipe e Bissau para deixarmos outros tropas. Depois passámos dois dias em Luanda para abastecer o barco. Seguimos para a capital, Lourenço Marques (hoje Maputo), e desembarcámos em Nacala (cidade portuária na província de Nampula).

Já em terra, seguimos, em coluna militar, para Mueda, onde chegámos já de noite. Apesar de tudo, naquele momento, estávamos bem.

No dia seguinte, depois de tomarmos o café, alguns colegas tiraram fotografias à paisagem. Era bonita, de facto, mas algumas zonas tinham sido armadilhadas pelas tropas portuguesas. Nós não sabíamos e o pior aconteceu. Um dos nossos soldados pisou uma mina e morreu ali à nossa frente. Foi a primeira baixa a que assisti e ficámos muito desmoralizados. Só depois avisaram que a área tinha sido armadilhada pelos nossos.

Prosseguimos viagem e seguimos, em coluna militar, com destino a Miteda. Um trajeto cheio de obstáculos, com grandes buracos, tapados com folhas de palmeira, e minas. Aquilo estava pensado para os carros caírem lá dentro e sermos
atacados.

Instalámo-nos em Miteda e abrimos buracos à volta do acampamento para dormir. Eram os nossos quartos: dois colchões, três soldados. Integrava a Companhia de Caçadores 802. Éramos cerca de 130, entre soldados e oficiais.

Estivemos nove meses em Miteda. Vestidos e calçados, sem tomar banho. Não tínhamos água e precisávamos de abastecer em Mueda, que fica a mais de 20 quilómetros. Era muito longe. Cerca de dez soldados iam buscar água três a quatro vezes por semana. Mas sempre que íamos, éramos atacados pelo caminho, com emboscadas da Frelimo.

Atacados várias vezes
Fomos atacados muitas vezes. O mais difícil foi na noite de 14 para 15 de agosto de 1965. Como éramos atacados de dia, começámos a viajar de noite. E acabou por acontecer. Um dos maiores ataques a que assisti naqueles 28 meses de comissão. Tantas granadas e tiros. Tantos gritos e feridos. Lembro-me que um dos militares, o soldado Covilhã, seguia ao meu lado e ficou gravemente ferido. Em nove meses, tivemos nove baixas, entre ataques da Frelimo e acidentes.

Felizmente, nunca fui ferido. Era soldado-atirador e assisti a muitos ataques, mas fiquei bem. E, que eu saiba, não matei ninguém. Fazíamos fogo, mas não íamos ver o que tinha acontecido porque a prioridade era socorrer os nossos homens, os nossos feridos.

Miteda ficou para trás e seguimos para Montepuez. Era uma zona mais pacífica, muito mais calma, com a companhia a fazer patrulhamento às quintas dos brancos. Foi uma viagem de um dia e tal, novamente em coluna militar. Estivemos lá mais nove meses. Fomos terminar o tempo em Vila Coutinho, onde estivemos entre oito e nove meses, até ao embarque, novamente no navio ‘Niassa’, para Lisboa. Chegámos a 3 de outubro de 1967. Tinha à espera a minha namorada, família e amigos.

São tempos que hoje recordo com mágoa. Aconteceram tantas coisas. Passei lá a minha mocidade. Apesar de tudo éramos como uma família. Mas segui com a minha vida. Trabalhei 32 anos na Siderurgia Nacional e estou
reformado.

Participei agora num convívio militar pela primeira vez e foi uma grande alegria rever alguns dos soldados. Se alguns dos meus colegas lerem isto, quero dar-lhes um grande abraço e desejar-lhes votos de muita saúde. Aos que infelizmente já partiram, que descansem em paz.

Depoimento de Venâncio Costa

Bissau Niassa Luanda Lourenço Marques Moçambique S. Tomé Príncipe Maputo Nacala Nampula Miteda
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