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“Tivemos de arranjar panos ensopados”

Arrancámos às cinco da manhã com três mortos, cobertos com panos de tenda. levámos cinco ou seis horas para voltar e estavam 50 graus
21 de Abril de 2013 às 15:00
Eduardo Santos, A minha guerra, angola
Eduardo Santos, A minha guerra, angola

Tinha 16 anos quando vi um polícia à porta da Sociedade de Geografia de Lisboa. Quis saber o que se passava, e ele deixou-me entrar numa exposição com fotos dos bárbaros massacres no Norte de Angola. Aquela visão nunca mais me saiu da mente, mas nem contei o que vi aos meus amigos. Mais tarde, depois de conseguir a carta de condução à segunda – na primeira vez não estudei o Código da Estrada -, fui incorporado nas Caldas da Rainha a 10 de abril de 1967.

Tive três meses de recruta e, como fazia ginástica, obtive bons resultados. Falaram-me de um pelotão de reconhecimento que estava em Tavira. Perguntei o que era e disseram me só que era tramado. Fui para lá em junho, com muito calor, após 12 horas de comboio. Era o Centro de Instrução de Sargentos Milicianos de Infantaria, mas chamavam-lhe Conjunto de Indivíduos Sacrificados e Martirizados Indecentemente. Fiz uma prova de sobrevivência em que nos largavam à noite na serra do Caldeirão com pão, água e a G3 e tínhamos de estar num monte às 11h00.  À espera estava um sargento miliciano, que exigiu que cantássemos o hino e marchássemos de volta, sem beber água. Só no quartel fomos recompensados com bifes com batatas.

Para a prova de agressividade, levaram-me para um ringue improvisado e disseram-me, a mim e a outro rapaz, que tínhamos um minuto para nos agredirmos. Queria ser o primeiro do curso, pois não iria para o Ultramar, e bati-lhe com toda a força. Consegui a classificação e fiquei a dar formação, mas um oficial viu-me na praia quando devia estar a fazer rondas. Apesar de ter autorização de um aspirante, ele deu o dito pelo não dito e fui para Angola.

Emboscada em Muié. 

Embarquei no ‘Vera Cruz’ a 11 de janeiro de 1969 e cheguei a Luanda às seis da manhã, com um nascer do Sol fantástico. No Grafanil, deram-me uma G3 de 1964, com quatro carregadores e um quinto na arma. Passámos pelo Luso e fomos para Cangamba, no Leste. Havia muitas emboscadas e os monomotores largavam napalm no local onde estavam os guerrilheiros.

O momento mais grave ocorreu numa saída a Muié, onde estava a companhia 2457. Tinha havido uma emboscada quase à chegada do aquartelamento, e encontrei três indivíduos que já estavam com uma cor esverdeada. Arrancámos às cinco da manhã com os mortos, cobertos com panos de tenda. Levámos cinco ou seis horas para voltar e, como estavam 50 graus, tivemos de arranjar panos ensopados, pois os cadáveres estavam a entrar em decomposição. Noutra ocasião, caiu um Cessna com quatro homens a bordo. Morreram todos.

Partimos para o Lobito em 1970. Era mais recatado, pois tratava-se de uma cidade junto ao mar, mas fazíamos patrulhas para assegurar a segurança dos fazendeiros. Ainda recebi um louvor do comandante do batalhão, pois auxiliei o dono de uma loja que estava a ser assaltada. Dominei os dois intrusos e depois fiquei à espera da PSP.

Passados três meses e meio, voltámos para o mato, em Chitembo, mas a vida passava-se com maior normalidade, com pequenas patrulhas e ação psicológica nas aldeias, tentando minorar o mal que por lá grassava, com muitas gangrenas. Assim foi até janeiro de 1971, quando fomos rendidos

Comissão: 

Angola, de 1969 a 1971

Força:

Pelotão de Reconhecimento e Informações do Batalhão 2858

Atualidade:

Aposentado. Tem 67 anos, é divorciado e tem dois filhos  e uma neta.

Eduardo Santos A minha guerra angola
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