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Monsenhor Luciano Guerra: “Tivemos de esconder o ouro do Santuário”

Levava um ano como reitor do Santuário de Fátima quando se deu o 25 de Abril. Temeu a nacionalização do Slocal de culto
Secundino Cunha 23 de Abril de 2017 às 15:00
Monsenhor Luciano Guerra foi reitor do Santuário de Fátima entre 1973 e 2008
Monsenhor Luciano Guerra foi reitor do Santuário de Fátima entre 1973 e 2008 FOTO: Nuno Fernandes Veiga
Luciano Guerra foi quem durante mais tempo liderou o Santuário de Fátima. Recebeu por três vezes o Papa João Paulo II, construiu a Igreja da Santíssima Trindade e enfrentou com serenidade os tempos quentes do pós-25 de Abril.

Como é que o dia da revolução foi vivido aqui no Santuário?
Estavam cá os bispos reunidos em Assembleia Plenária, quando, ao pequeno-almoço, ouvi-os dizer que tinha acontecido qualquer coisa em Lisboa. Foi assim que soube da revolução. Os dias foram passando e, a 11 de maio, veio falar comigo o padre José Maria de Braula Reis, em nome do Movimento das Forças Armadas (MFA).

O que é que ele queria?
Queria que os microfones do Santuário fossem guardados por elementos do MFA durante a peregrinação. Tentou convencer-me que era melhor, porque podia aparecer algum reacionário que causasse perturbação. Na verdade estavam com medo que, aqui em Fátima, nascesse uma espécie de contrarrevolução. E eu disse-lhe para estar descansado, que ninguém mexeria nos microfones. De facto, a peregrinação decorreu com toda a normalidade.

E nada mais se passou?
Nada de muito grave. Em outubro, próximo do dia 13, vieram-me dizer que o descampado, onde mais tarde construímos o Centro Pastoral Paulo VI, estava todo ocupado de militares: mais do que um batalhão, com carros de apoio e tudo. Eu fui lá. Falei com o comandante, um coronel que era cá da zona, e que me disse que era católico e que não concordava com certas coisas, mas que tinha de cumprir ordens. Fiz-lhe notar que aquele aparato ficava muito mal ali e perguntei-lhe se não poderia recuar as tropas para lá da outra estrada! Ele pensou um pouco e resolveu que sim senhor, que não havia problema. E, em pouco tempo, recuou os homens para lá da avenida João XXIII.

Considera que esteve em curso um cerco ao Santuário?
Não sei se foi um cerco, mas penso que houve pelo menos a intenção de mostrar que, se quisesse, o Exército tomava conta disto. Penso eu. Até porque já tinha havido outros sinais… Faziam operações stop suspeitando que houvesse armas escondidas nos carros, entre outras ações.

Como por exemplo?
Logo nos dias que se seguiram ao 25 de Abril, pessoas ligadas à LUAR escreveram com tinta preta, em todos os candeeiros do Santuário, a palavra ‘LUAR’. Não conseguimos limpar tudo antes da peregrinação, mas depois lá limpámos, com dificuldade. Mandei-lhes a conta, dizendo que se tratava de uma propriedade privada, mas nunca obtive resposta.

Esses sinais levaram-no a tomar alguma medida para além do habitual?
Ora… eu nunca tomei nota de nada, não tive noção de que podia estar a escrever-se um capítulo importante da História de Portugal. Mas lembro-me de, em certa altura, ter tido conhecimento de que Otelo Saraiva de Carvalho teria falado, numa reunião do COPCON, na possibilidade de se nacionalizar os tesouros das catedrais e que o objetivo seria chegar ao ouro de Fátima. De facto, naquela altura, o Santuário tinha bastante ouro, muitos quilos de ouro (usados mais tarde para pagar boa parte da construção da Igreja da Santíssima Trindade). Pedimos uma audiência a Otelo, mas não conseguimos falar com ele. Ficámos receosos e tivemos de esconder o ouro do Santuário.

Como levaram a cabo essa tarefa?
Lembrei-me de outras épocas, como as Invasões Francesas, em que sacerdotes esconderam os cálices e vasos sagrados das suas igrejas para evitar a pilhagem, e então resolvi enterrar o ouro. Coloquei-o em caixas, em várias caixas, e, com a ajuda de uma pessoa de confiança, enterrei-as. E lá se mantiveram até à altura em que considerámos que já não havia qualquer ameaça de nacionalização ou coisa do género. Aliás, diga-se, essa nacionalização nunca ocorreu, ficou apenas no domínio das supostas intenções.

Depois, toca a desenterrar as caixas…
Pois… Aconteceu uma história curiosa, que nem sei se deve contar-se. Quando fomos desenterrar as caixas do ouro, não me aparecia uma caixa. Fiquei preocupadíssimo, como é natural, e fiz um plano de escavações em dois ou três lugares possíveis. Tive de ir tratar de um assunto urgente à Câmara e deixei dois homens a escavar, sem lhes dizer porquê. Quando regressei encontrei-os sentados a contemplar o ouro, já que a caixa tinha-se aberto com uma pancada da picareta. Falei com eles e combinámos nunca se falar disto a ninguém, e não se falou. Aliás, é a primeira vez que falo disto e os homens que me acompanhavam, que já não estão entre nós, respeitaram exemplarmente o acordo.

Quer dizer que, apesar dos medos, o pós-25 de Abril foi pacífico para o Santuário?
Uma vez disseram-me que determinado partido pretendia ocupar o hospital do Santuário. Chamei o cabecilha e disse-lhe, em resumo: "Vocês ocupam isto e, na peregrinação do próximo dia 13, eu vou aos microfones e anuncio que não tenho onde meter os doentes porque vocês ocuparam o albergue. Se depois tiverem de saltar pela janela, isso é convosco". Foi então que combinámos que um médico da Marinha Grande, conhecido das duas partes, visitasse várias salas, mas foi sempre dizendo que não tinham condições para o que eles pretendiam. Dessa forma, evitou-se a ocupação.

Depois houve o problema dos designados retornados…
Sim, vieram para cá várias centenas de portugueses que estavam emigrados nas nossas colónias. Hoje antigas colónias. Foram acolhidos da forma possível, ocuparam praticamente todos os hotéis da cidade e mantiveram-se por cá o tempo que necessitaram. A maioria esteve cá alguns meses e creio que ninguém precisou de mais de dois anos até organizar a vida.

Foi nomeado reitor do Santuário em 1973, um ano antes da revolução. Quando cá chegou, como se encontrava o recinto, nomeadamente a Capelinha das Aparições?
Era a que lá está, embora com um alpendre pequeno, em telha e rústico, digamos. As pessoas cumpriam as suas promessas muito junto à Imagem de Nossa Senhora, de forma quase amontoada e sem qualquer organização. Uns faziam promessas em pé, outros de joelhos e outros ainda de rastos, a rastejar como os militares, o que tinha ainda muito a ver com a guerra do Ultramar. Nós tentámos criar alguma organização, embora de forma lenta e sem criar roturas nem proibições drásticas. Por exemplo, nunca dissemos nada acerca das promessas de joelhos, mas - não proibindo - desaconselhámos a promessa de rastos. A promessa de joelhos pode cumprir-se, em nosso entender, com bastante dignidade, mas a promessa de rastos parece-nos algo exagerada. Depois, optámos por edificar um novo alpendre. Consultámos os fiéis e a maioria optou pelo projeto do alpendre que agora lá se encontra. Será já o quinto na História de Fátima. Preocupou-nos também a criação de condições para os fiéis e as primeiríssimas construções foram várias baterias de WC à volta do recinto.

As alterações são sempre alvo de contestação…
Claro, e por vezes forte. Quando, por meados da década de 70 do século passado, optámos por deixar de dar a comunhão fora da missa, fomos alvo de críticas enormes. No entanto, estávamos seguros de que essa era a melhor decisão, até para que as pessoas fossem à missa, mas sobretudo porque, do ponto de vista litúrgico, a comunhão é parte integrante da Eucaristia. Mas, graças a Deus e a Nossa Senhora, a contestação deu rapidamente lugar a uma compreensão alargada.

Quando o Papa João Paulo II sofreu o atentado, a 13 de maio de 1981, fez alguma associação às Aparições de Fátima?
Olhe, telefonou-me um jornalista a pedir um comentário e eu disse-lhe que não sabia de nada. Mas disse-lhe que se há vida que esteja nas mãos de Deus é a do Papa. E não disse mais nada, porque também não sabia o que realmente tinha acontecido. Naquela altura não fiz associação nenhuma. Quem a fez, como se sabe, foi o próprio Papa, que teve um rebate de consciência. Quando reparou que era o 13 de maio, sentiu, disse-o ele, algo que pode classificar-se como uma advertência divina acerca de Fátima. Como ele participou no Concílio Vaticano II, terá certamente pensado na proposta mariana que muitos bispos fizeram e que acabou por não ser aprovada. Não sei. Eu só depois me apercebi dessa coincidência do atentado ter ocorrido no dia 13.

João Paulo II manteve grande afetividade com Fátima, traduzida pelas três visitas e pelas ofertas. Qual foi, para si, a mais marcante?
Para mim, o momento mais emocionante ocorreu em 1984, quando levámos a imagem da capelinha a Roma, para a consagração do Mundo ao Imaculado Coração de Maria. Primeiro foi o facto de ter assistido ao Papa a pedir desculpa a Nossa Senhora por a ter feito a ir Roma, em vez de ser ele a vir a Fátima! Foi um momento espantoso. Mas o mais importante foi, no dia seguinte, na hora da despedida. Estava eu, o senhor bispo, D. Alberto Cosme do Amaral, e o padre Kondor, e o Papa deu um sinal ao secretário para lhe trazer qualquer coisa. Era um pequeno estojo de ourives, que ele entregou ao bispo, dizendo que era para Nossa Senhora. Quando o bispo a abriu, emocionou-se: era a bala com que o Papa tinha sido atingido no atentado. De todas as ofertas do Papa ao Santuário, esta foi, de longe, a mais simbólica.

As vindas de João Paulo II a Fátima proporcionaram um grande aumento de peregrinos. Foi isso que levou o Santuário a optar por construir uma igreja maior?
A ideia de construir uma igreja maior vinha desde meados da década de 70. Na Basílica do Rosário cabem, bem entaladas, 2400 pessoas. Para os domingos de inverno, é manifestamente insuficiente. Chegámos a pensar numa igreja com 34 mil lugares, mas era algo impraticável. Estudámos possibilidades, ouvimos os peregrinos, analisámos ideias e estatísticas, até chegarmos ao projeto da Igreja da Santíssima Trindade. Tem cerca de nove mil lugares, dá para grandes celebrações, mas não permite que se elimine grande parte das celebrações ao ar livre, o que, em meu entender, é positivo, pois põe em relevo a multidão, que é específica de Fátima.

Foi a sua grande obra?
A minha grande obra foi pastoral. Teria falhado se assim não fosse. Mas se falarmos do ponto de vista material, do edificado, é como diz.

Temeu, alguma vez, que o Santuário tivesse dificuldade em pagar a Basílica da Santíssima Trindade?
Não. Sempre fui muito de contas. Quando avancei para a empreitada tinha uma certeza moral de que a conseguiríamos pagar. E assim foi. Custou 80 milhões de euros e está paga.

Daqui a 50 anos, Fátima existirá como local de peregrinação?
Não tenho qualquer dúvida. Porque este fenómeno foi autêntico e eu creio que divino. As coisas autênticas perduram. Fátima é um lugar de sentimentos fortes. A imagem de Nossa Senhora desperta o sentimento da maternidade universal. Na procissão do Adeus emociono-me, ainda hoje, e eu sou muito racional e raciocinante. Fátima é um céu, é um espaço de oração e de paz. Oxalá mereça o título ‘Cidade da Paz.’
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