Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
6

"Tivemos que almoçar com quem nos atacou"

Em 1975 começámos a entregar os quartéis e o material ao inimigo. Tinha estado no mato, mas foi pior em Luanda.
17 de Dezembro de 2017 às 15:00
'Tivemos que almoçar com quem nos atacou'
'Tivemos que almoçar com quem nos atacou'

A minha Companhia, formada por 135 homens, rumou a Angola num avião militar. O voo demorou 14 horas. Fomos para Grafanil e seguimos depois de comboio até Teixeira de Sousa. Foram dois dias e duas noites, centenas de quilómetros, com medo que a composição fosse atacada. De Teixeira de Sousa rumámos em coluna militar até Cazombo, no Leste de Angola e depois para Caianda para substituir uma companhia, na fronteira com a Zâmbia, uma zona de infiltração da FNLA. Era o quadrado da morte. Estávamos a 650 quilómetros de Moçambique, 300 de Cazombo e a três mil de Luanda.

No território, a perder de vista com mato muito alto, víamos quando os turras se aproximavam pelo mexer da vegetação. Às vezes queimávamos tudo para termos um melhor campo de visão. Noutras ocasiões fazíamos disparos de morteiros a avisá-los da nossa presença. Eu era furriel miliciano, mas em Angola desempenhei as funções de 2º sargento. Catorze dias depois de termos chegado, ainda mal conhecíamos o território, fizemos a primeira saída para o mato.

Sofremos logo uma emboscada, a 40 quilómetros do aquartelamento. Houve tiroteio, felizmente não houve vítimas. Na aflição, abandonámos as Unimog e as Berlier e os terroristas ainda conseguiram levar espingardas G3 e rádios Racal. Depois disto optámos por uma abordagem diferente. Passámos a fazer por nos aproximarmos da população. Fornecíamos-lhe alimentos e água potável e foi remédio santo. Nunca mais tivemos problemas quando saíamos para o mato.

A SAÍDA DE ANGOLA 
Após um ano, soubemos da futura independência de Angola e tivemos de promover um encontro com um grupo de guerrilheiros, chefiado pelo temível ‘Tigre’, comandante da guerrilha do Leste, com quem teríamos de negociar a cedência das nossas instalações. Eles chegaram ao aquartelamento armados até aos dentes mas lá se deixaram convencer a depositar o material e a juntarem-se à mesa connosco para um almoço.

Foi preciso cabeça fria e sentido de autocontrolo. Disseram-nos que tinha sido aquele grupo a emboscar-nos quando saímos a primeira vez para o mato. A revolta entre os militares foi enorme e se não fosse a intervenção do comandante da companhia podia ter acontecido uma tragédia. Só pensavam em carregar os canhões e os morteiros e dar cabo deles.

Passadas umas semanas, deixámos o aquartelamento. Carregámos o material de guerra, mas deixámos ficar para trás muita coisa. A população pediu-nos, por exemplo, as camaratas.

Regressámos ao aquartelamento do batalhão, em Cazombo. A partir daí começamos a desativar os aquartelamentos: no Luso, em Henrique Carvalho, em Salazar, Nova Lisboa. Terras maravilhosas das quais tenho saudades.

Chegámos a Luanda com uma coluna de 200 a 300 viaturas, carregadas de material militar, depois distribuído no Grafanil ao MPLA. Lembro-me de ter ficado aborrecido por ter andado a fazer os inventários do material para nada, pois foi tudo levado sem qualquer ordem.

Em Luanda estávamos no RI21, fazíamos patrulhamentos integrados com os guerrilheiros. Um dia houve um problema, em Vila Alice, onde havia confrontos entre forças rivais. Registaram-se tiroteios e a população portuguesa começou a fugir. A nossa tropa teve de intervir para retirar os portugueses e Vila Alice ficou quase destruída. Foram mais difíceis os meses finais em Luanda do que o tempo que passámos no mato. A companhia regressou a bordo do ‘Niassa’, mas eu fui mobilizado para os inventários do material de guerra. Voltei mais tarde, após muita confusão e perigo, num DC10, da Swiss Air, que transportava retornados. 

Nome João Simões

Comissão Angola - 1974/1975

Força Companhia de Caçadores 5044

+ Info Depoimento originalmente publicado a 10 de janeiro de 2010    

A Minha Guerra Angola Guerra do Ultramar Ex-combatente FNLA
Ver comentários