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Correio da Manhã

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TODAS AS MANCHAS

O fuelóleo que mancha a costa da Galiza é um dos mais graves desastres ecológicos da Humanidade. Mas a História recente está inundada de marés negras causadaspor petroleiros sem bandeira.
19 de Dezembro de 2002 às 14:09
Os oceanos estão a ficar enegrecidos. O desastre do “Prestige” é só a gota de óleo n0 ‘mar’ de poluição causada por navios sem bandeira que desde os anos 60 têm matado a fauna e a flora marinhas e alterado o ecossistema no planeta.

Os danos ecológicos provocados em Novembro, na costa da Galiza, são ainda incalculáveis mas estima-se que este seja um dos piores desastres envolvendo petroleiros. “O fuelóleo derramado pelo ‘Prestige’ ao largo da costa da Galiza poderia encher 250 piscinas olímpicas”, garante a revista “IstoÉ”. E “se todas as 77 mil toneladas vazarem para o Oceano Atlântico, os efeitos para o meio ambiente poderão ser mais graves do que os do Exxon Valdez”, declarou Christopher Hails, um dos responsáveis do “WWF”, uma das mais importantes organizações de defesa da natureza.

Noite negra no Alasca

É preciso recuar 13 anos para recordar o caso do petroleiro pertencente a uma das cinco maiores empresas dos EUA, a Exxon Valdez. A gigante embarcação com 220 mil toneladas de crude a bordo, encalhava num gigantesco icebergue de 10 quilómetros de comprimento, no estreito Prince William, poucos tempo depois de desembarcar do oleoduto no Alasca. Passavam poucos minutos da meia-noite de 24 de Março e a “pequena Suíça do Alasca”, um local procurado por baleias, salmões e pássaros marítimos na Primavera, era manchada por 40 mil toneladas de óleo, que acabou por se estender a mais de 70 quilómetros.

De acordo com estimativas, 250 mil aves marinhas, três mil lontras, 22 baleias e milhões de salmões morreram. Ainda hoje, a recuperação da fauna não foi total. A multinacional foi condenada a pagar cerca de 5 mil milhões de dólares em indemnizações. A factura paga pela humanidade tem sido alta desde o primeiro acidente envolvendo petroleiros, registado a 18 de Março de 1967. Nesse dia, o navio liberiano “Torrey Canyon” derramou 123 toneladas de petróleo, depois de ter encalhado em frente à costa britânica.

Três anos passaram-se e um novo crime foi perpetrado contra o ecossistema marinho. Novamente, por petroleiros com bandeira liberiana. O “Texanita” e o “Oswego” chocaram entre si, lançando 100 mil toneladas de petróleo na costa da África do Sul. A 5 e 6 de Agosto de 1983, a costa meridional de África seria novamente afectada pelo petróleo. O navio espanhol “Castillo de Bellver” transportava 250 toneladas de crude quando a sua parte traseira se afundou ao largo do Cabo da Boa Esperança. Cem mil toneladas desceram aofundo dos mares do sul, tendo morrido três tripulantes.

Uma década para esquecer

Os anos 80 foram um dos períodos mais trágicos neste domínio, tendo sido registados 12 casos de derrames industriais de fuelóleo. Além do “Castillo de Bellver” (1983) e do “Exxon Valdez” (1989), os casos mais falados na Imprensa foram o do “Cavo Cambanos”, de origem grega, que explodiu após um incêndio no largo da Córsega, derramando 18 mil toneladas de petróleo e o do “Kharg – 5”, petroleiro iraniano que derramou 27 mil toneladas de crude ao largo de Marrocos, em 1989. A costa portuguesa também enegreceu nesta década.

Em 1987, o “Nisa” rebentou durante uma operação de descarga, derramando dez mil toneladas de crude na costa de Sines. Mas foi em 1989 que a opinião pública portuguesa foi alertada para os perigos dos petroleiros. Em Julho, o “Marão”, de origem portuguesa poluiu mais uma vez a costa alentejana. A 30 de Dezembro, 25 mil toneladas de crude, derramado pelo espanhol “Aragón”, mancharam a ilha de Porto Santo, na Madeira.

Na década seguinte, outras marés negras ensombraram o mundo. Não muito longe da costa portuguesa, os petroleiros “Sea Empress” e “Erika” fizeram as manchetes dos jornais pelos motivos errados. Em Fevereiro de 1996, a embarcação de bandeira liberiana “Sea Empress”, encalhou na costa do País de Gales, lançando ao mar 70 mil toneladas de combustível, mais do dobro do óleo derramado pelo navio “Exxon Valdez”. Cerca de 25 mil aves marinhas morreram no acidente. Três anos mais tarde, o “Erika” partiu-se em dois, tal como o “Prestige”, em frente às costas da Bretanha francesa, derramando 20 mil toneladas de fuelóleo.

Quatrocentos quilómetros de litoral francês foram afectados. O acidente obrigou a União Europeia a criar novas leis de segurança marítima, como a exigência de duplo casco para os petroleiros. No entanto, elas ainda não foram implementadas.

Ano novo, problema velho

O início de 2001 não começou da melhor maneira. O petroleiro equatoriano “Jessica” encalhou no coração do arquipélago dos Galápagos, uma das mais importantes reservas ecológicas do mundo. Foram derramados cerca de 900 mil litros de combustível, que quase extinguiram a sua fauna única (tartarugas gigantes, iguanas, pinguins e corvos marinhos), que inspirou Charles Darwin a formular o princípio da evolução por selecção natural. Este ano foi a vez do “Prestige”, que seguia da Letónia para Gibraltar, afundar-se a 200 quilómetros da costa espanhola e espalhar dezenas de toneladas de óleo denso e de difícil extracção.

Os seis mil galegos que vivem da pesca não podem exercer a sua actividade e a vida marinha encontra-se ameaçada. O mundo reza para que o resto da carga de fuelóleo que ainda se encontra depositada nos seus tanques (cerca de 50 mil toneladas) não verta para as águas outrora límpidas do norte da Península Ibérica.

Efeitos das marés Negras

Quando o óleo atinge a água do mar espalha-se pela superfície e forma uma camada compacta que leva anos a ser absorvida. Isso impede a oxigenação da água, pondo em risco a vida da fauna e flora marinhas.

Evaporação: Elementos como a benzina demoram muito tempo a evaporar.

Oxidação: A substância química reage com a água, uma crosta de crude pode formar-se no oceano e dar à costa.

Expansão: O óleo denso expande-se lentamente e pode cobrir uma vasta área no mar.

Sedimentação: Uns poucos sedimentos podem afundar-se e afectar a fauna e flora nas regiões mais profundas.

Fauna afectada pela poluição: Aves, microrganismos, mamíferos marinhos, peixes e crustáceos.

Doenças causadas pelo óleo: anomalias físicas, lesões cerebrais, problemas respiratórios, anemia, danos no sistema nervoso.
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