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TODOS OS FADOS

Fado há só um, e é português. Mas veste-se em conformidade com o palco. Usa batina em Coimbra, xaile nas tascas de Alfama, alta-costura nas grandes salas de espectáculo. É só um, mas são muitos. Fomos ouvir todos eles
8 de Fevereiro de 2004 às 00:00
A VOZ DOS POETAS
Filho de uma das maiores vozes do fado, Carlos do Carmo respirava música ainda antes de nascer, naquela Lisboa de 1941. Lucília, a mãe, pertencia à tradição, cantava histórias tristes e violentas. Desde miúdo, Carlos aprendeu a respeitar essa vertente, mas acalentava o sonho de “pegar um dia naquelas músicas, e na de outros grandes fadistas, e casar dentro delas a poesia portuguesa”.
Sentia-se movido por uma constante inquietação, que ainda mantém, pela convivência com Ary dos Santos e pela falta de ligação às mensagens dramáticas.
Mas a entrada da poesia no fado não foi pacífica, houve críticas. “Cheguei a ter receio disso, mas hoje estou-me nas tintas. Nunca o fiz na tentativa de ser o menino transgressor, antes por acreditar que vale sempre a pena seguir em frente.”
Não se tem dado mal com a opção. Em 41 anos de carreira construiu um repertório de figuras tão distintas como Teixeira de Pascoais, Pedro Támen ou António Lobo Antunes, Fernando Pessoa ou Camões.
É que Carlos nunca deixa no tinteiro uma poesia por cantar, “embora existam algumas que jamais me atreveria a incluir, por não terem a linguagem do fado.”
SANGUE AZUL
Aos nove anos, ia ouvir os ensaios da sua tia, Maria Teresa de Noronha, uma das divas do fado lisboeta. Na época, não era habitual ver uma mulher de famílias nobres a cantar um género que floresceu nas tabernas de má fama dos bairros populares.
Vicente da Câmara ficou fascinado com o que ouviu e decidiu seguir-lhe as pisadas. Aos 75 anos, é considerado um dos últimos aristocratas da canção nacional, embora rejeite o epíteto. “Só se a palavra aristocrata significar ser-se o melhor em determinada área. Então sim, sou aristocrata.”
As músicas mais recentes têm-se afastado do imaginário monárquico e da tauromaquia, que até há poucos anos cultivava. O pai de José e Manuel da Câmara diz-se farto do ‘faduncho’ e do ‘castiço’. “Fado também pode significar alegria”, justifica. O cantor não se choca com as novas roupagens mas não se imagina a trocar a sua guitarra de 66 anos por um ‘djambé’ ou ‘samplers’. “Tal como dizia Hermínia Silva, basta-me uma guitarra e uma viola.”
COIMBRA TEM MAIS ENCANTO
Os fados de Coimbra são a grande causa de Camacho Vieira. Nos tempos de estudante, participou nas tertúlias literárias e serenatas estudantis, à beira do Mondego. Bebeu os acordes da guitarra de Artur Paredes – pai de Carlos Paredes – e a melodia de consagrados coimbrões como Armando Góes ou Paradela de Oliveira.
“Apaixonei-me por este fado viril, romântico mas sem pieguices, cantado nas ruas por rapazes.” Algo diferente do fado de Lisboa, mais popular e das tabernas e salões. O médico honorário da selecção nacional de futebol, hoje com 78 anos, tem discos gravados com Carlos Paredes e muitas histórias para contar. Ele não se esquece do dia em que participou na primeira serenata coimbrã transmitida em directo pela Emissora Nacional. “O país parou para nos ouvir cantar.”
A medicina trocou-lhe as voltas. As horas passadas no banco do hospital, em Lisboa, consumiam os seus dias e o fado ficou para segundo plano. Em 1986, no Mundial de Futebol do México, teve tempo para matar saudades. “Cantei uns temas para os jogadores, que ficaram rendidos à prestação.” Reza a lenda que André, do FC Porto, o acompanhou ao piano.
A VOZ DO POVO
Aos 60 anos Maria da Fé continua a cantar. Até que a voz lhe doa. Embora a fadista defenda que o fado não tenha ser uma coisa tristonha, a melancolia de um Portugal a preto-e-branco permanece intacta nas suas cantigas.
Trajada a preceito, com um imponente xaile negro sobre os ombros, os seus olhos brilham quando fala do passado. “O meu primeiro 'cachet' foi de 150 escudos. Uma fortuna para a altura.” Maria da Fé havia viajado do Porto para Lisboa para arriscar uma carreira.
Tinha 17 anos e ouvia Teresa de Noronha, Hermínia Silva ou Lucília do Campo. “Eram mulheres grandes: em talento e altura”, recorda. A sua voz impôs-se num meio competitivo e numa só década, pisou os palcos do Casino Estoril e do Festival da Canção.
“Nos anos 60 foi tudo muito rápido.” A fadista cantou de cor ‘Valeu a Pena’ e, apesar de ter perdido a viagem ao Eurofestival para Simone (e a célebre 'Desfolhada'), os jornais falaram da ‘Nova Amália’. Nos anos seguintes, viajou até ao Canecão, no Rio de Janeiro e para o Zenith, em Paris. O mundo estava aos pés da mulher que cantava a mágoa, a saudade ou os amores perdidos como ninguém. O povo tinha uma voz.
OS CLÁSSICOS….
AMÁLIA
A história do fado tem um marco que a define. Existe o tempo antes de Amália e o tempo depois dela
Surgiu cantadeira humilde, fez--se lenda à escala planetária e elevou-se a divindade nos corações portugueses. Chamava--se Amália e tornou-se imortal quando morreu, em Outubro de 1999. Mas não foi a primeira – nem será, talvez, a última – deusa do fado, a nossa canção, em vias de tornar-se património mundial...
Muito antes de Amália, corria ainda o século XIX, Severa gravou o seu nome a sangue na História de Lisboa. O fado, território dos proscritos e dos desventurados, fez-se carne nessa prostituta de beleza e canto capazes de seduzir o Conde de Vimioso, fidalgo de cheiro a cavalo ribatejano, que com ela se amancebou. A lenda cresceu com a morte dos dois, símbolos da improvável união entre o povo e a aristocracia.
Mas o fado continuou canção de órfãos e vencidos, de desdentados e mendigos. De facto, só esta tradição explica que as histórias de miséria humana possam ter resistido, ao longo de todo o século XX. Enquanto as histórias fazem chorar as pedras da calçada, pranteiam as cordas da guitarra portuguesa, tornada instrumento-rei do fado graças à repercussão coimbrã – ainda nos finais do século XIX e acompanhando os amores estudantis do mítico Hilário – e ao virtuosismo de Armandinho e, mais tarde, Raúl Nery e António Chaínho.
Canção popular, o fado tornou-se mais boémio do que nunca na voz velada e quente de Alfredo, o marceneiro de Campo de Ourique, homem da noite que sobressaiu entre todos os operários-fadistas do seu tempo, cantando nas tascas mais reles e nas melhores casas, de cigarro na boca e laço ao pescoço.
Mas o fado só saiu das vielas por obra de Amália Rodrigues. Ela será – para sempre – a embaixadora de Portugal além-fronteiras... Nascida na Alcântara dos estivadores, fez-se senhora por ser inteligente e diva por ter um timbre de arrepiar. Acima de tudo, nunca teve medo, nem quando os 'velhos do Restelo' se ergueram contra a sua vontade de cantar Camões e outros intocáveis da literatura, abrindo o fado à grande poesia, como ainda hoje fazem Carlos do Carmo e João Braga ou os mais jovens Mafalda Arnauth ou Camané.
Apesar de crescer entre os miseráveis, o fado tornou-se expressão unânime do nosso povo, calando os detractores – esses que escutaram, na sua mágoa natural, um 'sentimento de inferioridade' e que rejubilaram quando, depois da Revolução de 1974, o género foi quase silenciado, por ter raízes nos tempos da ditadura. Felizmente, Portugal soube virar-lhes as costas e reabilitar a sua canção...
A VANGUARDISTA
Mariza tem razões para sorrir. Em Janeiro foi considerada a melhor artista europeia de ‘world music’ e encontra-se a gravar uma canção com o Sting.
O segredo do sucesso? Uma voz forte e sensual, aliada a um visual sofisticado, de vestidos de alta-costura e cabelo meticulosamente esculpido. “As grandes fadistas sempre se apresentaram em palco luxuosamente vestidas”, opina.
Da imagem 'standard' das divas do passado, adoptou o xaile, peça que confessa ser o seu fetiche. “Os portugueses retomaram o orgulho no fado”, defende a diva que cresceu na Mouraria a ouvir e a cantar o fado.
Mariza acredita que o reconhecimento da UNESCO poderia tornar o fado tão popular como o samba, o tango ou os ‘blues’ e a transformá-lo num monumento vivo.
Para já, a moçambicana lidera isolada a nova geração de fadistas. Com discos como ‘Fado em Mim’ ou ‘Fado Curvo’ faz acreditar que a saudade continua a ser o sentimento nacional.
Pouco importa se é acompanhada pela guitarra portuguesa, piano, baixo, percussão ou trompete. O seu fado não tem fronteiras estéticas, estilísticas ou geográficas. “O fado é como um jogo que Deus inventou inspirado. Se Deus nos pôs cá nesta vida é para jogar o fado.”
…E OS MODERNOS
Não é um homem alto, mas em palco agiganta-se. Camané, de 37 anos, contribuiu para ressuscitar um género que parecia moribundo. “Quando comecei a cantar havia poucos fadistas da minha geração”, recorda. O artista, que cresceu numa família com tradições no fado, teve uma hepatite aos sete anos. Resultado: durante os 15 dias em que ficou de cama, ouviu compulsivamente os discos de Alfredo Marceneiro, Amália Rodrigues e Carlos do Carmo. Não muito tempo depois era visto a cantar em casas de fado e sociedades recreativas. O salto para o estrelato deu--se com discos como ‘Uma Noite de Fados’, ‘Esta Coisa da Alma’ ou ‘Pelo Dia Dentro’, lançados na década de 90. Ao mesmo tempo, surgiram jovens artistas e a crítica apressou-se a apelidar o fenómeno como ‘Novo Fado’. “Isso não existe. Tal como não há um novo Deus”, defende Camané que não acredita que este ‘boom’ seja apenas uma moda passageira. “Hoje, não são os mais velhos que correm às salas de espectáculo. Há muita gente nova a gostar de fado.” Com a carreira em ascensão, o cantor enche com facilidade o Teatro de São Luiz, e faz com frequência digressões ao estrangeiro. “Em Antuérpia, chamam--me de José Camané. Não sei porquê”. O fadista é já visto como o natural sucessor de Carlos do Carmo.
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