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Todos queriam votar nas eleições de 1975

Mais de 90% de afluência às urnas, jornalistas de 45 países, três dias até se apurarem os resultados definitivos.
Fernando Madaíl 29 de Setembro de 2019 às 14:00
Eleições de 1975
Eleições de 1975 FOTO: Direitos Reservados

Gigantescas, lentas e ordeiras filas para todos os cidadãos exercerem o seu direito de voto, pela primeira vez na nossa História, eram imagens   que   se   multiplicavam por todo o País no dia 25 de abril de 1975 (um ano exato após a Revolução dos Cravos) – e a adesão popular nesta ida às urnas, numa sexta-feira que era feriado, atingiu uns espantosos 91,66 por cento. Dois anos   antes,   ainda   na   ditadura,   a manchete do primeiro número do ‘Expresso’, publicado a 6 de janeiro   de   1973,   denunciara:   "63   por cento dos portugueses nunca votaram".

Agora, parecia que quase um   povo   inteiro   queria   eleger   a Assembleia Constituinte (que iria elaborar uma nova Constituição), demonstrando enorme "orgulho cívico"   e   dando   "uma   prova   de maturidade" política, como testemunhariam os 870 jornalistas provenientes de 45 países.

Nesse tempo, em que a televisão era   a   preto   e   branco,   só   existia   a RTP e a emissão encerrava antes da meia-noite com o Hino Nacional – reabrindo, no dia seguinte, à hora de   almoço,   a   que   se   seguia   nova pausa até ao serão –, as projeções modernas eram pura Ficção Científica.

Durante semanas, foi preparada uma maratona televisiva de 30 horas, estando previsto que os primeiros   resultados   com   algum significado seriam conhecidos por volta das seis da manhã de sábado – e, entre os boletins informativos, a programação incluía filmes e "programas musicais".

Sem sondagens divulgadas, ignorava-se a força real de cada partido.   Mário   Soares   recordaria   uma conversa com o primeiro-ministro Vasco Gonçalves, conotado com o PCP, em que o governante previa: "O MDP/CDE vai ser o maior partido, depois o PCP e o PS talvez fique em terceiro lugar". Não percebera o   que   o   historiador   Kenneth Maxwell   definiria,   no   livro   ‘A Construção   da   Democracia   em Portugal’, como "uma grande parte   da   população,   profundamente tradicionalista   e   conservadora, [que   se   encontrava]   sem
porta-voz".

Surpresas PPD e MDP
No centro de contagem de votos, com um enorme computador instalado pelo Ministério da Administração   Interna   na   Fundação   Calouste   Gulbenkian,   os   resultados apurados eram noutro sentido: PS – 116 deputados (37,9%); PPD – 81 parlamentares (26,4%); PCP – 30 mandatos (12,5%); CDS – 16 eleitos (7,6%);   MDP   –   5   lugares   (4,1%); UDP – 1 representante (0,8%) – e, no   círculo   eleitoral   de   Macau,   a ADIM bateu o CDM, elegendo Diamantino de Oliveira Ferreira com apenas 0,03% do total nacional.

Após a primeira "volta a Portugal" de Mário Soares, que viajava no seu Renault 19 vermelho, conduzido pela filha, o PS confirmava o que se esperava e era o indiscutível vencedor das eleições. Mas não era tão previsível que o PPD – só seria PSD a partir de outubro e cujo líder, Sá Carneiro, veio de Londres, onde se dizia que estava em tratamento, só para votar na 3ª secção de Nevogilde (Porto), partindo no mesmo dia – fosse o segundo, ainda por cima com o dobro dos votos do PCP.

E o MDP/CDE (sigla das listas oposicionistas no regime anterior, que se transformara em partido e era considerado um ‘satélite’ do   PCP),   com   tantos   ministros como os principais partidos, ficava atrás do CDS – que nunca integrou qualquer   dos   seis   Governos
Provisórios.

Apesar de a radicalização da sociedade só vir a crescer vertiginosamente   nos   meses   seguintes,   o contexto já não era pacífico: desde o I Congresso do CDS, realizado em janeiro, no Porto, cercado por elementos da extrema-esquerda, até incidentes   provocados   por   elementos da extrema-direita, já no fim da campanha eleitoral, numa sessão   de   esclarecimento   do PCP na Trofa.

Maoista no Parlamento
Na manhã de segunda-feira (três dias após a votação), ainda faltavam   apurar   154   freguesias,   incluindo as seis de Lisboa que seriam decisivas para a UDP eleger o primeiro deputado maoista no parlamento de um país da NATO.

Apesar de ter menor percentagem nacional que a FSP (originária de uma cisão com o PS e que, mais tarde, se juntava ao PCP e ao MDP na aliança FEPU) e o MES (reunia desde dirigentes da Crise Académica de 1962 até alguns sindicalistas, advogando o "poder popular"), a concentração de votos na capital permitiu à UDP garantir um lugar na Assembleia Constituinte.

Por   ironia   da   História,   quem   se deveria sentar no hemiciclo a representar a UDP era o médico João Pulido Valente, mas, além da fortuna de família, o histórico fundador da tendência pró-chinesa em Portugal (com Francisco Martins Rodrigues e Rui d’Espiney) tinha ido visitar à prisão o capitalista Jorge de Brito, seu amigo de infância, pelo   que   foi   logo   substituído   por Américo Duarte, operário metalúrgico na Lisnave e ativista sindical.

MRPP fora do boletim
Os boletins tinham ainda os símbolos da maoista FEC (m-l), do monárquico PPM, do também pró-chinês PUP, da   trotsquista   LCI   –   e   a   campanha pelo voto em branco ("um voto em branco é um voto no MFA" [Movimento das Forças Armadas]) não resultaria. Mas não surgiam os emblemas de partidos entretanto ilegalizados ou suspensos, que estavam proibidos   de   concorrer   –   como   o MRPP, um movimento maoista que rotulava o PCP como "social-fascista",   que   promoveu   manifestações   contra   a "farsa eleitoral" em Lisboa e no Porto, no próprio dia 25 de abril, e cujos dirigentes e militantes viriam a ser presos às   centenas.  

E havia ausências   por vontade própria: a Base-FUT   considerava que as eleições serviam "aos burgueses e nunca aos trabalhadores", a LUAR esclarecia que "não tem nada a ver com o atual processo eleitoral", os anarco-sindicalistas do jornal   ‘A   Batalha’   não   concorriam   "a quaisquer competições eleitorais".

Como escrevia José Saramago, no dia 28 de abril de 1975, na sua coluna de opinião (não assinada) ‘Apontamentos’,   na   primeira   página   do ‘Diário de Notícias’ (de que era, então, o diretor-adjunto): "As eleições tiveram, pelo menos, a vantagem de clarificar   a   bruma   ideológica   que pairava (e de algum modo continua a pairar) sobre o nosso país." A partir desta altura – e até ao 25 de Novembro desse ano, em que os militares moderados dominaram os seus camaradas de armas comunistas e esquerdistas –, iriam confrontar-se a legitimidade conferida pelo voto e a capacidade de exercer o poder a partir da rua.

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