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Todos temos um fado

Rádio Amália mudou a face do éter nacional: tornou-o castiço, atrevido e ofereceu-o de igual modo a profissionais e amadores
5 de Dezembro de 2010 às 00:00
Rui Martins foi o primeiro a cantar na emissão do fado vadio
Rui Martins foi o primeiro a cantar na emissão do fado vadio FOTO: Vasco Neves

Amália apresenta-se no cartão-de-visita como uma rádio "boémia, atrevida e namoradeira". O cartão não diz, mas também tem raça de gente boa, como a do povo que a ouve, canta ou visita com embrulhos de pastelinhos de bacalhau e bolinhos para os fadistas que actuam ao vivo no estúdio. Em FM, leva democraticamente o fado a todo o lado - aos táxis e às tascas, às casas com sardinheiras à janela e à periferia, para quem trabalha ou a quem todo o tempo sobra.

Desde há um ano, em 92.0 FM, que a rádio Amália emite 24 horas por dia a canção de Lisboa. Todas as quartas-feiras à noite, troca as estrelas pelos "vadios" do fado. O nome foi carinhosamente escolhido pelo radialista Vergílio Pereira, responsável pela emissão em que os protagonistas são amadores. É assim que gosta de chamar aos que ali buscam um palco, sejam eles doutores com pinta de fadista ou serralheiros com veia de artista. "Vadios para mim são todos os que cantam nas colectividades, nos restaurantes, nas festas. Que até podem ter ou não carteira profissional, mas que nunca tiveram uma oportunidade, apesar do talento enorme", afiança o locutor.

Um dos tais vadios, Rui Martins, veste com orgulho o cognome e vai longe na justificação, no tom rouco e embargado que enche de sons as vielas da castiça Marvila que o viu crescer: "Somos todos nós. Os que escutam, que se interessam, que vivem e amam o fado".

Nessas noites que se tornaram já um emblema da estação, chega a "haver fila à porta para entrar, carros em segunda fila, táxis sempre a chegar", descreve Augusto Madaleno, director da estação.

Os taxistas contam-se, aliás, entre os fiéis seguidores da estação. O caso não é para menos: o éter é a sua maior companhia nas longas noites de vai e vem. "Anda-se aqui solitário, os clientes não conversam muito e a rádio acaba por ser aquilo que nos aquece a alma, sobretudo à noite. Adoro Amália e o fado tradicional, tenho o posto sempre sintonizado", confessa Gilberto Anselmo, 59 anos, ouvinte habitual da estação. Outros acabam por dar a rádio a conhecer aos clientes, como faz Eduardo Dinis, 60 anos de idade e 20 ao volante de um táxi.

"Ouço-a porque o fado não é só música. Gosto da forma como descreve a vida. Já houve pessoas que descobriram esta rádio a bordo deste táxi. Mas é gente de um certo género, que gosta de fado. A rapaziada nova, que anda nas Docas e no Bairro Alto, também pede ‘ó chefe, ponha lá uma musiquinha' mas depois prefere ouvir outras coisas", conta. "Nostálgico" por natureza, também José Guerra não dispensa a rádio Amália, nas corridas a favor do taxímetro. "Dá-me paz de espírito. Além disso, como não vou aos fados, vem o fado até mim", brinca.

CASTING NO CORREDOR

O casting faz-se ‘à la minute' nos corredores do número 25 da rua do Viriato - uma morada que já fez história, pela voz do ‘lobo' António Sérgio, que dali emitiu o seu último programa, precisamente com o nome de ‘Viriato 25'.

"Vêm fadistas de todo o País para estes directos do fado vadio. Chegam e afinam a voz e as guitarras no corredor do prédio ou no hall de entrada, pois o estúdio é pequeno", acrescenta. A vizinhança galga as escadas para os ouvir, como se a Tasca do Chico ali tivesse montado sucursal. Mesmo sem velas nem vinho a acompanhar, respira-se tradição da mais genuína, que não se deixa intimidar por halls de betão e mármore nem painéis com botõezinhos luminosos. O hábito não faz o monge e muito menos o fadista.

Conquistado o direito de fazer parte da emissão, o estúdio revela-se pequeno demais para fadistas improvisados, amigos e convidados, mas a boa vontade sempre soube encaixar qualquer multidão num cubículo. Corridas as persianas, as sete colinas de Lisboa mostram-se dengosas numa pintura rudimentar. Do outro lado da mesa de som, o retrato de Amália, a musa de todos, completa a decoração. O nervoso miudinho tenta esconder-se entre apertos de mão e mascam-se rebuçados de limão, não por ritual mas antes por cortesia de alguém que distribuiu o pacote trazido de casa.

O SONHO DO PALCO

Rui é o primeiro a subir ao púlpito. Tranca os polegares nas algibeiras, estufa o peito e antes de embalar por ‘Viuvinha', de Amália Rodrigues, o olhar acerta o compasso com José António (guitarra portuguesa) e Amadeu de Sousa (viola de fado). Ali dentro vivem o sonho.

Fora dali a vida é outra. Dura e real. Rui é osteopata, os músicos andam entre a serralharia e o ofício de canalizador. Nunca puderam profissionalizar-se no fado, mas também nunca perderam uma oportunidade de lhe emprestar a voz. E de uma maneira muita própria, também conheceram a fama. "As minhas alunas de pilates adoram esta minha faceta de fadista. Às vezes até me convencem a levá-las aos fados. Lá no bairro todos sabem que sou fadista desde os 14 anos". Vai nos 50 anos e tem a sua própria clínica de fisioterapia em Marvila, mas o espectáculo está-lhe no sangue: "Também fiz locução de espectáculos. Isto já vem de família, pois o meu pai apresentava espectáculos e matinés".

Maria do Céu tem 64 anos e só há nove começou a cantar o fado, no Clube Recreativo de Miratejo onde o destino a levou a explorar o bar. O talento veio tardio, porque em Luanda, onde se fez mulher, "não se ouvia fado". Nem seria coisa que se louvasse a uma moça de família, apesar de, segundo rezar a lenda, o pai ter carregado uma guitarra na bagagem para terras africanas.

Ouve a rádio Amália "de manhã à noite, acordada e até a dormir", nas muitas noites em que adormece com a telefonia ligada. Veste-se a rigor só para o fado: traje negro, xaile pelos ombros e uma voz que não treme na ‘hora H'.

E se o destino se compadecesse de razões, Carlos Oliveira brilharia ao lado das estrelas. Chegou a ser atracção do Lisboa à Noite, casa de fados com renome em Toronto (Canadá), onde esteve emigrado. Mas sem luzes da ribalta a seguir-lhe os passos, coube-lhe o ofício de motorista. E passou a rasgar o alcatrão ao som do fado e a cantar "quando calha" em festas e sociedades recreativas. Tantas voltas depois, fechou a noite da rádio Amália, aplaudido de pé.

Finda a emissão, partilham-se cigarros e cervejas, naquele burburinho acalorado e cúmplice dos amigos.

Lá fora, aconchegam-se familiares, amigos e ouvintes, que resolveram vir ver com os próprios olhos o que só o coração podia imaginar.

Sentado nas escadas e com o cigarro ao canto da boca, João Feiteiro fecha os olhos e estreme ao ouvir ‘Foi na Travessa da Palha'. Nunca lhe passou pela cabeça cantar mas é fã convicto. Naquela noite, deixou-se ficar por ali a fazer horas para ir buscar a filha ao trabalho. Se pode ouvir a emissão ao vivo, para quê fazê-lo dentro do carro?

BOLOS E DISCOS PEDIDOS

Ponto alto das emissões diurnas são os programas com discos pedidos. Tudo à moda antiga, pelo telefone e com direito a dedicatória. Odete Gil, 64 anos vividos na Quinta do Morgado, nos Olivais, diz-se sortuda na roleta das chamadas. "Todos os dias ligo a pedir um fado. Fico com o dedo a arder, mas eu sou teimosa, o que se há-de fazer?" Joana Santos, 75 anos, veio de Moscavide com o mesmo propósito. O primeiro filme que viu na vida foi de Amália e são quase sempre dela os fados que pede, quando sai vitoriosa na corrida telefónica.

São sobretudo os mais idosos que acarinham os cantores e os seis radialistas que asseguram 24 horas de emissão como se fossem da sua própria família. Quando o tempo e o orçamento ajudam, passam por lá para deixar um beijo, uma flor e já agora uns pastelinhos de bacalhau ou um arroz de feijão "para tapar o buraquinho" quanto a noite já vai.

Cada vez que por lá passa, o fadista Ricardo Ribeiro não deixa escapar as oferendas. "Da última vez, comeu duas dúzias de pastéis de nata que uma senhora tinha trazido e até disse que ainda vai fazer um fado sobre o pastel", denuncia Madaleno.

É sempre assim na rádio de que Amália - a fadista - haveria de se orgulhar caso a tivesse conhecido. Porque assim é o fado. Mesmo fora das tascas e vielas, apesar de viajado, será sempre castiço e popular.

Fado Rádio Amália Rodrigues
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