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Correio da Manhã

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“TOMEI CONSCIÊNCIA DE QUE ESTOU MAIS VELHO”

Volta à cena no Teatro S. Luiz para uma peça trágica, ‘Caixa de Sombras’, na pele de um doente que está à beira da morte. Aos 36 anos, o homem por detrás do actor diz sentir o peso da idade, do passar dos anos mas, pelo menos, convive melhor com a ideia de não poder agradar a toda a gente.
7 de Setembro de 2003 às 16:32
De algum tempo para cá, dá sensação de ter invertido alguns objectivos em relação à sua carreira.
Desde que fiz o ‘Sexo, Drogas e Rock n’ Roll’, decidi que queria ter mais intervenção sobre o meu destino profissional. Essa peça é um marco, na medida em que corri alguns riscos, tentei quebrar com uma imagem de marca, assumi o pudor de me expor sozinho… Pode parecer um exercício de vaidade subir a um palco sem mais ninguém, mas é sobretudo um risco.
Teve medo de falhar?
Bastante. Se falhasse não havia mais ninguém a quem eu pudesse atribuir responsabilidades. Correu bem e isso deu-me um prazer acrescido, tornei-me mais confiante.
A que é que se refere quando fala da sua “imagem de marca”?
São ideias que se vão construindo ao longo do tempo e das quais nos vamos dando conta através do ‘feedback’ que recebemos das pessoas, da imprensa, da forma como falam de nós, daquilo que acham que somos.
E como é que acha que isso se constrói?
Através dos papéis que fazemos. A certa altura pensei: “tenho que deixar de fazer de bonzinho”. Até porque acho que os ‘mauzinhos’ são, normalmente, muito mais interessantes.
Teve receio que as pessoas o achassem ‘bonzinho’ ou desinteressante?
Não, o que realmente me incomodava era a ideia de ser uma pessoa que está sempre em controlo. É-me atribuída a imagem de alguém que se contém na vida ou no palco. Sempre que dou entrevistas são raros os jornalistas que não acham que estou sempre a medir o que digo, como se tivesse um discurso ensaiado.
E não tem?
Não. Percebi cedo que isto é um jogo e eu não jogo tudo. Tento passar aquilo que acho que é interessante as pessoas saberem e que tem que ver com o meu trabalho. Tudo o resto são ‘fait-divers’. Anseio sempre por dar uma boa entrevista mas irrita-me que, ao fim de todo este tempo, a maioria dos jornalistas insistam em perguntar-me se gosto mais de fazer teatro, cinema ou televisão. Não percebo que interesse é que isso possa ter…
E quanto ao controlo em palco?
Isso sim, incomodava-me, talvez por ter consciência dele e de perceber o quanto me podia limitar. O tempo e a experiência fizeram com que eu tivesse desenvolvido uma bagagem técnica que me permitia dar uma resposta eficaz às solicitações que ia tendo. Ao darem-me sistematicamente o mesmo tipo de papéis, estavam a dar-me coisas que já sabiam que eu era capaz de fazer. E, de repente, isso fez-me sentir frustrado, limitado…
E como nessa altura o desafio não veio de fora, resolveu criá-lo por dentro?
Quis correr o risco de enfrentar um dos meus maiores medos: poder ser ridículo.
Nunca lhe ocorreu que as pessoas pudessem não gostar desse novo Diogo Infante?
Nunca me permiti pensar nisso. Achei que tinha que ser mais egoísta. Comecei por ser actor por mim, não pelos outros. Essa pressão só veio depois e é terrível porque corremos sempre o perigo de agir como os outros esperam de nós.
Receou poder estar a acomodar-se?
Sim, e francamente essa hipótese não me agradou nada. Talvez tenha sido a noção de que corria esse perigo que me fez reagir.
Não existiu também uma necessidade de confirmação?
Claro. Tinha algumas dúvidas. Os primeiros espectáculos do ‘Sexo, Drogas e Rock n’Roll’ começaram na Comuna, que tem uma sala pequena e isso não foi por acaso. Lembro-me de me ter virado para o produtor, o Rui Calapez, e de lhe ter perguntado: “será que isto enche?”. A meio da tarde só tínhamos meia sala e eu fiquei muito ansioso, muito assustado…
E uma semana depois o espectáculo estava sistematicamente esgotado…
Foi uma surpresa. Sentia-me um puto a quem tinham dado um enorme presente. Fiquei genuinamente feliz. Não consigo ter certezas, nunca me levei a sério ao ponto de não ser inseguro. Ao correr bem, percebi que tinha recuperado o prazer. A pior coisa que pode acontecer a um actor é fazer um trabalho só por fazer ou porque tem de assegurar a sua sobrevivência.
E foi essa consciência que o fez decidir não querer fazer nada que não fosse minimamente gratificante?
Em teoria sim. Na prática, as coisas não são tão fáceis. Não sou auto-suficiente, preciso dos outros. Procuro ser mais criterioso… Mas, curiosamente, se olhar para o meu percurso, verifico que muitos dos meus trabalhos, partiram de mim. Não tenho assim tantos convites como as pessoas podem imaginar.
É menos consensual dentro do meio do que junto do público?
Há muita gente que tem preconceitos em relação a mim. Uns acham que sou demasiado comercial, outros que tenho visibilidade a mais e depois há os outros que simplesmente não gostam de mim e estão no seu pleno direito.
Portanto, neste momento não tem meia dúzia de guiões, nem uma dezena de peças de teatro em cima da mesa, à espera da sua resposta?
Na verdade, não tenho nada. As peças que tenho são as que ando a ler e, de vez em quando, lá surge um ou outro convite que, infelizmente, nem sempre me interessa. Tento criar as minhas próprias alternativas, o que não é mau, significa que não estou totalmente dependente de saber se o telefone vai ou não tocar.
Como é que lida com esses preconceitos?
Muito melhor. No início magoava-me, não entendia porquê.
Interpreta isso como o reverso do seu sucesso?
Em parte, acho que tem que ver com isso. Mas espero que pouco a pouco essa ideia se vá diluindo. Estamos numa fase em que uma grande percentagem de actores portugueses estão a fazer televisão. Quando a Eunice Muñoz, o Rui de Carvalho, o João Perry, a Alexandra Lencastre, que são alguns dos melhores actores portugueses, e cuja qualidade é inquestionável, fazem televisão, esse tabu tem necessariamente que cair.
Foi para arrefecer essa ‘imagem comercial’ que deixou de fazer televisão com tanta assiduidade?
De maneira nenhuma. O que aconteceu foi que me fui sentindo desiludido com a nossa televisão. Aquilo que ela tinha para me oferecer não me chegava. O que me motiva não é ter mais dinheiro ou ser mais famoso. E a verdade é que o teatro me dá uma liberdade e um prazer que é muito difícil obter na televisão. Acredito que é possível capitalizar a mais-valia da televisão, a visibilidade, em prol do teatro e, com isso, criar uma corrente de público. Custa-me ver até que ponto as televisões baixaram tanto a fasquia. Orgulho-me de muita coisa que fiz na televisão, mas verifico que aconteceram num passado cada vez mais longínquo. Esta nova lógica de mercado, de facilidade, de se achar que as pessoas são estúpidas, ofende-me.
Acredita na inversão dessa lógica?
Quero acreditar. E acho que é à televisão do Estado que cabe essa responsabilidade: fazer produtos que nos dignem. Há muitos anos que os brasileiros nos oferecem produtos com essas características. Lembro-me da ‘Gabriela’, a primeira novela que passou em Portugal, e, já nessa altura, era consensual que se tratava de um projecto extremamente bem feito.
Há poucos sinais dessa mudança…
Vai ser um processo lento. Muito de vez em quando, lá aparecerá um ou outro projecto mais interessante. Temos material humano para fazer coisas de muita qualidade. Adivinha-se uma série que, pode vir a marcar a diferença: a adaptação do romance do Álvaro Cunhal, ‘Até Amanhã Camaradas’.
A forma como se apresenta em público deixou de ser tão formal?
Acho que sou mais autêntico. Nos últimos tempos as pessoas dizem-me que estou mais simpático, mais acessível. Convivo melhor com a ideia de não poder agradar a todos… Sinceramente, ser consensual é uma grande seca! Mas nunca tive nenhuma estratégia. Essa formalidade correspondeu a uma fase da minha vida em que tive necessidade de me proteger. Não me parece que seja difícil perceber que se eu tinha tanta necessidade de me proteger é porque algures na vida terei sentido essa falta…
Como é que alguém que se quer proteger lida com o facto de ser um símbolo sexual?
Agora acho muito engraçado, principalmente porque nunca me vi nessa perspectiva. Só passei a ser interessante aos olhos dos outros, desde o momento em que fiz televisão. A televisãotem esse poder: apareces lá, logo és lindo, o que é porreiro…(risos).
E para além desse poder televisivo, tem consciência de que é bonito?
Tenho consciência que tenho um corpo que imprime e que provoca algumas reacções. Mas sei que isso se deve essencialmente à atenção que tenho dos outros. Se andasse por aí na rua, sem que ninguém me conhecesse, o impacto não seria de longe, nem de perto, o mesmo. Mas convenhamos, isso é muito agradável, muito simpático.
Mas nem sempre lidou muito bem com isso, pois não?
Não, sentia-me observado e esses olhares constantes incomodavam-me. Continuo a senti-los mas já me estou nas tintas. Não quero ser modelo, não me peçam isso.
Sente que lhe pedem?
Conheci várias pessoas que deram o meu nome aos filhos, o que por um lado me comove e por outro me inquieta. Fico sempre a pensar: “Mas porquê? Que importância é que eu tenho?”. Se eu levasse esse tipo de coisas a sério, seria sinónimo que me tinha transformado numa pessoa insuportável. Muitas vezes falo do Diogo Infante na terceira pessoa e não é para ser possidónio, é porque acho importante distinguir o actor da pessoa.
Falemos deste seu novo personagem, o ‘Brian’. Como é que tem sido lidar todos os dias com um homem que está a morrer?
Muito difícil.... Durante este processo, percebi a falta que me faz não ser católico, budista, acreditar em reencarnações – qualquer coisa que me apaziguasse. Como quase toda a gente, custa-me lidar com a morte. Ao fim de 36 anos, ainda não consegui encontrar um sentido para a vida. A ideia de que somos tão pouco, que a vida continua para além de nós, é muito assustadora.
E como é que tentou resolver esse problema, de forma a aproximar-se da tranquilidade com que o ‘Brian’ olha para essa inevitabilidade?
O mais difícil é identificar, reconhecer, lidar com o medo. Não se pode representar com verdade sem atravessar esse processo. E isso foi muito doloroso. Agora é a outra fase. Já chorei, já tive pena de mim, do ‘Brian’, da humanidade… Nesta altura, espero estar munido de armas suficientes para chegar ao palco e conseguir um bom desempenho sem me torturar mais. Os ensaios são processos de violentação para atingir a verdade.
Nesta peça, calculo que seja importante estar acompanhado, partilhar com os seus colegas esse caminho, aproximar-se dessa pequena ‘fracção de segundos’ que separa a vida da morte.
Bastante. Há um pensamento recorrente, talvez um pouco primário e infantil que me tem ajudado: “se morrer não morro sozinho. Tenho os meus colegas aqui, ao meu ao lado, estamos todos no mesmo barco”. A proximidade que se estabeleceu entre nós é de tal forma forte que sem termos dito nada, sei que demos as mãos e decidimos: “ok, vamos lá lidar com isto”. Sinto que enriqueci, tive algumas revelações: não basta nomear os problemas para os resolver. O medo continua, não desaparece nunca. Mas o facto de estar identificado, traz-nos algum alívio.
Não tinha percebido isso antes?
Não desta forma. Há algum tempo, a minha mãe teve um cancro no peito. Uma amiga deu-lhe um daqueles vídeos americanos de auto-ajuda. A certa altura, havia uma voz que dizia: “Vamos dizer a palavra – cancro!”. E eu tive uma fúria e parti aquilo tudo. Agora percebo: nomear e partilhar estes lugares escuros e sombrios, torna-nos mais aptos, mais fortes.
Ao pensar na morte, pensa-se inevitavelmente na velhice…
Cada vez que penso nisso, tenho um grande desejo: quando esse momento chegar, quero estar rodeado de pessoas de quem goste muito e que gostem muito de mim. Sabe o que é que me comove? Pequenos gestos. Como quando estamos muito mal dispostos e precisamos de vomitar e vem alguém que nos põe a mão na testa.
O tempo, a idade, acabam por nos tornar mais conscientes em relação ao que é essencial?
Pois é, e eu já cheguei aos 36 anos. Tenho amigos com idades que vão da adolescência, até à terceira idade, o que é muito bom porque me confere a possibilidade de estar perto de experiências muito díspares. Mas quando olho para os que estão abaixo dos 30 anos, deparo-me quase sempre com pessoas que se acham intocáveis, que acreditam que tudo lhes é permitido. Depois começa a ser mais difícil acreditar nisso, a arranjar distracções…
E o que é que se tornou fundamental?
Estar bem comigo. Se o conseguir estarei bastante mais disponível para os outros. Fui sempre muito ansioso, o que tem um lado bom, porque me fez agir. Mas tem um lado muito mau, porque não nos deixa relaxar, aproveitar. Passei os últimos 10 ou 12 anos a trabalhar e a tentar aproveitar todas as oportunidades. Agora, esta nova consciência diz-me: “calma, calma Diogo!”. E não tenho qualquer dúvida que me tornei numa pessoa muito mais generosa.
O que é que não quer perder?
Esta consciência. Há qualquer coisa que é muito cruel na lucidez, mas depois, há algo fundamental que se tranquiliza dentro de nós. Agora, o meu coração bate de maneira diferente. Mais devagar.
'CAIXA DE SOMBRAS'
De Michael Cristofer; Encenação: Marco D’Almeida; Com: Adriano Luz, Custódia Gallego, Pedro Caeiro, Diogo Infante, Pedro Barbeitos, Margarida Pinto Correia, Fernanda Borsatti e Isabel Abreu. (Com o patrocínio do Correio da Manhã) De 7 a 28 de Setembro no Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa.
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