Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM

Três portugueses na crista da maior onda de lama

Nunca um português tinha surfado no rio. E muito menos na maior onda de lama do Mundo, até que os três longboarders chegaram em Março ao Amazonas para dominarem a mítica Pororoca. Chega a ter seis metros de altura, entre jacarés, piranhas e o muito traiçoeiro candirú.
6 de Maio de 2007 às 00:00
Miguel Ruivo
Miguel Ruivo FOTO: D.R.
O Sol e a brisa tropical que sopra entre as copas das árvores não apagam a raiz do medo, forças ocultas por baixo de uma água barrenta que ganha formas no mítico Paredão da Morte. O tempo quase pára ao rodar da cabeça por cima da prancha, olhos pregados junto à margem direita e logo depois à esquerda, numa e noutra arrastam-se jacarés e piranhas com a força bruta da corrente. Segundos de novo fôlego acabam sem pinga de sangue e a lancha rápida devolve Alexandre Nico à crista da Pororoca, no coração do rio Amazonas. É um dos três longboarders portugueses, primeiros surfistas nacionais a ‘destruir’ a maior e mais temível onda de lama do Mundo. A vaga na selva chega aos seis metros de altura – e, da parte dos nativos, só ouvem “Auéra Auara”. Qualquer coisa como “sorte”.
Nico é mentor do projecto e, cortesia do grupo, tem primazia, é primeiro no desfazer do mito. Mas só não bate o recorde de Miguel Ruivo, 18 minutos ininterruptos em cima da onda. Quem cai “é recolhido pela mota de água ou pela lancha rápida e logo deixado de novo à frente da onda”, descreve à Domingo Alexandre Nico, 37 anos, licenciado em Educação Física e Desporto.
Miguel Ruivo é ex-campeão nacional de longboard, o surfista mais experiente do grupo – e, aos 40 anos, por certo já bem avisado para os perigos do traiçoeiro candirú, peixe que “ataca os órgãos genitais e o problema só é resolvido [quando é] por intervenção cirúrgica”. Atraí-los não é aconselhável e, antes de qualquer jacaré ou tubarão, é sobre os pequenos peixes que recaem os conselhos dos nativos. E “o principal é para nunca urinar dentro de água”, recorda Nico, hoje já meio a brincar.
Miguel Dantas é o mais novo em toda esta aventura, 29 anos, e também ele passou cinco dias na selva Amazónica. Juntaram um piloto de lancha rápida, outro de ultraleve e um guia, todos locais – e quando aterraram em São Luís do Maranhão, Brasil, no último dia 17 de Março, a três horas de Arari, quartel-general nas margens do rio Amazonas, já estava tudo a postos para partirem “ao encontro da onda”.
E mal chegaram saíram para o reconhecimento, via lancha. Só queriam saber “como estavam formadas as bancadas”, fundo que sustenta a formação da onda, como é que esta “quebrava”, e o “potencial e extensividade da mesma” – conhecer as “características gerais de uma onda de rio”, estreia absoluta para os três portugueses.
POROROCA ALIMENTA MUITOS MITOS
Na teoria já todos a conheciam, a Pororoca alimenta mitos pelo Mundo fora, passa por hora e meia de onda contínua pelo meio da selva – e, “traduzido, significa estrondo, destruição”. Esta gigantesca onda de rio é fenómeno que ocorre por equinócio, com maior potencial entre Fevereiro e Abril de cada ano e tem uma grande amplitude “nas luas nova e cheia”. Arrasta lama por onde passa e “chega a atingir seis metros de altura”, apesar de o grupo ‘só’ ter apanhado no máximo “dois e meio a três”. E foi junto ao Paredão da Morte, onde a onda corre ao encontro de uma temível parede de argila com três metros – que a sustenta e lhe dá grandes dimensões. Ali Miguel apanhou o grande susto da viagem, “foi fintado pela onda e viu-se enrolado numa situação crítica, com o ‘shop’ [que segura a prancha ao pé] preso na vegetação junto à margem.
Só se libertou ao largar tudo – e o resgate foi feito por Nico, de mota de água, e Dantas, que também surfava ali perto. “É o local onde a onda tem pior qualidade, com grande turbulência, fortes correntes e muitos ressaltos” – e melhora nos sítios onde o caudal é menor, na zona interior do rio. Ficam para a História 18 minutos de Miguel Ruivo a surfar sem cair, “bem cronometrados ao relógio” mas, acima de tudo, o feito inédito entre portugueses – foram os primeiros a ousar surfar a mais extensa e lamacenta onda de rio do Mundo.
“Quisemos promover o longboard”, a variante do surf com as pranchas de maior cumprimento, “aliado ao desporto aventura”. E a grande aventura passou muito pelo contacto com os nativos, “algumas centenas em Arari, mas muito pobres, com as casas à beira-rio com tendência a desaparecer pela passagem devastadora da onda, o que os obriga a migrar”. A Pororoca forma-se duas vezes por dia, “na transição da maré vazia para a cheia”, e tem uma duração de hora e meia – desde que se forma no Paredão da Morte, o ponto diário de encontro entre o grupo português e a força das águas, e até que se extingue.
“Só apanhávamos a onda da manhã, no primeiro dia foi logo às 06h30 e, nos dias seguintes, sempre uma hora mais tarde. O candirú não deu um ar da sua graça, mas a Nico apareceu um tubarão espadarte – ri-se agora da “serrilha” que viu sair à tona da água. Nada de especial, afinal os nativos avisaram--nos logo para “tubarões de 15 metros”.
As tardes são intensas em Arari, “a falar sobre a Pororoca e do enorme respeito que as pessoas têm por este fenómeno de destruição”. E dentro de água, a quem perde a onda e se vê de fato-de-banho entre a prancha, jacarés, piranhas e candirús em fúria, resta esperar que a natureza não seja madrasta.
SILÊNCIO DAS MATAS QUEBRADO PELA FÚRIA DAS VAGAS A CHEGAR
Pororoca, o nome da maior onda de rio do Mundo, vem de ‘poroc poroc’, “destruidor, grande estrondo”, no dialecto indígena do rio Amazonas. E foi assim baptizada pelos índios porque, três dias antes e depois das luas cheia e nova, o silêncio das matas é quebrado por vagas até quatro metros de altura, que aparecem de forma surpreendente nos rios da Amazónia.
O fenómeno da Pororoca ocorre principalmente na foz do seu grandioso e mais imponente rio, o Amazonas, forma-se pela súbita elevação das águas junto à foz, provocada pelo encontro das marés ou de correntes contrárias, como se estas encontrassem um obstáculo que impedisse o seu percurso natural. E quando ultrapassam o obstáculo, as águas correm rio adentro com uma velocidade de 10 a 15 milhas por hora, subindo a alturas entre os 3 e 6 metros. É um dos atractivos turísticos mais expressivos, que embora temível, torna-se um espectáculo admirável. O seu barulho ensurdecedor faz-se ouvir a mil quilómetros.
PROJECTO 'ONDA CLÁSSICA' CUMPRE MISSÃO MAIS ARROJADA DE SEMPRE
A aventura no Amazonas foi a mais arrojada do projecto ‘Onda Clássica’, iniciado em 2005 por Alexandre Nico, e que conta com uma rotatividade entre os 16 primeiros no ranking nacional de longboard.
Na estreia partiu um grupo de seis surfistas à conquista dos “locais na costa portuguesa onde o longboard tem mais destaque” – e, depois da tempestade que os obrigou a começar a semana pela Galiza, “sempre em Março”, partiram de Viana do Castelo até à Arrifana, no Sudoeste algarvio, passando por Figueira da Foz, Peniche, Ericeira, Linha do Estoril e Costa de Caparica.
As duas caravanas foram no ano seguinte postas de parte e Nico, desta vez entre um grupo renovado de quatro surfistas, rumou ao Sal, em Cabo Verde. Ponta Preta e Pedra de Lume foram as ondas de eleição.
'VAGALHOS' DO HAWAI SÃO A PRÓXIMA META
No surf como em todos os desportos radicais, não há limites para a adrenalina e o passo seguinte é sempre mais arrojado – no caso de Nico e do projecto ‘Onda Clássica’, “pretende-se aliar ao surf as componentes histórica, cultural e ambiental”. Mas “acima disto”, de serem os primeiros portugueses a surfar uma onda de rio, “só os ‘vagalhos’ gigantes do Hawai, Indonésia ou Taiti”, sessões de Tow-in de longboard, rebocados por motas de água bem para fora da rebentação.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)