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Três meses de gaffes na comissão BES

Morais Pires quis pagar bifana a deputada, Teixeira dos Santos foi tomado por comunista. Peripécias em São Bento.
Diana Ramos e José Carlos Marques 15 de Fevereiro de 2015 às 14:00
Teixeira dos Santos foi confundido com o ex-deputado comunista Honório Novo
Teixeira dos Santos foi confundido com o ex-deputado comunista Honório Novo FOTO: Lusa

A falência de um dos maiores grupos financeiros do País é assunto sério, demasiado sério para quem perdeu as poupanças de uma vida, mas na comissão parlamentar que investiga as razões do colapso não têm faltado motivos de riso. Entre equívocos e depoimentos surreais, tem-se visto e ouvido de tudo um pouco.

"BOMBA ATÓMICA"

Logo no arranque, a 17 de novembro, o depoimento de Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, deu polémica. Disse que não tinha meios para afastar Ricardo Salgado do BES. E lamentou não ter poderes de outros ‘colegas’: "O franzir do sobrolho do governador do Banco de Inglaterra é quase uma bomba atómica". O vice-governador, Pedro Duarte Neves, falou da estratégia da "persuasão moral" usada para afastar Salgado. Com os resultados funestos que se conhecem...

Dois dias depois, no dia 19, o ex-ministro das Finanças foi chamado ao Parlamento. Teixeira dos Santos chegou cedo, por volta das 08h30. Conhecedor dos corredores da assembleia, tantas foram as vezes que foi às comissões parlamentares e ao hemiciclo, foi distribuindo sorrisos e cumprimentos.

Uma das empregadas de limpeza disse alegremente que era muito bom vê-lo de regresso ao Parlamento, onde fazia muita falta. Teixeira dos Santos – que foi ministro mas nunca deputado – estranhou, mas não se descompôs e agradeceu com um largo sorriso. Uma assessora do PCP esclareceu o equívoco ao explicar à funcionária da limpeza que aquele não era Honório Novo, deputado comunista que abandonou o Parlamento em 2013, mas sim o antigo titular da pasta das Finanças de José Sócrates. A assessora era o braço-direito de Honório Novo, motivo pelo qual a funcionária, habituada a vê-los juntos, trocou as duas cabeleiras brancas e nortenhas.

Sikander Sattar, presidente da auditora KPMG, foi ouvido em dezembro na qualidade de presidente da auditora em Portugal. Questionado sobre os créditos do BES em Angola e com a garantia concedida pelo Estado Angolano aos empréstimos, Sattar invocou o segredo bancário angolano para evitar as respostas. Justificou que incorria numa pena de prisão. E disse ao presidente da comissão de inquérito que apenas tinha sido chamado na qualidade de presidente da KPMG Portugal.

Os partidos apressaram-se a ironizar, dizendo que iriam pedir formalmente a audição do presidente da KPMG Angola – o próprio Sikander Sattar. Ouvido à porta fechada, pouco ou nada esclareceu. Regressou ao Parlamento em janeiro, agora no papel de presidente da KPMG Angola, para voltar a nada adiantar de substancial.

O dia mais marcante da comissão de inquérito aconteceu a 9 de fevereiro, quando foram ouvidos os dois primos rivais do clã Espírito Santo. Um antagonismo tal que até se refletiu no ritmo das audições. Ricardo Salgado chegou cedo ao Parlamento e não foi visto nem a entrar nem a sair. Às 09h07 já falava aos deputados e foi esticando as respostas de tal maneira que só terminou o depoimento na comissão de inquérito já perto do final da tarde, depois de a inquirição do primo, José Maria Ricciardi, ter sido retardada por duas vezes. Foi o dia mais longo da comissão, que mal parou para as refeições. Os deputados foram enganando o estômago com pregos. Ricciardi saiu do Parlamento já pelas duas da manhã.

AS IRMÃS E OS BOLOS

Outro inimigo de estimação de Salgado depôs a 10 de dezembro. Pedro Queiroz Pereira (PQP), líder da Semapa, parecia a ‘Cristina Caras Lindas’ das empresas. Foi rindo e fazendo piadas com os deputados e a todos foi levando com um jeito fácil e um tom descontraído. "As irmãs do dr. Salgado ficam a fazer bolos em casa para vender para restaurantes e ele nunca se preocupou em defendê-las... Isto mostra muita hipocrisia", disparou PQP contra o ex-aliado.

No dia seguinte, a 11 de dezembro, foi ouvido Amílcar Morais Pires, tido como braço-direito de Ricardo Salgado. A audição começou pelas 17h00 e acabou pela 01h00 da manhã, com uma pequena interrupção para jantar. Foi nessa altura que Morais Pires cometeu a gaffe-mor da comissão de inquérito. O bar dos deputados estava à pinha de parlamentares, jornalistas, assessores e advogados.

Uma diligente deputada do PSD foi ajudar o funcionário do bar para detrás do balcão, aviando o próprio pedido e o de outros deputados. Morais Pires, depois de se deliciar com uma bifana, puxou da carteira para pagar a despesa, dirigindo-se à estarrecida deputada.

Na comissão, as frases que mais se ouvem são "não sei", ou "não me recordo". Mas poucos foram tão desconcertantes como Manuel Fernando Moniz Galvão Espírito Santo Silva, ex-chairman da Rioforte. Pelo que (não) disse, o  líder da holding que arrastou o GES para o abismo não viu e nem sabia de nada. Disse até que assinava documentos "à confiança". Demasiada sinceridade.

REVELAÇÕES EXPLOSIVAS

A 18 de dezembro chegou um dos depoimentos mais aguardados. Álvaro Sobrinho, ex-presidente executivo do BES Angola e um dos homens que afrontaram Ricardo Salgado, tendo passado de protegido a inimigo. A primeira impressão que deixou foi a deceção: o banqueiro angolano, quase desconhecido em Portugal e apenas visto numa ou duas fotografias tiradas no Campus da Justiça, era afinal um homem muito mais baixo do que aparentava.

Chocou tudo e todos ao dizer que o dinheiro concedido ao BESA nunca chegou a sair de Portugal e indignou-se quando a deputada do BE Mariana Mortágua o questionou sobre a disparidade entre o salário de um banqueiro e os bens de Sobrinho.

Os deputados ouviram José Macedo Pereira a 6 de janeiro. Amigo de Ricardo Salgado,  toda a vida lhe tratou das declarações fiscais. Disse que foi convidado para integrar os quadros do banco mas que recusou o convite: "Seria uma forma de, passados oito meses cortar relações com uma pessoa a quem devo favores,  o dr. Ricardo Salgado."

A 27 de janeiro, Hélder Bataglia, presidente da ESCOM, explicou longamente os problemas da empresa em Angola. Fez lembrar os Monty Python – até as focas foram culpadas da ruína do investimento nas pescas. Bataglia tentou detalhar o buraco na aposta nos diamantes. Dirigiu até um comentário técnico ao deputado do PCP Miguel Tiago, geólogo de formação, mas o tiro saiu-lhe pela culatra.

"Tem de explicar melhor o falhanço da ESCOM com a rocha estruturante, que nem sequer é um conceito geológico", ironizou Miguel Tiago. De propósito ou não, os depoimentos dos líderes da ESCOM  revelaram o complexo sistema montado para fugir ao Fisco nas comissões dos submarinos.

Outro caso caricato foi a audição de  Moreira Rato, ex-líder do IGCP. Fingiu  não perceber as perguntas, ora respondendo ao lado ora pedindo que repetissem as questões. A deputada Ana Paula Vitorino quase perdeu a compostura ao repetir por cinco vezes a pergunta sobre se Moreira Rato tinha sido abordado por mais alguém além de Vítor Bento quando foi sondado para a administração do BES. Só perante a ameaça do presidente da comissão, Fernando Negrão, de incorrer num crime de desobediência é que o ex-gestor do BES respondeu.

A comissão queria ouvir o empresário José Guilherme, o tal que ofereceu a Ricardo Salgado uma ‘licenciosidade’ de 14 milhões de euros. O construtor civil não pode ir a Lisboa, mas detalhou em demasia as razões. Além de viver em Angola, diz que tem dificuldades de audição e "problemas prostáticos", que levariam a que a audição tivesse de ser interrompida de cinco em cinco minutos. Vai depor por escrito.

Outro personagem que irritou os deputados foi Rui Guerra, antigo presidente do BES Angola. Escudou-se a responder às perguntas, invocando o dever de sigilo. Às tantas, provocou o desabafo da deputada Mariana Mortágua: "Temos mais pessoas a admitir que fugiram ao Fisco do que a violar o segredo bancário." A parlamentar do Bloco de Esquerda tem-se destacado. Tanto que Stock da Cunha, presidente do Novo Banco,  lê o blogue dela sobre a comissão. O nome é sugestivo: ‘Blogue Disto Tudo’.

Na quinta-feira, José Magalhães, do PS, dirigiu  a  João Pereira, ex-administrador da ESFG, uma pergunta sobre o contabilista Machado da Cruz  - o bode expiatório de Salgado -  à qual ele já tinha respondido por três vezes. Magalhães explicou a insistência citando os Rolling Stones:"I  can’t get no satisfaction!"

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