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Correio da Manhã

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Trinta dias, trinta anos

“Passaram-se trinta anos. Ele está na estação de Estrasburgo quando ela chega”
Tiago Rebelo 21 de Agosto de 2011 às 00:00
O homem estátua
O homem estátua

Conhecem-se no comboio, algures entre Portugal e França. Ela vai para Paris, ele para Berlim. Têm ambos vinte e poucos anos e viajam sozinhos. Vêem-se pela primeira vez quando se sentam frente a frente numa carruagem de passagem por Espanha.

Ele surpreende-a a espreitar por cima do livro que tem nas mãos, interessada na capa do livro que ele lê. Sorri-lhe, já leste este? Pergunta-lhe. Não, responde ela, é bom? Para dizer a verdade, não estou a adorar. E o teu? Ela encolhe os ombros, eh, já li melhor. E é o início de uma longa conversa que lhes permite conhecerem-se melhor. Vão assim, por aquelas horas todas, na companhia um do outro, sempre a falar, sem darem pelo tempo a passar.

Chegados a Paris, despedem-se com a sensação de terem uma ligação, como se se conhecessem há muito mais do que aquelas escassas horas no comboio. Mas antes, ele propõe-lhe trocarem de livros. Lês o meu e eu leio o teu, depois digo-te o que achei, e tu fazes o mesmo. Combinado, concorda ela.

Ele lê o livro dela durante o resto da viagem. Ela faz o mesmo em Paris. Em breve estão de novo em contacto, a propósito dos livros, ou tendo estes como desculpa para voltarem a falar, pois ficou-lhes uma enorme vontade de se juntarem outra vez. Atravessam a semana seguinte em permanente contacto, falando ao telefone, dizendo onde estão, o que fazem, o que pensam das coisas que vêem ou experimentam. Por fim, não resistindo à distância que os separa, acabam por combinar um encontro em Estrasburgo, a meio caminho entre Paris e Berlim. Cada um deverá tomar o seu comboio em direcção à cidade francesa, junto à fronteira com a Alemanha.

Passaram-se trinta anos. Ele está na estação em Estrasburgo quando ela chega. Abraçam-se. Falam em inglês, porque ela não sabe alemão e ele não sabe francês. Ela repara que ele agora tem o cabelo todo branco, mas de resto continua o mesmo. Também ela tem umas rugas mais, mas reconhece-lhe o mesmo sorriso juvenil de antigamente.

Já lá vão tantos anos e hoje deixaram as suas famílias por vinte e quatro horas, para se reverem. Recentemente, descobriram-se por sorte no Facebook e mantiveram o contacto, agora sentam-se num café, abanam a cabeça com um sorriso desconcertado e pensam como poderiam ter sido diferentes as suas vidas se tivessem chegado a reencontrar-se naquela época.

Tinham combinado regressar a Estrasburgo trinta dias mais tarde, mas afinal, por motivos distantes que hoje lhes parecem menores, embora determinantes na altura, só o fizeram trinta anos depois.

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