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Tropeçar na história

Durante algumas horas é possível entrar na história, viajar no tempo, deixar-se embalar pela narrativa e dar de caras com personagens de carne e osso. Durante as noites de Verão, Évora tem mais encanto.
31 de Julho de 2005 às 00:00
Tropeçar na história
Tropeçar na história FOTO: Carlos Neves
Este Verão, Évora ganha um novo encanto, à noite, com a realização, à sexta-feira e ao sábado, de algumas representações históricas que colocam o habitante ou o viajante bem no centro da narrativa.
Trata-se de um projecto de animação de rua para as noites estivais, onde a cidade ressurge como um palco de quotidianos históricos originais, contados pelos seus próprios habitantes. Nestes espectáculos, denominados ‘Évora, Noites com História’, prevalecem os traços sociais de época, retirados não só ao imaginário do espectador através de personagens intemporais e universais mas, sobretudo, à memória histórica da própria cidade, através da escolha da cenografia de vários monumentos e espaços urbanos - Catedral, Praça do Giraldo, e Igreja de S. Francisco. São, aliás, estes mesmos monumentos e espaços urbanos que suscitam a narrativa histórica do mundo medieval, da época da renascença ou dos alvores do séc. XX.
Como expressão cultural de forte identidade histórica, este projecto, da responsabilidade da edilidade, com produção da Há Cultura, procura alicerçar na cidade o conceito de turismo da memória, estimulando as vivências na cidade com a dignificação do papel cultural dos seus habitantes. Aliás, o facto da grande maioria dos figurantes serem voluntários, de diversos escalões etários, contribui decisivamente para o sucesso do evento, com a população a reconhecer-se nalguns dos episódios retratados, nomeadamente do princípio do século XX.
Esta aposta na animação de rua, que procura provocar quem passeia por entre as artérias de Évora, fazendo-os “tropeçar” num pedaço de história, tem, ainda, como factores distintivos a qualidade e originalidade das soluções cénicas, de onde se enfatizam a qualidade do guarda-roupa e o rigor histórico no respeito ao património monumental da cidade e à expressão identitária dos eborenses.
CATEDRAL E LARGO FRONTEIRO (O MUNDO MEDIEVAL)
Na escadaria da Sé tange um alaúde. Do escuro da noite, subindo as escadas do lado do claustro, um nobre com a respectiva criadagem, chega de uma caçada trazendo na mão um falcão. Detém-se a ouvir a música do alaúde e por ali fica, exibindo as suas aves, fazendo-as voar com orgulho.
Ao seu encontro, pela rua da Selaria, vem subindo uma dama com as filhas pequenas e as respectivas aias. Em frente à catedral, está um grupo de populares com as suas bancas de venda. As fruteiras disputam a atenção da dama, mas é o cesteiro quem mais a cativa. Acabará por comprar um cestinho para a filha mais nova. Entretanto, uma cigana nos seus trejeitos tenta ler-lhe a palma da mão. Mas um frade franciscano não gosta da ousadia da cigana e afugenta-a com expressões em latim. Subindo a rua da Selaria vem agora um almocreve com o burro carregado de louça. Ao passar pelo grupo de vendedores é prontamente escorraçado com gestos e insultos. A dama, contudo, achará graça às cantarinhas e acabará por comprar uma para a outra filha...
IGREJA E LARGO DE S. FRANCISCO (O SÉC. XVI)
No portal norte da igreja alguns nobres e respectivas damas cortesãs sentam-se em torno de uma mesa. Comem e ouvem música. Há alguns escravos negros sentados no chão. Por vezes disputam entre si uma peça de fruta que por graça alguma dama lance ao chão. Junta-se ao grupo de convivas um nobre que chega de liteira. Acompanham-no alguns criados. Enquanto os convivas comentam os tecidos de cor trazidos por um mercador judeu, do outro lado da rua, entre as esplanadas do largo, Maria Parda protesta com um jarro de vinho na mão.
PRAÇA DO GIRALDO (AS PRIMEIRAS DÉCADAS DO SÉC. XX)
Vindo de longe, ao cair da noite, um automóvel chega à Praça do Giraldo. Colhidos por esta visão, a criançada que brinca, o velho aguadeiro da fonte, o guarda, o mestre-escola, aproximam-se, num misto de receio e curiosidade. Os automobilistas que viajam em tão desconcertante máquina, procuram a bomba de gasolina da Praça. E trazem uma fotografia para provar que, precisamente no local onde o carro estacionou, há uma bomba de gasolina. Devia estar aí, mas não está. Os automobilistas inconformados pedem ajuda aos espectadores. Também eles os não podem ajudar... Nem mesmo o vendedor de postais ilustrados ou o ciclista que por ali passa...
Chega da Rua do Paço um trem com um casal e os seus dois filhos. Vêm passear e tomar um refresco à Brasserie e comprar o ‘Notícias de Évora’ ao ardina que deles se aproxima prontamente. Terão oportunidade de ouvir um acordeonista e um poeta popular que por ali andam a ganhar a vida.
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