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Correio da Manhã

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“Trouxemos camarada morto em Guidage”

Fiz quatro comissões no ultramar, três das quais na Guiné-Bissau. Foi aí que iniciei a minha caminhada contra-guerrilheira
6 de Março de 2011 às 00:00
Um jacaré apanhado na zona leste de Angola, no rio Zambeze, em 1967
Um jacaré apanhado na zona leste de Angola, no rio Zambeze, em 1967 FOTO: Direitos reservados

Entre 1962 e 1974 só houve o ano 1968, que estive fora do envolvimento da guerra, por estar a frequentar o curso de Sargentos. Fiz quatro comissões no ultramar três das quais na Guiné. Foi aí que iniciei a minha caminhada contra-guerrilheira.

Logo na primeira comissão, o meu destacamento foi o primeiro a ir para a Guiné, onde ainda não havia qualquer força especial. Por isso fomos uns tipificados bombeiros, chamados a intervir e/ou moralizar forças do exército em zonas mais complicadas.

Depois desta minha primeira comissão de serviço, pouca ou nenhuma vontade tinha de voltar aos confrontos da guerra. Mas uma nova unidade se começava a formar e o seu comando deveria ser entregue aos homens com experiência de guerra. Mais uma vez, não resisti aos convites dos camaradas com quem tinha fortes laços de amizade cimentados na Guiné. E é assim que entro em nova unidade, desta vez para Angola, em novo Destacamento de Fuzileiros Especiais.

As minhas três comissões na Guiné deram-me uma abrangência muito real das dificuldades que se ofereciam a quem tinha de percorrer os rios, fosse em patrulhamentos ou escoltas ao transporte marítimo. Foi muito duro para os fuzileiros ultrapassar as adversidades que envolviam as suas missões.

ANOS DE GUERRA

A Guiné, com as suas características tão especiais, teria oferecido muito maiores dificuldades às tropas portuguesas se os fuzileiros não existissem. É com um desapaixonado conhecimento de causa que afirmo: fizemos, e bem, a diferença. Sem favores, mesmo até quando um camarada nos morreu em Guidage. Não havendo condições para o recuperar, o pequeno grupo do destacamento opôs-se à ordem do comte. de zona e o militar foi mantido pelo enfermeiro fuzo, de forma a poder regressar com o grupo, mesmo morto.

Escapou a ser enterrado no campo de batalha, a exemplo de outros militares caídos em tão mortíferos combates. É com orgulho que dizemos, sem faltar à verdade, que somos a única força que nos três teatros de guerra nunca deixou um camarada para trás.

Estava na Guiné e fazia parte do grupo quando o primeiro fuzo foi ferido, e estava presente quando morreu o último, em 19 de Abril de 1974.

Participei, nos seis anos de Guiné, em muitas operações e senti a pressão exercida pelas muitas emboscadas. Cair debaixo de fogo era o pão nosso de cada dia. Calcorreei os seus rios e matas, que mantenho muito evidenciadas na minha memória. Ocasiões houve em que fomos ao limite, mas o controlo e disciplina de fogo deram frutos.

A guerra em Angola tinha muitas diferenças inerentes ao terreno – as operações duravam mais tempo, os guerrilheiros eram mais agressivos. Mas nas duas províncias, a morte era uma probabilidade. Na Guiné, a hecatombe ia dar-se mais cedo do que em qualquer das outras, logo que a aviação ficou limitadíssima ou mesmo anulada na sua operacionalidade.

Na memória tenho muita informação, devido aos oito anos vividos com excessiva intensidade. Talvez por isso tenha necessidade de falar das vivências com camaradas. Para esvaziar um pouco este armazenamento, escrevi um livro: ‘Homem Ferro, Memórias d’um Combatente’.

PERFIL

Nome: Manuel Pires da Silva

Comissões: Angola e Guiné (3 comissões), entre 1962 e 1974

Força: Fuzileiro especial

Actualidade: Aos 67 anos, é casado, com dois filhos. Vive em Corroios

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