TUDO A NU

Todos os anos as escolas de arte enchem-se de candidatos a modelo nu. Hoje a maioria é do sexo feminino, mas há uns anos as poucas mulheres que o faziam eram as prostitutas
06.06.04
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Bruno Antunes está imóvel, completamente nu, deitado no centro de uma sala rodeada por enormes janelas com vista para o Tejo. Fixos no corpo dele estão os olhares atentos de uma dezena de alunos, que tentam transpor para o papel aquela imagem de um homem em repouso. Para além da música de Mozart que se faz ouvir ao fundo, o silêncio só é quebrado pelo estalar de uma das suas articulações, que por vezes cede às longas horas de posição estática. O ambiente na aula de Desenho de Modelo do Centro de Arte e Comunicação Visual – ar.co – é inspirador.
Depois de alguns anos a viver em Bruxelas, na Bélgica, Bruno Antunes viajou para Portugal na esperança de encontrar um futuro risonho. Licenciado em Filosofia, e a tirar um doutoramento na mesma área, procurou incansavelmente por emprego. Nada conseguiu, nem como professor, nem como tradutor. “Não foi por falta de aviso, toda a gente me dizia que era maluco em vir para aqui porque isto estava muito mal, mas na realidade nunca me passou pela cabeça que o país estivesse assim tão mal”, afirma.
Após breves passagens por empregos, que pouco o estimulavam pessoal e profissionalmente, hoje Bruno trabalha “um pouco aqui, um pouco ali”. “Faço uma série de coisas relacionadas com arte, música e teatro – é o que gosto”, conta. Mas como tudo o que seja “dinheiro a mais é bem-vindo”, há dois anos decidiu candidatar-se a modelo nu. “Lido muito bem com a nudez”, justifica.
Dirigiu-se ao ar.co e preencheu uma ficha de inscrição. Pouco depois era chamado. “É uma profissão em que se ganha bem, pena que o trabalho seja pouco.” A escassez da oferta é, aliás, o único senão que o Bruno aponta à profissão de modelo nu.
O facto de fazer ioga há alguns anos é uma grande ajuda para ultrapassar mais facilmente as cerca de duas horas que passa imobilizado em cada sessão. Sono, dormência ou inquietação nunca foram problemas. “Para mim isto é quase terapêutico. É uma contraposição à vida quotidiana. Estamos sempre vestidos e numa grande correria. Estar quieto e nu para quem tem uma costela alentejana parece-me muito bem”, brinca.
A HORA DAS MULHERES
O universo dos modelos nus mudou muito desde o 25 de Abril. Antes da revolução, as mulheres que posavam eram na sua maioria de má fama (ver caixa). Com o passar dos anos e a crescente liberalização dos costumes, o panorama mudou, a ponto de hoje haver mais mulheres do que homens no ramo. E sem complexos:
“O nu nunca foi problema. Lido bem o meu corpo”, diz Raquel. “O complicado de se ser modelo nu não está propriamente na exposição física.” Começou a trabalhar como modelo nu porque sempre gostou de tudo o que estivesse relacionado com a cultura e o desenho. Uma paixão que julga ter-lhe sido incutida pela mãe, professora de Educação Visual.
Natural de Lisboa, diz-se uma “mulher de muitas profissões”. No entanto, a partir do momento em que tomou conhecimento da existência de modelos nus, dedica-se exclusivamente a posar para os alunos do curso de Iniciação ao Desenho. Já lá vão três anos. Para ela é “uma profissão como todas as outras”. Assim como para o namorado, que, segundo Raquel, “não se incomoda nada” com aquilo que faz. “Ele até já veio substituir-me algumas vezes”, reforça. O mesmo já não pode dizer do seu pai: “Já se habituou à ideia mas não morre de amores pela minha profissão”, conta.
E sem querer alongar-se mais no assunto remata: “Faço a minha vida.”
Problema maior para a Raquel na profissão de modelo nu são as poses mais prolongadas. “Provocam-me imensas dormências no corpo.” Situação que, no entanto, já vai conseguindo resolver através de alguns exercícios mentais.
SITUAÇÕES DE EMBARAÇO
Luís Carmo já passou por situações bem mais embaraçosas. Trabalha como modelo nu há treze anos e confessa que lhe aconteceu “aquilo que nem sempre o homem consegue evitar”. E acrescenta: “Quando me apercebo disso, só consigo fazer com que não vá muito adiante.” São alturas em que o melhor a fazer é, segundo Luís, tentar controlar a respiração. Para além disso, revela ainda que é costume agir como as crianças. “Fecho os olhos e tento pensar que estou noutro sítio para não ter que ver as reacções das pessoas.”
Quando nada de inesperado lhe acontece, Luís, de 35 anos, diz que passa as longas horas de pose a pensar na vida, deixando-se absorver pelos seus pensamentos. “É uma forma de me abstrair daquilo que está à minha volta e conseguir uma maior concentração.”
Iniciou a actividade de modelo nu com 22 anos, tinha acabado de sair da tropa. “Não tinha o que fazer e achei boa ideia trabalhar como modelo para ganhar algum dinheiro.” Entretanto, licenciou-se em Filosofia, e está a fazer um mestrado nessa área, mas como não arranja colocação para leccionar em nenhuma escola, continua a trabalhar “naquilo que aparece” na Sociedade Nacional de Belas-Artes. “Gosto do facto de saber que estou de alguma forma a contribuir para a arte.”
NO TEMPO DAS PROSTITUTAS
No início do ano lectivo é frequente as Escolas de Arte do país receberem uma grande quantidade de candidaturas de homens e mulheres que, tal como Bruno, estão interessados em posar nus, seja pelo dinheiro, seja pelo gosto à arte. “Há milhares de candidatos a modelos”, reforça Quintino Sebastião, responsável e coordenador do curso de Iniciação ao Desenho da Sociedade Nacional de Belas-Artes, chamando a atenção para o facto de hoje a maioria dos interessados serem mulheres e estudantes. O professor do curso de Iniciação ao Desenho garante ainda que, ao contrário do que se pensa “as mulheres lidam muito mais à-vontade com o seu corpo do que os homens”.
“No meu tempo de estudante as mulheres que faziam modelo nu eram as prostitutas”, recorda Quintino Sebastião. Mas, nos dias de hoje, o retrato de que nos fala este professor/escultor encontra-se bastante desviado da realidade.

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