Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
1

Tudo acontece nas campanhas eleitorais

Agressões. Mortos. Debates polémicos. Gafes. Música popular. Antes das eleições de 5 de Junho, recorde as campanhas passadas
22 de Maio de 2011 às 00:00
Mário Soares comemorou 66 anos na campanha de 2005
Mário Soares comemorou 66 anos na campanha de 2005 FOTO: Acácio Franco, Lusa

Decorria o ano de 1986. Mário Soares, em campanha presidencial pelo Algarve, circulava na habitual caravana de carros com apoiantes. Na região de Faro, à beira da estrada, estava um grupo de crianças com as respectivas professoras – nesse ano até as crianças gritavam o slogan "Soares é fixe e o Freitas que se lixe". Foi então que "o dr. Soares saiu do carro e distribuiu beijos por alguns dos miúdos, até que levantou um deles ao colo e só depois viu que esse já tinha barba, era um adolescente anão" – recorda um dos elementos da comitiva, que acrescenta: "Ele nunca se embaraçava. Resolvia e toca a andar. Tanto que ele gosta de contar estas histórias".

Passaram 25 anos. As próximas Legislativas, marcadas para 5 de Junho, já se sentem nos ânimos. E para apimentar a pré-campanha, o hino do PSD, por exemplo, confundiu ao pedir uma mudança "com Passos Coelho" mas que soava "está na hora de mudar... Passos Coelho". Mas também Eduardo Catroga foi marcante ao dizer: "Em vez de andarem a discutir as grandes questões que podem mudar Portugal, andam a discutir – passe a expressão – pentelhos". Desde sempre que são muitos os episódios memoráveis das campanhas eleitorais.

MARINHA GRANDE EM FOGO

Ainda em 86, viveram-se momentos de tensão e de violência: "O dr. Soares tinha saído da Nazaré e ia a caminho da Marinha Grande. Estava a dormir quando foi abordado por um socialista que conduzia um Mini com uns altifalantes de campanha e que ao cruzar-se com ele na estrada lhe disse: "Não vá para lá que o matam" – conta José Manuel dos Santos, seu assessor desde 1978 até ao final da Presidência de 1996. "Ah é? Então vamos para lá", terá dito Soares.

Estacionaram no largo da Câmara e avançaram para a multidão de manifestantes, que estava armada com paus. "Desataram à cacetada. O agente Paulo, da segurança pessoal do dr. Soares, ainda levou com um pau na cabeça, que lhe abriu o sobrolho. Éramos só uns cinco ou seis. Mas ainda assim conseguimos tirar-lhes alguns paus e com eles também lhes batemos. De facto, foram para lá ambulâncias, mas não para nós" – recorda um elemento da comitiva que prefere não ser identificado.

Mário Soares voltaria a viver, na campanha de 2005, momentos de tensão semelhantes em Barcelos, quando um ex-combatente lhe gritou: "Vigarista". E desafiou: "Vai assaltar o Banco de Portugal para comprar armas para dar aos turras para atacarem o Ultramar". A mesma fonte da campanha conta que se falou em "tentativa de agressão, mas isso foi empolar a coisa. Eles estavam a uns metros largos de distância".

Mas foi também em 2005 que Mário Soares, divertido, comemorou em plena campanha o seu 66º aniversário, com dois chapéus cónicos na cabeça a dizer "parabéns". Nesse ano, as mulheres viravam-se para Soares e diziam-lhe: ‘Ainda dava uma volta consigo’. Resposta dele: "Com a minha idade!? Só se fosse para currículo!"

Para o politólogo José Adelino Maltez, "a campanha eleitoral é um momento de festa, de libertação; um porco no espeto, um comício para entusiasmar o militante". Neste contexto, "as gafes são apenas instantâneas porque não são suficientemente graves para serem duradouras. Quem se lembra das gafes de Fernando Nobre? Ninguém. E de Catroga? Mais uma semana e ninguém. Agora, quando as gafes duram é porque fazem rir. Este é um País que elege como autarcas corruptos condenados", acrescenta.

"Felizmente não há mortos, porque já os houve em campanhas em Portugal. São clássicos os episódios do fim da monarquia constitucional. Mas até meados dos anos 80 ainda havia episódios de violência, que impediam o exercício livre da campanha". Recuando a Junho de 1976, Ramalho Eanes "teve que subir para cima de um carro por causa dos tiros", recorda o politólogo. Confrontos que causaram um morto, por altura da deslocação a Évora daquele que viria a ser eleito Presidente da República.

Fatal foi ainda a campanha de Sousa Franco, em 2004. O cabeça-de-lista do PS às Europeias saiu abruptamente da Lota de Matosinhos após fortes desacatos entre membros da concelhia do PS. Sousa Franco viria a sofrer um ataque cardíaco pouco tempo depois. Faleceu.

A violência, de resto, é uma constante que mancha a memória das campanhas. Muitos episódios se passaram no Barreiro – cidade a que chamavam a Moscovo de Portugal: em 1985 ouviram-se tiros à passagem de Almeida Santos por este bastião comunista; em Janeiro de 1986 os apoiantes de Salgado Zenha partiram o pára-brisas de um autocarro de campanha de Mário Soares e, depois, aos abanões, tentaram virar a viatura; em 1996 trocaram-se insultos com a comitiva de Cavaco Silva. Já em Lisboa, Vital Moreira, cabeça-de-lista socialista às Europeias de 2009, provou da fúria do povo ao ser agredido quando se juntou à manifestação do 1º de Maio da CGTP.

O PESO DA TELEVISÃO

As eleições sempre foram mediáticas. Mas a televisão veio dar-lhes um novo peso e, o poder das imagens, um carácter inesquecível. Ainda na última quarta-feira, o debate político na RTP ficou marcado por incidentes provocados pelo candidato do PTP, José Manuel Coelho, que ostentava uma cartaz dizendo ‘Não podem calar o povo’, o que irritou alguns dos outros seis candidatos dos pequenos partidos. Garcia Pereira, do PCTP/ /MRPP, classificou esta acção de "palhaçada e uma coelhada" e ameaçou abandonar o estúdio. O incidente forçou a um intervalo.

Noutro debate, desta vez num confronto para as Legislativas, em 2005, entre José Sócrates, Pedro Santana Lopes, Paulo Portas, Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa, o secretário-geral do PCP ficou afónico. Teve apenas quatro minutos de intervenção até que a voz lhe traiu a vontade de falar. Elementos do PCP tentaram, em vão, arranjar mel ou rebuçados.

No mesmo ano, na disputa pela Câmara de Lisboa, Manuel Maria Carrilho e Carmona Rodrigues protagonizaram um debate televisivo cheio de atritos. No final, Carrilho recusou-se a apertar a mão ao seu opositor, provocando a reacção de Carmona: "Não cumprimenta!? Grande ordinário!"

Também em directo para a televisão, mas dez anos antes, António Guterres, que se candidatava às Legislativas de Outubro de 1995, falou e fez mal as contas: "O PIB são cerca de três mil milhões de contos, portanto, seis por cento... seis por cento de três mil milhões... seis vezes três dezoito, um milhão e... um milhão... ou melhor... portanto, é fazer a conta".

Também com as contas mal feitas, Almeida Santos sabia em 1985 que precisava de 43 por cento para ganhar as eleições. Mandou fazer cartazes ‘PS: 43%’. Acontece que na votação não foi além dos 20,8 por cento.

Curiosamente, Cavaco Silva sempre foi conhecido pela sua gestão dos silêncios prolongados. E foi o que se viu durante a campanha presidencial, de Janeiro de 1996, quando ele evitou as perguntas dos jornalistas, cercado por uma multidão, comendo uma fatia de bolo-rei.

Outros momentos memoráveis acontecem também quando a família se junta às campanhas: Margarida Sousa Uva, casada com Durão Barroso, dedicou ao marido o poema ‘Sigamos o Cherne’, de Alexandre O’Neill, nas Legislativas de 2005.

Em 1991, a mãe do candidato presidencial Carlos Marques, Marianita Martins, resumiu a forma de ser do filho, afirmando que via nele "a preocupação de imitar Jesus Cristo".

Não menos importante em campanha é a música. Esquecendo a de intervenção de outrora, Santana Lopes escolheu o hino ‘Menino Guerreiro’ para concorrer contra Sócrates em 2005: "É triste ver este homem/ Guerreiro menino/ Com a barra de seu peso/ Sobre os seus ombros", diz o refrão.

Uma década antes, o candidato do Partido Popular, Manuel Monteiro, escolheu "a música que estava na moda, que tocava tanto na discoteca da Quinta do Lago como no bairro social", recorda Monteiro. ‘É o bicho, é o bicho’, de Iran Costa, tocava em todos os comícios até que uma coreografia com alto ‘teor sexual’ separou a música da política, para bem da política.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)