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NO livro ‘os filhos do zip-zip’ Helena Matos percorre o tempo de uma geração, a que viveu na década de 1970, num novo Portugal elena Matos percorre o tempo de uma geração, a que viveu na década de 1970, num novo Portugal
17 de Março de 2013 às 15:00
Francisco José Viegas, as escolhas de, Zip Zip, Helena Matos
Francisco José Viegas, as escolhas de, Zip Zip, Helena Matos

Como era o nosso mundo, a esta distância de quarenta e três anos? Eu recordo. Havia um anúncio sobre como era tão barato tomar duche com o gás da Gazcidla. Um cavaleiro branco era transportado pelo detergente Ajax. Triple-Marfel tinha "a camisa do homem que as mulheres preferem". O meu pai fumava Porto gigante – um dos meus tios fumava Kart, que prometia "quilómetros de prazer", e ainda não tinham chegado os Negritas. Os glutões do Presto dançavam em todos os tanques de lavar a roupa. Carros da época: a Citroën Dyane, necessariamente – e o pequeno BMW 2002, para não mencionar a R4, o Ami 8, o simpático NSU japonês, o Morris 1000 ou o Vauxhall Viva. Era o tempo dos fascículos colecionáveis de ‘A Fauna’, do toureiro Ricardo Chibanga, dos Livros RTP, do lançamento de ‘Esteiros’, o primeiro volume da coleção de bolso Europa--América, de Tenessee Williams na coleção Três Abelhas, do filme ‘Love Story’, da vinda de Elton John a Vilar de Mouros, do lançamento de um jornal chamado ‘Expresso’ ou de um livro intitulado ‘Portugal e o Futuro’.

Programa de TV

E o que unifica tudo isto? Um programa de televisão, como hipótese: ‘Zip-Zip’. O programa que transportaria consigo um trio que marcou a história da televisão portuguesa pelos anos setenta fora – Raul Solnado, Fialho Gouveia e Carlos Cruz – e cujo palco pode, hoje, ser considerado uma plataforma de onde partiram ventos de mudança ou de ‘modernização’ do país. Tão simples assim? Às vezes, sim, como nos explica Helena Matos no seu ‘Os Filhos do Zip-Zip’, que leva o esclarecedor subtítulo ‘Portugal nos anos 70 – A televisão, os brinquedos, os primeiros supermercados, a vida nas urbanizações dos subúrbios’. O ‘Zip-Zip’ iniciou as suas emissões na RTP em maio de 1969, quatro meses depois da primeira das ‘Conversas em Família’ de Marcello Caetano – e nenhum português que tenha atravessado a revolução e a democratização em plena idade adulta se há de, algum dia, esquecer da importância do programa e das picardias que ele soube praticar com cuidado e riso. Mas o livro de Helena Matos não é sobre o ‘Zip-Zip’ e, sim, sobre o mundo que formou os filhos do ‘Zip-Zip’, sobre que mundo eles caminharam, sobre o fim do Portugal rural como modelo determinante e o crescimento dos subúrbios edificados (lembram-se dos empreendimentos J. Pimenta?), com que imagens foram eles formados e que país foi desenhado a partir de 1970, no fio da navalha da guerra em África e dos muros que fechavam a "metrópole" numa Europa que tinha passado por mudanças extraordinárias e por uma agitação impensável há uma década. Helena Matos percorre connosco esse tempo, lendo os jornais, anotando os anúncios publicados, procurando nas pequenas notícias os sinais de uma mudança. Serve, por isso, de roteiro para essa época e, sobretudo, para a nossa. No fundo, os filhos do ‘Zip-Zip’ começam a ser agora apeados do poder. Estão a ceder o lugar, finalmente. 

Autora: Helena Matos, Edit. esfera dos livros

 

Música
Coro do Teatro de São Carlos e Orquestra Sinfónica Portuguesa
Salvo erro, 21 de março é o início da primavera, o Dia da Poesia, o Dia Europeu da Música Antiga, o Dia da Árvore. Num dia assim, oiça o Coro do Teatro de São Carlos e a Orquestra Sinfónica Portuguesa. A promessa é Wagner, Verdi, Britten, Joly Braga Santos ou Frederico de Freitas. A direção é de Martin André.
Local: CCB, lisboa _(5.ª feira, 21h30)
+ info: http://tnsc.pt/

 

 

Música
‘Requiem’
Se há peça que determinadas passagens me fazem temer a eternidade, a morte, as sombras, é esta: o ‘Requiem’, de Verdi. A Casa da Música incluiu-a na programação, juntando a sua orquestra e coro a Michael Spyres (tenor), Karina Flores (soprano), Ekaterina Semenchuk (meio-soprano) e Christo- phoros Stamboglis (baixo), sob a direção de Michail Jurovski.
Local: casa da música, Porto (6.ª feira, 21h30)

 

Livro
‘O Estranho Dever do Cepticismo’
Mário Mesquita foi diretor do DN nos seus bons tempos (comparar com os dias de hoje dá para rir de tristeza) e colunista em vários jornais. Em nenhum abdicou das suas ideias, mas soube sempre confrontar-se com elas. O resultado é um conjunto notável de crónicas a que não falta a marca de uma inteligência tranquila e, por vezes, sibilina.
Autor: Mário Mesquita, Editora: Tinta da China

 

Fugir de
‘Argo’
Um filme desagradável, cheio de lugares-comuns e que, às vezes, se parece muito com um candidato a possível série televisiva de ‘conspiração política’. Ben Affleck está, como de costume, mal; o argumento está cheio de buracos e o pano de fundo político não basta para que o filme suba na nossa consideração. É ‘uma americanada’, mesmo que tenha a bênção de Santo Obama. Foi isto que teve Óscares.

Francisco José Viegas as escolhas de Zip Zip Helena Matos
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