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Um abandono brutal

Em ‘Serotonina’ há falta de amor, falta de felicidade, falta de vida. Houellebecq é cínico, mas sincero e incorreto.
Francisco José Viegas 28 de Julho de 2019 às 06:00
Um abandono brutal
Um abandono brutal FOTO: Getty Images

O romance de Michel Houellebecq, ‘Submissão’, teve uma dramática conjugação astral: não só tratava da hipótese de uma vitória eleitoral (em França) de um candidato presidencial muçulmano —     como     foi     lançado     no     dia     dos atentados no jornal ‘Charlie Hebdo’. No dia seguinte, fui procurá-lo numa livraria, em Paris, e deparei com ele escondido atrás de duas pilhas de outros livros.

Também aqui um duplo sentido: não só se tratava de um livro polémico e "perigoso" para as circunstâncias da época e a ameaças permanentes de atentados reivindicados ou atribuídos a extremistas islâmicos, como se tratava de um livro de Houellebecq – e invocar o nome de Houellebecq era, só por si, uma ameaça ao bom nome dos leitores. Também sobre ele pendiam diversas ameaças: misoginia, machismo, islamofobia, racismo, homofobia, desprezo pela humanidade em geral, cinismo, niilismo.

Que os seus personagens desprezem a humanidade, parece normal: na verdade são "sombrios", dizem banalidades, vivem banalidades, têm atrevimentos de revoltados da classe média, sofrem as agruras da classe média francesa.

Neste caso, o de ‘Serotonina’, a biografia de Florent-Claude não segue uma linha reta: de desenraizado urbano casado com uma japonesa mais nova (e que o trai em interessantes e pornográficas sessões de sexo), passa a revoltado urbano e a observador cínico, lá está, da própria vida da nova burguesia parisiense, ecológica e ‘civicamente correta’, depois de abandonar a jovem aos enleios da ‘vida cultural’. É depois disso – e de várias bebedeiras – que regressa à Normandia para observar como é triste o mundo rural e destrutivo o destino dos agricultores.

‘Serotonina’ é de uma amargura desconexa e brutal, exagerada e às vezes desnecessária (a invocação das cenas sexuais coletivas de Yuzu, a japonesa, cheia de "embriaguez narcísica", por exemplo) – mas Houellebecq toca num ponto fundamental: a miséria pós-humana em que vivemos, cheia de hipocrisia,     separação     de     lixo     e consciência ecológica. Pelo meio, assassina toda e qualquer hipótese de inocência, a começar pela ausência de serotonima (a hormona do bem-estar, da auto-estima, da felicidade) nas nossas vidas.

Respeitar os clássicos
Um dia deixaremos de conhecer os restaurantes de antanho – e alguns farão falta. Um deles é o Galito. Saladinhas? Sim, de favas, coelho ou pimentos. Costeletinhas de borrego, perdiz frita ou de escabeche, sopa de tomate ou de beldroega, arroz de favas com carapau frito – que é vos hei-de dizer? Que tudo tem o seu preço.

Bach para iluminar o Verão
Há uns anos, o Cellini Consort lançou ‘Sweet Melancholy’, onde reunia peças com transcrição para trio de viola, de Byrd a Purcell, passando por Locke. Agora, fazem o mesmo com Bach, incluindo a Suite Francesa e o Concerto Italiano. Certas interpretações (a Sonata em Sol maior BWV 1028) são luz prodigiosa para este verão inquieto.

A PIDE que foi a PIDE
Apesar de conhecer bem os livros do autor, comecei a ler ‘Morte à Pide!’ com receio de se tratar de uma revisão dos acontecimentos de 1974. Errado: A. Araújo obriga-nos a enfrentar a morte da polícia política, as contradições do novo regime e as interrogações que se colocam às gerações que hão-de estudar o caso. Brilhante.

Fugir de:
Arte pública
Não sei o que se pode fazer em situações semelhantes, mas já vos falei da coleção de trambolhos em mármore de que dispõe a vila da Sintra (a acompanhar os turistas que vão ao Palácio Nacional ou aos travesseiros da Periquita), e ainda não me refiz do painel de tijolos da praia do Tamariz – a ideia de uma petição pública para demolição irrevogável é hipótese a ponderar. Convinha que os municípios portugueses não nos atormentassem com a exibição de pedraria à vista de todos, e cuja qualidade essencial é lembrar-nos os piores horrores do inferno da parolice.

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