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Um abraço na palma da mão

“A curta mensagem que o Jorge me deixou foi simples como ele o é: ‘ei Carlão... daqui Palma. Só para te mandar um abraço...’”
27 de Junho de 2010 às 00:00
Um abraço na palma da mão
Um abraço na palma da mão

Há coisas impagáveis: hoje ouvi uma mensagem de voz do Palma, que não sendo o melhor amigo, é daquelas pessoas que me consegue fazer encher o ego e a alma – e isso é obra, porque regra geral trato deles à vez. Um dos melhores escritores de canções que este país já viu, ainda consegue ser uma pessoa porreira como poucas, e isso também é obra, porque muitas vezes o génio artístico retira as capacidades humanas mais básicas – é um pouco como se dissessem: "Ok, vais ter o dom de fazer coisas brilhantes, fora do alcance do comum mortal, mas enquanto pessoa irás deixar algo a desejar, vais ser um pouco intratável, ou, numa palavra, merdoso. Desculpa mas é assim que funciona, enfim, não se pode ter tudo".

Ouvi o telefone mas fiz de conta que não, e quando mo alcançaram já tinha ido para o atendedor de mensagens. Há semanas em que praticamente não consigo atender o telemóvel – apetece desligar-me de tudo, de todos, e começo por aí. Se não me conhecesse melhor, poderia supor que sou maníaco-depressivo, já que passo muito facilmente da euforia e hiperactividade criativa para o torpor depressivo. Não fiando, é melhor deixar-me estar quieto e não mexer muito no assunto, até porque hoje em dia a palavra "bipolar" anda na boca de demasiados médicos com alguma urgência em passar receitas após dois dedos de conversa, e assim como assim já tenho medicamentos suficientes no quarto de banho.

A curta mensagem que o Jorge me deixou foi simples como ele o é: "ei, Carlão... daqui Palma. Só para te mandar um abraço... Apeteceu-me! Tchau". Se tivesse atendido o telefone – e ao ver quem chamava havia boas hipóteses de o fazer – o efeito não teria sido o mesmo. Não estava com grande disposição. Assim recebi um abraço que assentou longo e quentinho. Revendo as nossas trocas de sms, descubro uma ainda antes da última vez que estivemos juntos, que foi no Funchal com o maestro Rui Massena, para o espectáculo ‘Juntos pela Madeira’. Tinha-lhe escrito às cinco da manhã, a vir de um concerto no norte, porque a minha miúda tocava o ‘Bairro do Amor’ no leitor do carro. Ele respondeu: "este é dos momentos em que sabe particularmente bem receber este teu abraço". Desta vez foi a mim que me soube bem, amigo.

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