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Correio da Manhã

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Um amor novo

“Ele abraça-a, beija-a, ajuda-a a tirar o casaco que lhe atrapalha os movimentos”
Tiago Rebelo 2 de Outubro de 2011 às 00:00
O homem estátua

Ela sai do comboio e atravessa um longo corredor dourado, moderno, de tecto abobadado, que faz lembrar o interior de uma estação espacial. Percorre aquele corredor a caminho da rua para apanhar um táxi. Os saltos altos ressoam nas paredes de azulejo. A cada passo, ela consegue distinguir o toque das suas botas de todos os outros, homens e mulheres, que a acompanham na travessia entre o cais e a rua. Veste calças de pele pretas, top azul-marinho, casaco de cabedal preto, leva uma carteira preta pendurada no braço.

Chegando à rua, dá com uma fila enorme para tão poucos táxis. Em poucos minutos, os carros desaparecem todos. Ela olha para o relógio, são quase vinte horas. Tem um compromisso à noite e está atrasada. É um amor novo que a faz sorrir ao pensar nele, fá-la sentir-se ansiosa por o reencontrar. Passa o peso do corpo de uma perna para a outra, impaciente. Tira o telemóvel da carteira e liga o número dele, debalde, atende-lhe uma gravação. Envia-lhe uma mensagem escrita a dizer que não chegará à hora combinada.

Finalmente apanha um táxi, mas chega mais de três quartos de hora atrasada. Ele espera-a à porta do restaurante, abre-lhe a porta, estende-lhe a mão. A mesa reservada foi-se. Não vieram à hora, é sábado, explica o empregado, pondo uma expressão de pesar. Saem para a rua, vão procurar outro restaurante. Não encontram uma mesa livre, só se quiserem esperar uma hora, dizem-lhes sempre.

Estão esfomeados, acabam a comer um cachorro-quente à beira de uma roulotte. Não estamos nos nossos dias, comentam, a rir-se, quando começa a chuviscar e têm de se abrigar debaixo de um toldo. Refugiam-se num bar ao acaso, mas está sobrelotado e não conseguem acercar-se do balcão para pedir uma bebida. O ambiente é sufocante, toca uma música tão alto que os impede de se ouvirem. Sorriem um ao outro, encolhem os ombros. Ele faz-lhe sinal para se irem embora, interrogativo, ela faz que sim com a cabeça.

Lá fora continua a chuviscar. Decidem ir para casa dele, mas não há táxis. Vão a pé. Já estão perto quando a chuva começa a cair com mais força. Percorrem o último quarteirão a correr. Entram em casa encharcados, a rir alto, divertidos. Riem-se da noite catastrófica. Ele abraça-a, beija-a, ajuda-a a tirar o casaco que lhe atrapalha os movimentos, deixam-no cair no chão.

Encaminham-se para o quarto, deixando um rasto de roupa molhada na sala, pelo corredor. Caem abraçados na cama, felizes. Tudo é novo um no outro, nada lhes afecta o prazer de estarem juntos. Nem sequer pensam nisso, mas um dia vão lembrar-se daquela noite desastrosa com uma nostalgia no rosto.

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