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Um antepassado do Mato Grosso

“Formado em Coimbra, o antepassado dos Arcos foi juiz para lá de Cuiabá, onde a lei não devia chegar actualizada nem ter de vontade em ser aplicada.”
António Sousa Homem 14 de Outubro de 2012 às 15:00
O Alto Minho em fotografias antigas

Além do Tio Alfredo, que viveu a maior parte da sua vida nos sertões do Pernambuco (de onde regressou para se fixar numa quinta perto de Afife), no meio de plantações de açúcar e de ameaças de insectos, a família manteve boas relações com o Brasil. Em vésperas da época de Juscelino Kubitscheck, passei uma temporada carioca no velho Hotel Glória, e o escritório do velho Doutor Homem, meu pai, mantinha laços muito cordiais com os seus correspondentes brasileiros. Mas, além disso, na viragem para o século XX, um primo relativamente afastado, dos Arcos, foi colonizador do Mato Grosso. A designação é lata e um pouco indefinida, mas serviu sempre para recordarmos que nenhuma latitude escapou à curiosidade, ao espírito de aventura ou ao natural heroísmo do Homem.

Seja como for, Bernardo Atães Homem figura nas nossas genealogias como um parente que abandonou o Minho para se fixar na aridez (julgávamos nós) do Mato Grosso, onde devia, para cumprir o destino de aventureiro, criar gado, deixar descendência e plantar milho. Não foi assim. Formado em Coimbra, o antepassado dos Arcos foi juiz para lá de Cuiabá, onde a lei não devia chegar actualizada nem ter vontade em ser aplicada. Ao contrário do Tio Alfredo Augusto, que diluiu certa mágoa de juventude nas tarefas de empresário, e dos de antigamente, o nosso representante no Mato Grosso aplicava o Código entre as piranhas do Pantanal, servindo-se das suas reminiscências do Direito Romano e das sentenças do mundo civilizado.

Parte da família desconhece-o em absoluto. Eu sei o nome e pouco mais: data de nascimento, data de embarque para o Brasil e uma vaga suspeita de que nunca regressou, entretanto, ao Minho natal. Morreu, pois, longe da família, que na época vivia atormentada pelo curso da República e convertida à modéstia dos nossos avós.

Imagino-o, uma vez ou outra. Há um retrato seu, a sépia, no casarão de Ponte de Lima, escondido atrás de umas barbas maçónicas; a definição era da Tia Benedita, para quem o simples facto de se ter fixado no Brasil (de onde, como acreditava o dr. Salazar, vinha quase toda a imoralidade) se tornava suspeito.

Ao contrário da maioria das famílias que prezam a sua genealogia, os Homem nunca esconderam os seus bandoleiros, categoria em que entra um juiz de comarca no Mato Grosso. A minha sobrinha Maria Luísa aprecia aquilo que ela chama "o espírito de aventura"; a Tia Benedita, a matriarca miguelista da família, gabava-lhes a ousadia de terem deixado o Minho para se embrenharem no desconhecido (que começava na margem esquerda do Douro).

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