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Um futuro pior

‘Os Cobradores’ passou à margem do circuito das salas de cinema mas está em DVD. Jude Law é o protagonista de uma terrível fábula futurista.
Joana Amaral Dias 17 de Outubro de 2010 às 00:00
Um futuro pior
Um futuro pior

A história do corpo humano tem um denominador comum: a tentativa de o dominar. Logo no seu início, a Filosofia perspectivou-o como oposto ao espírito, devendo ser disciplinado. Na célebre metáfora do diálogo platónico Fedro, esse corpo-excesso, corruptível e rebelde, foi comparado a cavalos conduzidos por um cocheiro representando a alma.

O catolicismo acentuou este antagonismo, culpando a carne de todos os males. Já o iluminismo separou-a da razão. A modernidade e as suas instituições hospitalares separaram o corpo do corpo. Hoje, assiste-se à derradeira tentativa de desmaterialização desses cavalos desenfreados, tentando domá-los através da técnica. O corpo é vacinado, medicado, autopsiado, estilizado, operado, geneticamente modificado. Hoje, já todos incorporamos um pouco da tecnociência que nos permite, pelo menos, estar vivos.

E no futuro, como será? ‘Os Cobradores’ tenta supor esse amanhã. O filme (que foi directamente para DVD) desperdiça o bom ponto de partida e os bons actores. Mas como, mesmo assim, funciona como um ecrã, permitindo ao telespectador imaginar, merece esquecer os erros.

VEROSÍMIL

O que fica, realmente, é a interrogação sobre o funcionamento dos serviços de saúde daqui a 15 ou 20 anos (neste caso, nos EUA). O avanço da ciência permite resolver problemas que outrora significavam apenas morte. Corações, rins, olhos ou pernas, tudo pode ser transplantado. Mas, num país em que saúde tem quem a pode pagar, os órgãos são vendidos como casas ou electrodomésticos: a prestações, com juros agiotas.

Portanto, em caso de incumprimento do contrato, a empresa rent-a-body reapodera-se do "produto", de forma cruel, deixando os caloteiros moribundos e com um buraco. Um detalhe: um desses cobradores é interpretado pelo James Dean do século XXI. Mas, numa ficção em que os corpos são melhorados como o tuning modifica os carros, Jude Law surge fisicamente muito desfavorecido, quase sujeito a operações anti-plásticas.

‘Os Cobradores’ é pura ficção científica ou hiper-realismo? Apesar de altamente especulativo, a sua trama é também bastante verosímil. E o final acentua a impossibilidade do indivíduo triunfar sobre a ganância dos monopólios. Afinal, o corpo foi separado da alma na exacta medida em que a sociedade também foi apartada da sua. 

RESUMO

Num futuro próximo as pessoas podem melhorar os seus corpos, trocando órgãos danificado por substitutos artificiais. Mas é dispendioso, e se não conseguir pagar as prestações os órgãos serão recuperados pelos cobradores. Jude Law é ‘Remy’, um dos melhores cobradores. Quando ele se atrasa nas prestações do seu novo coração, ‘Jake’ é enviado para arrancar-lhe o coração. ‘Remy’ junta-se a ‘Beth’ na fuga aos cobradores, tornando-se num herói.

TÍTULO ORIGINAL

‘Repo Men’

REALIZADOR

Miguel Sapochnik

INTÉRPRETES

Jude Law e Forest Whitaker

EXTRAS

Cenas Cortadas; efeitos especiais; Comentário Áudio de Sapochnik e dos Argumentistas

CINEMA: ‘SÓ ELES’

"Esta longa-metragem, realizada com delicadeza, centra-se nas dificuldades de um pai em se desenrascar sozinho, trabalhando e cuidando dos filhos. Mas se a "entalada" fosse uma mulher, será que a sua vida dava um filme?"

RESUMO

Comédia romântica inspirada numa história verídica que tem como ponto de partida a situação do jornalista ‘Joe Warr’ que se vê sozinho com os seus dois filhos.

Realizador: Scott Hicks

Intérpretes: Clive Owen

Exibição: Nos cinemas

CINEMA: ‘LOLA’

"Quem se dispuser a seguir o percurso destas duas desgraçadas lolas (avó, em filipino) deparará com um neo-realismo nublado e de forte precipitação. O filme cru vale pela denúncia, empatia e pela multiplicação dos pontos de vista".

RESUMO

Duas avós vêem os netos envolvidos num crime – um deles é a vítima, o outro o suspeito.

Realizador: Brillante Mendonza

Intérpretes: Anita Linda e Rustica Carpio

Exibição: Nos cinemas

CD: ALOE BLACC

"Tem uma moedinha? Não, não se trata da frase de um arrumador, mas antes do single ‘I Need a Dollar’ do novo álbum de Aloe Blacc. O músico volta à soul. E a música soul vota ao protesto e à política. Seja muito bem-vinda".

RESUMO

Aloe Blacc é um intérprete norte-americano. O seu primeiro trabalho é de 2006, ‘Shine Through’, e foi lançado pela Stones Throw Records.

Título: ‘Good Things’

Género: Soul

FUGIR DE...

SUZANNE VEGA

"Em 1986, ‘(my name is) Luka’ invadia o espaço sonoro e televisivo. Um quarto de século depois, a baladeira Suzanne Vega é um daqueles casos de fama de uma só canção. Já nem é sombra do que nunca foi. Ideal para acompanhar um anúncio de café instantâneo".

Concerto: Suzanne Vega

Local: Hard Rock Cafe, Avenida da Liberdade, nº 2, em Lisboa

Data: 25 de Outubro (22H30)

Bilhetes: 20 euros (à venda no local)

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