Barra Cofina

Correio da Manhã

Mais CM
6

Um homem apaixonado

“Agora, à beira dos oitenta anos, só sai de casa para ir acabar o dia à entrada da barra (...)”
Tiago Rebelo 8 de Maio de 2011 às 00:00
Um homem apaixonado
Um homem apaixonado

A entrada do porto, com os seus faróis de sinalização, um de cada lado do canal, é o seu lugar preferido para ir acabar o dia. Em tempos, já lá vão muitos anos, deixou de trabalhar, de se divertir, de ter interesse fosse pelo que fosse, enfim, deixou de viver, por causa de uma mulher, de um amor que perdeu. Ela deixou-o, refez a sua vida e nunca mais quis saber nada dele. Em contrapartida, ele soube sempre dela, velou pelos seus passos, chegou a ajudá-la quando ela precisou, sem lhe dizer.

Não voltou a querer outra mulher porque nenhuma o satisfazia como aquela que continuava a preencher todos os seus pensamentos, os seus sonhos. Durante trinta anos acompanhou a vida dela ao longe sem se revelar, recorreu a expedientes de espião para se inteirar do que ela ia fazendo, do que lhe acontecia, se ainda estava casada, como cresciam os seus filhos. Imaginava a vida dela como se estivesse consigo, enquanto esperava uma oportunidade de se reaproximar e reconquistá-la.

Entretanto, recuperou o ânimo para trabalhar e descobriu que essa era a melhor forma de se distrair da sua obsessão de amor. Herdou um pequeno negócio de ourivesaria, prosperou, enriqueceu, embora acumulasse o dinheiro, que se ia multiplicando em investimentos ao longo de décadas, sem lhe tocar, por falta de interesse.

Para as pessoas do seu bairro, era apenas o senhor da ourivesaria que cuidava do seu pequeno negócio. Não tinha família nem amigos, mas na realidade era proprietário de várias ourivesarias, que fora adquirindo com o tempo, tornando-se imensamente rico, ainda que continuasse a morar no apartamento modesto de sempre, sem luxos nem ostentações.

Depois de saber da morte dela, sem ter voltado a falar com ela, a vê-la sequer, perdeu a cabeça. Revoltado, vendeu todos os seus negócios, deixou de trabalhar, fechou-se em casa. Passados dez anos, a vizinha de baixo, uma mulher enérgica, casada e mãe de duas crianças, leva-lhe comida diariamente, cuidando que ele passa dificuldades financeiras.

Agora, à beira dos oitenta anos, só sai de casa para ir acabar o dia ali à entrada da barra, no mesmo lugar onde a beijou pela primeira vez. Leva sempre uma flor, uma rosa, que deixa em cima do banco donde contempla o pôr-do-sol. Quem o vê, com a barba por fazer e o desmazelo da roupa, pensa que é apenas um velho indigente a deambular pelos lugares do costume. Mas ele vive sem sobressaltos, como um viúvo enredado em recordações felizes. Acredita que em breve se vai juntar a ela e já se preparou para isso. Comprou um lugar no cemitério, ao lado dela, e fez o testamento da sua colossal fortuna em nome da simpática vizinha de baixo.

Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)