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Correio da Manhã

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Um livro de auto-ajuda vital

Uma forma prática e acessível de resolver a sempre enfadonha dúvida de saber o que cozinhar para o jantar.
Adolfo Luxúria Canibal 27 de Outubro de 2019 às 09:00
Roland Topor
Roland Topor FOTO: Pactrice Bouver

Roland Topor foi um desenhador parisiense, nascido em 1938 e falecido em 1997. De ascendência judia polaca, passou a infância na Saboia, onde de 1941 a 1945 esteve escondido com os pais para escapar aos ocupantes nazis. Conhecido pelo desbragado humor negro que cultivou e que desenvolveu também na obra escrita, o seu trabalho gráfico, cheio de ‘non sense’ e de associações visuais que muito deviam ao surrealismo, estabeleceu uma lógica do absurdo tanto mais rigorosa quanto mais cruel e escatológica.

Em 1960, terminada a Escola de Belas-Artes de Paris, a Casa das Belas-Artes organizou a sua primeira exposição individual e é publicado ‘Les Masochistes’, o seu primeiro livro de desenhos, e ‘L’Amour Fou’, o seu primeiro conto. E desde o ano seguinte passa a colaborar com o mensário satírico ‘Hara-Kiri’, onde, anos mais tarde, conheci os seus famosos desenhos impregnados de sexualidade e de sadismo, como uma blasfémia permanente contra a normalidade.

De entre a sua vasta obra, entre o romance, o conto, o teatro, a ópera, o desenho, a ilustração, a pintura, o cinema, a televisão, a música ou a fotografia, destacam-se o romance ‘Le Locataire Chimérique’ (1964), que deu origem ao filme ‘O Inquilino’ (1976) de Roman Polanski, e os desenhos para o filme de animação ‘La Planète Sauvage’ (1973) de René Laloux. E, claro, ‘A Cozinha Canibal’ (1970), livro de culinária antropófaga criado na senda da ‘Singela Proposta para Evitar que os Filhos dos Pobres na Irlanda se Convertam num Fardo para os seus Pais ou para o País, Extraindo-se deles Benefício para a Comunidade’ (1729) de Jonathan Swift, que é aliás nele citado à laia de introito.

São mais de quarenta receitas onde se descrevem suculentos pitéus, truques de cozinha e sugestões de apresentação tendo por objecto a tão injustamente subvalorizada carne humana, da ‘Sopa de Doidos’ às ‘Sobras de Automobilista em Fricassé’, passando pela ‘Cabeça de Patrão com Puré’ ou pelo ‘Míope Gratinado’, num festim de humor negro que deixa certamente saciado o mais fino apreciador de iguarias.

antiga ortografia

Disco
Um primeiro amor não se esquece nunca
Retorno ao universo jazzístico que primeiro o influenciou, dando sequência à linhagem aberta em ‘Préliminaires’ (2009), agora com o trompetista Leron Thomas e a guitarrista Sarah Lipstate, ‘aka’ Noveller, para um curto disco meditativo e insinuante, à base de texturas sonoras minimalistas e envolventes.

Em busca do tempo levianamente perdido
Com ‘Sun Structures’ (2014), um primeiro álbum refinadamente lisérgico, foram a resposta britânica ao revivalismo psicadélico, mas tropeçaram ao comprido com ‘Volcano’ (2017), um disco sem magia nem encanto que querem agora fazer esquecer com estas canções de fino recorte onírico e forte pulsar ‘glam’.

Na senda da perfeição mais que perfeita
Ao 4º álbum a banda de Chicago atinge o classicismo que o seu ‘garage rock’ há muito perseguia e que ‘Down In Heaven’ (2016) já prenunciava. O que perde em impetuosidade ganha em sofisticação, mas sem nunca extinguir a obsessão ‘sixties’ e a alegria caótica que lhes deu fama na vibrante cena chicagoense.

Fugir de
Pixies
Com ‘Beneath the Eyrie’ os Pixies tentam recuperar a mística dos seus primeiros tempos, perdida com os desastres que foram ‘Indie Cindy’ (2014) e ‘Head Carrier’ (2016), os discos gravados após a reformação do grupo em 2004 e a saída da baixista Kim Deal (2013), e com os concertos sem chama nem carisma que os precederam. Mas, levados pela mão da nova baixista Paz Lenchantin face a um Black Francis amorfo desde então, o máximo que conseguem é um pastiche de ‘Bossanova’ (1990) e macaquearem-se a si mesmos. O que é miseravelmente pouco…

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