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Tiago Rebelo: "Um livro é como a vida: surpreende-nos"

Escritor e jornalista da CMTV inspirou-se nos acontecimento da segunda metade do século XVIII.
Vanessa Fidalgo 3 de Novembro de 2019 às 07:00
Tiago Rebelo
Tiago Rebelo
Tiago Rebelo
Tiago Rebelo
Tiago Rebelo
Tiago Rebelo

Com uma carreira literária de 20 anos, 16 livros publicados para adultos e quatro para crianças, Tiago Rebelo é um dos nomes seguros da atual geração de autores. ‘A Maldição do Marquês’ (Edições Asa) é o seu mais recente livro, um romance histórico que começa com o terramoto de 1755 para depois levar os leitores a viajar pela realidade política e social da segunda metade do século XVIII.

A história continua a seduzi-lo para escrever. Porquê?
A história é um manancial de informação e de coisas para contar, porque é a nossa história e a do nosso país. O desafio é conseguir encontrar personagens que se enquadrem dentro da história, dentro de determinada época, para criar um livro interessante.

Este período é especialmente rico em acontecimentos e personagens. Foi isso que o atraiu?É um período que foi particularmente difícil para Portugal, mas também de grandes desafios. A segunda metade do século XVIII é toda dominada pelos efeitos do terramoto que destruiu Lisboa – e não só, pois as consequências foram até ao Algarve -, teve efeitos a outros níveis e o debate estendeu-se por toda a Europa.

Mas o livro não fica apenas por aí, pelo terramoto. O livro tem personagens muito concretas (uma delas é o Marquês de Pombal) e essas personagens passam e influenciam uma parte dos acontecimentos do século XVIII português.

Ainda que não seja sobre o terramoto, é incrível como um acontecimento já tão distante continua a emocionar-nos tanto…

Sim. Foi um acontecimento que, pode dizer-se, marcou o País até hoje. Não só pela gravidade daquilo que aconteceu, mas sobretudo pela mudança total que se operou depois no País. As grandes repercussões do terramoto foram sobretudo a nível social e económico. Aliás, podemos dizer que há um Portugal antes do terramoto e um Portugal depois do terramoto.

Fazer este livro implicou mais pesquisa do que os livros anteriores?

A pesquisa foi muito trabalhosa. Esta é uma época que está muito retratada, mas embora haja muitas fontes, muitos relatos não só daquela época como dos vários acontecimentos políticos do século XVIII, isso torna tudo mais fácil por um lado, mas também obriga a um estudo muito grande.

Enquanto escrevia este livro tinha permanentemente quase dez livros abertos espalhados pela secretária. Talvez tenha sido o mas trabalhoso neste aspeto.

A história dá a rampa de lançamento para um livro, mas, de vez em quando, não espartilha o caminho que quer dar às personagens?

Não muito. Há personagens – como foi o caso do Marquês de Pombal – que têm uma história muito bem definida, que não posso mudar.

O grande desafio passa por encaixar a minha própria história. Porque embora seja tudo baseado em factos verídicos não deixa de ser uma obra romanceada e tem o desafio adicional: tu não conseguires dizer sequer, se não conheceres bem a história, distinguir quais as personagens que existiram mesmo ou aquelas que foram criadas pelo autor.

Que ingredientes deste livro destacaria?

A época é tão interessante e tão importante para Portugal... só o facto de sabermos que estamos a falar de uma época com tanta ação, tão rica e, ao mesmo tempo, tão romântica, é o suficiente para atrair o leitor e dar-lhe vontade de saber mais, de viajar até aquela época, mas também de passar um momento agradável a ler.

Tem livros muito diferentes uns dos outros. Acha que atraem perfis diferentes de público?

Não tenho muito bem a noção disso, mas acredito que talvez não sejam públicos tão diferentes assim. Também não me preocupo muito com isso.

A razão é que eu gosto de variar de estilo. Há livros que são um desafio maior, de maior responsabilidade, e depois há outros que gosto mais de ir escrevendo ao sabor da história, mais livremente, e sem aquela complicação de pesquisa que os livros históricos obrigam.

São 20 anos de livros. Está sempre a escrever?

Já tive alguns períodos menos produtivos, mas a vontade de escrever volta sempre e por isso acabo por estar sempre a escrever. Mas já tive alguns períodos de pausa, é verdade. O maior desafio do escritor não é escrever, é arranjar uma boa história! Uma história que interesse às pessoas, que elas gostem de ler e que prenda a atenção do leitor.

Desafio que vai sempre convocá-lo, certamente….

Acho que sim… Não estou a fazer planos, mas acho que vai haver sempre mais um livro.

Os seus livros já estão traduzidos em várias línguas e são editados em vários países além-fronteiras. Como tem sido o contacto com o público internacional? É diferente do português?

Confesso que não tenho tido muitas oportunidades para viajar e para estabelecer esse contacto mais próximo com outros públicos, mas, por exemplo, o último livro que publiquei no estrangeiro, no México, foi ‘O Homem Escandaloso’ e, na altura, fizemos uma sessão a partir do Skype e foi muito interessante – engraçado até – sentir que do outro lado do Mundo havia tanta gente interessada em saber coisas sobre um escritor do qual até então nunca tinham, muito provavelmente, ouvido falar.

Não que tenha sido uma conversa muito profunda, mas foi muito interessante. Além disso, a ideia de ter livros por aí, espalhados pelo Mundo, é muito motivadora e leva-nos a querer fazer mais, produzir mais, porque o objetivo do escritor é sempre esse: que o leiam.

Qual a coisa mais bonita (ou mais curiosa) que já lhe disseram sobre a sua escrita e sobre os seus livros?

As pessoas escrevem-me ou comentam às vezes à minha frente se gostaram ou não gostaram, mas assim… nada de especial.

O que sente de cada vez que põe um livro cá fora?

É o culminar de um projeto que demora muitos meses a escrever. Todos os dias se escreve mais umas páginas e sinto que muitas vezes a história vai-se escrevendo por si própria... ganha vida. Nós escrevemos também para ver como é que a história vai acabar. Já me aconteceu achar que a história ia acabar de uma determinada maneira, mas depois acabou de outra totalmente diferente!

É um bocado como a vida: nós às vezes fazemos também grandes planos para a vida e ela segue um caminho totalmente diferente. Um livro também é assim, como a vida: escreve-se e surpreende-nos. De maneira que, quando se põe um ponto final, é sempre um grande momento.

Tiago Rebelo Marquês de Pombal terramoto
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