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Correio da Manhã

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UM NO BANCO…OUTRO NA EUROPA

4 de Julho de 2004 às 00:00
Com a saída de Durão Barroso para a presidência da Comissão Europeia, Portugal perde o seu primeiro-ministro. O nome de Santana Lopes foi o primeiro a ser avançado para o lugar. Já os conhecemos enquanto políticos. Conheça agora o homem que mais hipóteses tem de vir a governar o País e aquele que já é certo na Europa.
SANTANA LOPES
Pedro Santana Lopes deveria ter uns 15 anos quando o pai, Aníbal Lopes, lhe disse: “Se quiseres ser alguém na vida tens de ser Presidente da Associação Académica de Lisboa”. Apesar de garantir que nunca fez nada na vida para realizar os sonhos do patriarca, na noite de 1977 em que foi eleito presidente da mesa das RGA (Reunião Geral de Alunos) veio sozinho para a rua, falar com as estrelas e com Deus: “Isto está a acontecer-me porquê?”, terá ele perguntado em voz alta, atónito com o que o futuro lhe tinha reservado.
Em 1978, no último ano do curso de Direito, cumpre a sua sina e torna-se presidente da Associação de Estudantes. Sentir-se-ia para sempre um predestinado. É nessa altura que Santana Lopes se impõe como orador. Quando discursa, as veias na testa incham e os olhos adquirem uma vivacidade inesperada. Fala com à-vontade de tudo, utiliza a lógica, mas sobretudo a retórica. Eterno ‘enfant térrible’ do PPD/PSD, os seus próprios apoiantes admitem que “acelera primeiro e pensa depois”.
Mesmo quem não o conhece pessoalmente define-o como um animal político, age por impulso e não por instinto. Muitos garantem que teria um futuro glorioso na política se não fosse essa mania de trocar constantemente de mulher. Mas Pedro Santana Lopes deixa passar a imagem de ‘playboy’, inconstante nos amores e adorado nas festas do ‘jet set’.
O homem que surpreendeu o País por pensar que Chopin compunha para violinos tornou-se num popular autarca. Conseguiu pôr a praia da Figueira da Foz na moda, mas tem tido mais dificuldades na capital. Nos últimos meses andava entusiasmado com o desafio de se candidatar à presidência da República: “Se eu for candidato, julgo que ganho”, reconheceu numa entrevista, cumprindo assim o sonho do seu ídolo, Sá Carneiro: um Governo, uma maioria um Presidente.
Ambicioso, ainda falta pôr cobro ao sonho de criança de que chegará a primeiro-ministro. Mas nunca se apresentará como um estadista com hábitos de santo: “Se um dia fosse eleito, a primeira coisa que faria era ir à Kapital, não vou mudar. Os outros são mais infelizes e isso serve-me de consolo. Se Deus me der saúde, ainda chego lá”, confessou a um jornal. Terá chegado a sua hora?
QUEM É PEDRO?
Tem charme e fama de ‘playboy’. É um animal político desde o berço. Dizem que acelera primeiro e pensa depois.
Origens
Santana Lopes nasce com 4,5 quilos na clínica de São Miguel, a 29 de Junho de 1956, dia de S. Pedro, sob o signo de Caranguejo. Filho de Aníbal Lopes, que nessa altura trabalhava nos escritórios da Companhia das Lezírias, e Maria Ivone, enfermeira no Instituto de Oncologia de Lisboa. Pedro Santana Lopes teria 4 ou 5 anos quando a família, católica e muito rigorosa nas obrigações religiosas, se mudou de Benfica para os Olivais Sul. Aos domingos nunca falha à missa, e diz que quer ser padre.
Educação
Ginástica no Sporting, violoncelo e flauta na Gulbenkian, francês na Alliance, revela um a grande preocupação dos pais em proporcionar uma educação de qualidade aos filhos. Santana Lopes fez o secundário no Liceu Padre António Vieira e a sua maior malandrice era oferecer 20 escudos ao colega Francisco Louça, actual deputado do Bloco de Esquerda, para ele dizer palavrões. Os professores nunca o viram com um livro nas mãos. A única leitura era a ‘A Bola’, vício das segundas-feiras.
Faculdade
No seu primeiro ano de universidade, 1974, Abril traz a mudança. Em Direito, o ambiente incendeia-se. As sebentas são substituídas por Marx, Lenine e Mao. Santana era bom aluno e já se metia em políticas, primeiro no Movimento Independente de Direito (MID) e depois na primeira linha do PPD. Na balbúrdia académica ganha o cognome de ‘racha cabeças’. Termina o curso com 15 valores.
Amizades
Conheceram-se na Faculdade de Direito de Lisboa, em Outubro de 1973 e foram colegas de turma desde o primeiro ao quinto ano. Como assessor jurídico de Sá Carneiro, Santana gaba ao seu ídolo as qualidades de Durão Barroso, bolseiro em Genebra. Nas férias do Natal de 1980 estava agendado um encontro entre os dois. Mas Sá Carneiro morreu duas semanas antes. Quando Cavaco Silva ganhou as primeiras eleições, Santana fez ‘lobby’ para que o amigo Durão Barroso integrasse o executivo como secretário de Estado. Anos mais tarde, voltou a ser Santana Lopes a mexer os cordelinhos e a arranjar-lhe um lugar no Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Ídolo
Se nos afectos soma paixões, na vida política só teve um ídolo: Francisco Sá Carneiro. Foi num congresso do Cinema Roma que os dois se conheceram. O líder pede para lhe apresentarem o jovem que tinha acabado de discursar. No bar do cinema sela-se uma amizade que durará para sempre. Em 1979, a AD ganha as eleições e Sá Carneiro oferece-lhe o lugar de assessor jurídico em São Bento. Até ao trágico dia 4 de Dezembro de 1980, os dois estão quase sempre juntos. A morte do ídolo foi o desgosto de uma vida. Um trauma difícil de curar.
Cavaco Silva
Em Maio de 1985, Cavaco Silva triunfa no Congresso da Figueira da Foz e convida Santana Lopes para secretário de Estado da presidência do Concelho de Ministros, onde aguenta dois anos – queria ser ministro. Amua com o primeiro-ministro e abandona o Governo a troco de um lugar no Parlamento Europeu, onde também não criou raízes. Nomeado secretário de Estado da Cultura por Cavaco demitiu-se em 1994.
Sporting
“Acabou a brincadeira”, foi com esta célebre frase que Santana Lopes aterrou no futebol, em 1995, com ideias de o moralizar. Dez meses à frente do clube de Alvalade foram suficientes para aumentar as dívidas do clube. Apesar das promessas de ficar, acabou por sair antes do tempo, deixando a sua marca: milhões de contos na aquisição de jogadores (muitos de qualidade duvidosa), empréstimos bancários para fazer face à crise, aumento no salário do treinador Carlos Queiroz.
Medos
Diz que o número 34 o tem perseguido ao longo da vida. Está sempre presente nas coisas boas ou más da vida. Por exemplo, o seu número confidencial no Governo começava por 34. E o avião onde morreu Sá Carneiro tinha o código número…34. Tem horror à tinta preta. Nos automóveis o limite máximo é o cinzento ou o azul. Pretos só os cintos ou os sapatos. Teve uma fase de medo de andar de avião e, quando era eurodeputado, chegou a ir de automóvel de Lisboa para Estrasburgo. Tem pânico de trovoadas, viaja sempre acompanhado de um terço.
Prazeres
Não gosta de se levantar com os galos. Amigo de folgar, espairecer, aproveita o fim-de-semana para se deitar com a alva. Gosta de ir a discotecas. São conhecidos os seus gostos por gravatas de marca e fatos de bom corte. Circula com um Audi A8 4.2 V8 Quattro, ao serviço da CML, que custou 115 mil euros (quase 23 mil contos).
Percurso
Ao longo da carreira, Santana foi fazendo jus à fama de frontalidade e de alguma rebeldia. Começou cedo na política. Passou pelo gabinete de Sá Carneiro, foi deputado em São Bento e em Estrasburgo, secretário de Estado da Cultura, presidente do Sporting, da Câmara da Figueira da Foz e da de Lisboa. Candidatou-se várias vezes à liderança do PPD/PSD (como gosta de dizer) mas nunca ganhou.
Amores
Ganhou a fama de namoradeiro nos bancos da escola primária, e consolidou-a na juventude. Isabel Martins, estudante de Direito como ele, foi a primeira a dar o nó com Santana, no final de 1979. O casamento durou cerca de sete anos, tiveram um filho, o Gonçalo, hoje com 23 anos. Conheceu a sua segunda mulher na discoteca Stones.
O namoro com Teresa, filha do general Kaúlza de Arriaga, durou um ano e acabou em casamento – para grande desgosto do pai. Pedro e Teresa tiveram dois filhos, Duarte e Zé Maria, mas acabariam por se separar uma década depois. A senhora que se segue é Tita Bagulho, com quem viveu dois anos no Estoril. Aos três filhos vieram juntar-se os gémeos Carolina e Diogo. A ‘socialite’ Catarina Flores, que esteve sempre ao lado dele na eleição para a Câmara de Lisboa, foi a sua última namorada mais conhecida.
Cinha
Foi durante umas férias com Tita Bagulho e os filhos no Algarve, no início dos anos 90, que Santana Lopes conheceu Cinha Jardim, nessa altura ainda a viver no Porto com Raul Leitão. Depois de muitas conversas e telefonemas, ela veio para Lisboa, com as duas filhas, e ele acabou por sair de casa. Enquanto viviam juntos Cinha até ganhou a alcunha de ‘Branca de Neve’ porque aparecia em todo o lado com sete crianças, todas de mãos dadas umas às outras.
O FASCÍNIO DE PEDRINHO
Conceição Monteiro não esconde que o barbudo estudante de Direito que conheceu em 1978 tinha "grande fascínio”. E chama-lhe Pedrinho.
Quando o avião se despenhou em Camarate, Pedro Santana Lopes subiu ao gabinete de Conceição Monteiro na residência oficial de São Bento. “Passámos as primeiras horas daquela noite, os dois sentados no sofá sem dizermos palavra. Talvez ele pensasse o mesmo que eu, que tudo aquilo era um sonho mau e íamos despertar a qualquer instante.”
Conceição Monteiro deputada na bancada social-democrata durante oito anos, conheceu ‘Pedrinho’ quando ele tinha 21 anos e ainda estudava na Faculdade de Direito de Lisboa. Ela tinha 42, era secretária de Francisco Sá Carneiro. “Foi em casa de Fernando Correia Afonso, em 1978, quando se organizou um grupo de 50 pessoas que queriam que Sá Carneiro regressasse à liderança do partido. Entre essa meia centena estava ele, um jovem da JSD dos Olivais, magro e com uma grande barba.”
Conceição Monteiro com “idade para ser mãe dele” confessa a impressão que aquele jovem estudante lhe causou. Diz que era impossível não se reparar no seu “grande fascínio” – “dava-se logo por ele, tinha muito jeito para falar e para sintetizar as impressões dos outros”. Foi essa facilidade que levou a que a redacção final da Moção J ficasse a cargo de Pedro Santana Lopes.
O documento estabelecia a estratégia a adoptar pelo partido de modo a criar condições para que Sá Carneiro regressasse à liderança. “Criou-se um grupo mais pequeno de cinco ou seis pessoas e foi aí que comecei a colaborar mais de perto com ele. Ele tinha por missão pôr num português bonito as ideias que tinham sido transmitidas pelo grupo original dos 50 e dar um tom harmonioso à versão final da moção.”
Um miúdo debaixo da barba
Durante três semanas, antes do congresso de Julho de 1978, Pedro Pais Vasconcelos, Fernando Correia Afonso, Dina Alhandra, Carlos Horta e Costa, João Santos Lima (e respectiva mulher), Conceição Monteiro e Santana Lopes reuniram-se nas residências de alguns deles na Calçada das Necessidades, Artilharia 1, Calçada da Estrela e em Belém. O benjamim do grupo era rapaz solteiro e vivia nos Olivais, numa casa paterna ainda cheia de crianças, os seus seis irmãos mais novos.
“Ele parecia um miúdo se a gente visse por debaixo da barba. E aqueles dias foram vividos com muita alegria. Era comum brincarmos uns com os outros, contar histórias sobre as várias facções do partido na altura.” Bebiam-se cafés e comiam-se sandes para aguentar as noitadas dos dias de semana. E aos sábados e domingos mandava-se vir comer “da tasca mais próxima”.
A redacção da Moção J e a intervenção no congresso impressionaram Sá Carneiro que nunca tinha até então visto aquele jovem barbudo da Faculdade de Direito e convida-o para a comissão de revisão da Constituição. “Eu adorava aquele miúdo. Ele era diferente dos outros na JSD. Tinha uma maneira de analisar as coisas extraordinária. Sá Carneiro reconheceu-o porque quando vai para primeiro-ministro em 1980, espera que ele termine o Mestrado na Alemanha para ocupar o lugar de assessor jurídico, vago até que regressasse. Ele só tinha 23 anos.”
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