Sub-categorias

Notícia

Um poeta para redescobrir

Os seus versos procuram deixar uma morada onde a memória não arda.
12.08.18
  • partilhe
  • 2
  • +
Um poeta para redescobrir
Foto Direitos Reservados
Por Francisco José Viegas 

Lida à distância, discreta mas poderosa, a poesia de Eduardo Guerra Carneiro evoca um tempo que as "novas gerações" já não conhecem. Mesmo a sua poesia teria ficado para trás, não fosse a editora Língua Morta ter publicado recentemente uma antologia, ‘Mil e Outras Noites’, o que obriga a leituras de verão: há poemas em que nada desapareceu, nada se perdeu, nem o pó dos livros. Ele, que trabalhou em jornais (‘Primeiro de Janeiro’, ‘República’, ‘Diário Popular’, ‘Século’, ‘Portugal Hoje’), sabia que o papel tem o destino marcado – e a sua poesia ressente-se desse pânico e procura deixar uma morada onde a memória não arda.

Nascido em Chaves, em 1942 (morreu em Lisboa em 2004), os versos de Eduardo Guerra Carneiro mencionam sempre a sua origem. A par de Lisboa e da sua noite (viveu-a intensamente), da menção permanente à realidade mais imediata, da inclinação melancólica sem cinza nem dourados – Trás-os-Montes aparece sempre como uma recordação musical: "O som dos chocalhos mistura- -se/com o da gaita de foles e vejo/uma águia nas alturas – sombra/marcada no granito da serra." Mas não há qualquer cedência ("A província é triste", avisa). Os seus livros estão cobertos de ironia, o veneno dos românticos: "Dizias, noutros textos, meu manhoso,/que ao virar dessa esquina ali já estava/o gozo do real, outra lufada de ar. [...]// Hoje, mandrião, olhas as folhas,/ já secas de outras horas, e recolhes/o silêncio. Anda-me, garoto: vai/em frente. Não tenhas medo, nem/percas calendários. Não sentes o ar/ligeiro onde brilham borboletas?"

pub

pub

Ver todos os comentários
Para comentar tem de ser utilizador registado, se já é faça
Caso ainda não o seja, clique no link e registe-se em 30 segundos. Participe, a sua opinião é importante!